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Como uma série de jovens ‘strippers’ se transformou em uma das mais vistas da Netflix

Estamos diante da próxima ‘La casa de Papel’?

Imagem da série 'Toy Boy'. Jesús Mosquera, ex-jogador de futebol, no centro.
Imagem da série 'Toy Boy'. Jesús Mosquera, ex-jogador de futebol, no centro.Atresmedia

Poucos anos atrás, para avaliar o sucesso alcançado por uma série de televisão, era preciso levar em consideração duas variáveis conclusivas: sua audiência em canal aberto e as críticas recebidas por parte da imprensa especializada. Enquanto esse segundo elemento podia ser ignorado se o primeiro se mostrasse incontestável, poucos pensavam que em tão pouco tempo chegaríamos a uma situação em que as duas variáveis podem ser perfeitamente prescindíveis. Hoje, à equação se somam outras fórmulas tão ou mais importantes: buscas do Google em todo o mundo, números de publicações no Twitter sobre a série e o aumento de seguidores no Instagram de seus protagonistas. Para entender o vertiginoso sucesso de ‘Toy Boy’(Garoto brinquedo, em tradução livre) é preciso prestar atenção a essas últimas. A série espanhola criada pela produtora Plano a Plano e Atresmedida, exibida no canal de televisão aberto Antena 3 ano passado, se transformou em um inesperado triunfo, viral e internacional, quando estreou na Netflix no final de fevereiro. Estamos diante da nova La Casa de Papel?

Os Estados Unidos, Brasil, Argentina, Índia, México e mais uma dúzia de países em todo o mundo colocaram ‘Toy Boy’ como uma das dez séries mais vistas da plataforma de streaming em apenas quinze dias. A atração por esse thriller erótico-criminoso está fazendo estragos entre espectadores que, em tempos de confinamento, parecem precisar mais do que nunca estimular a imaginação com tramas que apelam sem complexos à diversão instantânea, cliffhangers vertiginosos e planos, muitos planos, de abdomens perfeitamente definidos. ‘Toy Boy’ contra a história de um stripper (Jesús Mosquera) condenado à prisão por um crime que nega ter cometido. Ao sair, tentará provar sua inocência com a ajuda de uma jovem advogada interpretada por María Pedraza, a atriz que com somente 24 anos já é uma das estrelas indiscutíveis da plataforma graças ao seu trabalho em La Casa de Papel e Elite.

Mas como conseguiu prender a atenção de um público tão heterogêneo tão rapidamente? “É uma série que, dentro de sua originalidade, reúne ingredientes muito comerciais e variados: drama, crime, poder”, diz a S Moda seu produtor executivo, Emilio S. Pina. A ficção não engana o espectador e as primeira palavras pronunciadas pelo stripper protagonista no episódio piloto resumem exatamente os pontos mencionados: “Imagine o que você mais deseja: sexo, festas, dinheiro... Eu tenho tudo”. Toy Boy recebeu comparações lógicas com ‘Magic Mike’, o filme de David Soderbegh sobre o grupo de gigolôs liderado por Channing Tatum e Matthew McConaughey, mas com a singularidade da mudança de ponto de vista no momento de contar esse tipo de história. Se antes a mulher teria sido apresentada como o objeto nas mãos do homem poderoso, aqui acontece exatamente o contrário. “A aproximação feminista é, sem dúvida, um fator determinante que quisemos destacar desde o começo”, afirma Pina.

Apesar da imprensa especializada não ter sido muito benevolente com as virtudes da série, os espectadores se transformaram em seus melhores prescritores, enchendo as redes sociais de mensagens sobre como lidam com a ‘vontade’ dos episódios disponíveis. Enquanto uma norte-americana afirmava no Twitter que o vício à série a fez dormir às cinco da manhã e voltar a se levantar poucas horas depois para poder continuar, uma panamenha, também pelo Twitter, afirmou que após devorar ‘Elite’ e ‘Toy Boy’ em um final de semana “já se sentia espanhola”. Outro dado que fala claro sobre seu alcance é que os seguidores da conta do Instagram do protagonista da série, o ex-jogador de futebol Jesús Mosquera, se multiplicaram por seis nos últimos dias e já se aproximam de 250.000 pessoas.

Apesar do thriller ter sido exibido sem muito alarde na Espanha no ano passado, a série também lidera o ranking do mais visto durante a última semana na Netflix Espanha. Repetindo o ocorrido com ficções como ‘La Casa de Papel’ – um fenômeno global somente quando aterrissou na plataforma – e confirmando essa segunda oportunidade oferecida pelo digital a muitas séries no novo modelo de consumo de ficção. A repercussão gerada por esse pitoresco grupo de ladrões foi chamada por Emilio A. Pina de fundamental para inaugurar um caminho não transitado antes pela ficção espanhola. “As plataformas se transformaram na ferramenta definitiva para exportar nossas séries. Graças a fenômenos como ‘La Casa de Papel’, a ficção espanhola se colocou no objetivo do mercado internacional e despertou seu interesse”. O ‘Sucessor’ (Netflix) e ‘El Pueblo’ (Amazon Prime) são outros exemplos recentes dessa dualidade.

Ainda é uma incógnita se Toy Boy conseguirá repetir a inusitada ressurreição experimentada por La Casa de Papel, que deixou de ser uma série prestes a ser cancelada na Antena 3 a aparecer em marquises e fachadas nas capitais de todo o mundo. “Penso que poderia acontecer a mesma coisa, por que não?”, conclui seu produtor, comentando sobre a oportunidade oferecida pela Netflix em difundir sua série em 145 países. “Mesmo a divulgação sendo diferente para cada produção, a verdade é que dentro do catálogo ocorre uma certa democratização. Essa é a razão pela qual às vezes uma série, sem que necessariamente seja a mais visível, pode ter melhor sorte e se transformar em um fenômeno”. Pina confirma que a produtora fundada por César Benítez (responsável também por outros sucessos como ‘O Príncipe’ e ''Allí Abajo) tinha “muita confiança” na segunda vida da ficção, mas ainda não pode confirmar se farão uma nova temporada. Uma decisão que, afirma, cabe exclusivamente à plataforma. Se os espectadores continuarem contratando com o mesmo entusiasmo as danças privadas desse grupo de strippers, certamente os veremos brilhando nos palcos durante muito mais tempo.

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