Crise do coronavírus se acelera no Brasil e faz América Latina concentrar boa parte dos novos casos

País já é o segundo em número de contágios globalmente, mesmo com falta crônica de testes. Argentina, com 445 mortes, vai bem melhor, mas teme por sua situação econômica

Familiares de Geraldo Magalhães, morto por coronavírus, choram durante o enterro em Vila Formosa, o maior cemitério do Brasil, em São Paulo, em 22 de maio.
Familiares de Geraldo Magalhães, morto por coronavírus, choram durante o enterro em Vila Formosa, o maior cemitério do Brasil, em São Paulo, em 22 de maio.AMANDA PEROBELLI / Reuters

A pandemia de coronavírus se espalha pela América Latina. A região registra 51,4% dos casos considerados ativos no mundo nos últimos 14 dias, com 657.000 casos confirmados. Os especialistas advertem que a curva se intensificou e que o pico está próximo. A tendência fez soar o alarme da Organização Mundial da Saúde (OMS), que na sexta-feira declarou que a região, e sobretudo a América do Sul, “é o novo epicentro da doença”. As atenções estão voltadas para o Brasil, onde os novos positivos superaram a marca dos 20.000 na sexta-feira e 16.000 no sábado. Com 347.000 casos e mais de 22.000 mortos, o gigante latino-americano está em segundo lugar no pódio de contágios, atrás apenas dos Estados Unidos e na frente da Rússia.

A propagação do vírus no Brasil coincide com a crise política. O presidente Jair Bolsonaro está em guerra aberta contra os governadores que aplicam o confinamento em seus Estados. O líder ultradireitista vê por trás da quarentena uma mão sombria disposta a arruinar a economia brasileira e, com isso, seu Governo. As diferenças de estratégia alimentaram um coquetel explosivo. O país soma 22.013 mortes por covid-19, de acordo com o último balanço do Ministério da Saúde. O Brasil é também um dos que menos testes têm aplicado em sua população, o que torna a subnotificação superior à de nações como os EUA. Uma projeção feita pelo EL PAÍS com base em uma metodologia de médicos e epidemiologistas britânicos aponta que o número de casos no Brasil pode estar em torno de 3,7 milhões.

Além disso, há milhares de mortes possivelmente por covid-19 que jamais entrarão nas estatísticas e fariam aumentar em até 50% o número de óbitos atuais. Desde o início da pandemia, o Brasil contabilizou outras 11.730 mortes por síndrome respiratória aguda grave (SARS), uma condição causada pela covid, mas também por outras doenças. O Ministério da Saúde nunca saberá quantos desses óbitos foram causados pelo novo coronavírus. O Governo admite que isso se deve a que os pacientes foram mal analisados ou a que a amostra não foi colhida corretamente. “Como não há outra epidemia relevante no país, grande parte dessas mais de 11.000 mortes se deve à covid”, explica o epidemiologista Antônio Silva Lima Neto. Um estudo do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), da Universidade de Washington, nos EUA, prevê que o país possa chegar à marca de 88.000 mortes no começo de agosto, ainda que explique que a metodologia prevê uma ampla margem de erro na projeção: no cenário mais otimista, os óbitos serão 30.000 em 4 de agosto, enquanto no pessimista serão mais de 193.000. O método de análise combina estatísticas com dados de estrutura do atendimento de saúde.

Embora o Governo tenha prometido aumentar o número de testes disponíveis para 17 milhões até o final do mês, distribuiu menos da metade. As autoridades nem sequer sabem qual é o número total de exames realizados porque não puderam agregar os dados da rede de saúde privada à base que compila, somente os de laboratórios públicos.

Argentina controla mortes, mas teme por economia

A situação dos vizinhos do Brasil é diferente. No sábado, a Argentina estendeu por mais duas semanas o confinamento obrigatório vigente desde 20 de março. Manteve o vírus sob controle, com 11.353 casos detectados e 445 mortos, mas teme agora que não possa gerir o custo econômico. A atividade caiu 11,5% em março na comparação interanual, com apenas 10 dias de quarentena. Abril mostrará as cifras de uma crise sem precedentes. Com sua dívida externa em default técnico, o Governo de Alberto Fernández tenta renegociar com os credores às pressas para evitar um mal maior. Já o Chile tem uma economia robusta, mas acumula problemas sanitários. Os casos positivos superam os 62.000, e os leitos de UTI já dão sinais de saturação. As reivindicações sociais, paralisadas pela quarentena, foram retomadas com exigências de trabalho e alimentos nos bairros mais pobres da capital.

As estatísticas oficiais colocam a Venezuela como um dos países com menos casos: 994 positivos e 10 mortos. Mas os contágios aumentaram 40% na última semana, o que mostra que a situação pode mudar rapidamente. O Equador registrou 5.082 mortos, enquanto no Peru o presidente Martín Vizcarra prorrogou pela quinta vez o toque de recolher que devia finalizar neste domingo—uma medida extrema que não consegue deter a propagação do vírus. Com 115.000 positivos e 3.373 mortos, o Peru é o segundo país da região em número de infectados. A Colômbia, com 20.177 registros de coronavírus, somou 23 mortos aos 673 que tinha na sexta-feira, e 1.064 novos positivos, seu maior registro diário desde o início da pandemia. Como acontece com grandes centros como Buenos Aires, Santiago e São Paulo, Bogotá é a cidade mais atingida do país.

O México passa pelo ponto culminante da pandemia. No sábado, foram contabilizados 3.329 casos positivos, a cifra diária mais alta após o anúncio da emergência sanitária, em 30 de março. Desde então, foram registrados 7.179 mortos e quase 66.000 contágios, apesar dos poucos testes realizados. A gestão da crise gerou muitas críticas e graves denúncias jornalísticas ante a errática gestão e a suspeita de que centenas de casos são ocultados. Há uma semana, as autoridades anunciaram que conseguiram “achatar a curva”, e nos últimos dias apresentaram um plano de retorno à “nova normalidade”. Mas o país registra todos os dias recordes de falecidos, e a pandemia atinge com dureza a Cidade do México, que soma quase 1.600 mortos, o Estado do México, a área metropolitana da capital (1.200 mortos) e os Estados de Baixa Califórnia, Tabasco e Sinaloa.

Depois de muitos dias zombando dos efeitos do vírus, o presidente Andrés Manuel López Obrador propôs, no início de abril, um confinamento voluntário que durará até 1.o de junho, embora sejam os Estados e municípios os encarregados de gerir a dureza da medida. As restrições detiveram por completo a atividade econômica do país, paralisando lugares como Monterrey, Guadalajara, a zona industrial de El Bajío, o turismo de Cancún e as maquilas que atendem à demanda dos EUA. As consequências econômicas traçam um dos panoramas mais sombrios da região, com uma queda de 10% a 12% do PIB.

Enquanto crescem as estatísticas da América Latina, continua a queda na Europa, que contabiliza 23,5% dos casos mundiais. Segundo a OMS, 12% dos contagiados estão na região do Mediterrâneo e 7% na Ásia. Na África, foram registrados apenas 2,8%.

Errata: Por erro da edição, uma primeira versão desta reportagem afirmou, erroneamente, que a América Latina concentrava metade dos casos de coronavírus no mundo. Na verdade, a região concentra metade dos novos casos contabilizados nos últimos 14 dias e considerados ativos.

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