Coluna
Artigos de opinião escritos ao estilo de seu autor. Estes textos se devem basear em fatos verificados e devem ser respeitosos para com as pessoas, embora suas ações se possam criticar. Todos os artigos de opinião escritos por indivíduos exteriores à equipe do EL PAÍS devem apresentar, junto com o nome do autor (independentemente do seu maior ou menor reconhecimento), um rodapé indicando o seu cargo, título académico, filiação política (caso exista) e ocupação principal, ou a ocupação relacionada com o tópico em questão

Não permitamos que ocorra às mulheres afegãs o que está prestes a acontecer

Quando os direitos das mulheres em algum lugar do mundo são esmagados só se pode confiar em algo: na força, na fúria das outras mulheres. Com o avanço do Talibã, precisamos nos mobilizar para ajudá-las antes que caia sobre nós a maior das vergonhas

Mulheres afegãs que fugiram do avanço dos talibãs esperam para receber comida de ajuda humanitária em um parque de Cabul, na sexta-feira.
Mulheres afegãs que fugiram do avanço dos talibãs esperam para receber comida de ajuda humanitária em um parque de Cabul, na sexta-feira.WAKIL KOHSAR (AFP)
Mais informações
Taliban fighters drive an Afghan National Army (ANA) vehicle through a street in Kandahar on August 13, 2021. (Photo by - / AFP)
Pontos-chave para entender o que se passa no Afeganistão
KABUL, AFGHANISTAN - AUGUST 12: Farzia, 28, who lost her husband in Baghlan one week ago to fighting by the Taliban sits with her children, Subhan, 5, and Ismael ,2,  in a tent at a makeshift IDP camp in Share-e-Naw park to various mosques and schools on August 12, 2021 in Kabul, Afghanistan. People displaced by the Taliban advancing are flooding into the Kabul capital to escape the Taliban takeover of their provinces. (Photo by Paula Bronstein/Getty Images)
Talibã reforça seu rápido avanço com a tomada de Kandahar, segunda maior cidade do país
Pentagon spokesman John Kirby pauses during a briefing at the Pentagon in Washington, Thursday, Aug. 12, 2021. With security rapidly deteriorating in Afghanistan, the United States is evacuating some personnel from the U.S. Embassy in Kabul, and U.S. troops with be assisting at the Kabul airport. (AP Photo/Andrew Harnik)
Estados Unidos enviarão 3.000 soldados ao Afeganistão para garantir a retirada de seus diplomatas

No final deste mês de agosto as últimas tropas norte-americanas abandonarão o Afeganistão, com exceção dos destacamentos encarregados de evacuar, através do aeroporto de Cabul, o pessoal diplomático e milhares de colaboradores afegãos que terão asilo nos Estados Unidos. A Espanha também organiza sua pequena operação conjunta entre os ministérios da Defesa, Interior e Relações Exteriores, para evacuar 40 afegãos e suas famílias que ajudaram as tropas espanholas que lá estiveram mobilizadas por vários anos e que agora se expõem à vingança certa dos talibãs.

“Os afegãos precisam lutar por si mesmos”, disse o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, há poucos dias. E as afegãs? O que será das mulheres que desde 2001, com a invasão das tropas dos Estados Unidos e da OTAN, voltaram às escolas e agora são professoras, jornalistas, médicas, enfermeiras, secretárias, policiais, vereadoras e deputadas? 25% do atual Parlamento de Cabul são mulheres; mais de 100.000 fazem parte de conselhos locais.

Como vão se defender? Como vão se defender as orgulhosas e infelizes adolescentes afegãs que apareceram há dias nas ruas da província de Ghor empunhando velhos fuzis e desafiando a iminente chegada dos talibãs? São elas que precisarão derrotar um exército que todos os Estados Unidos não foram capazes de controlar? O que será de todas elas? Ninguém na Casa Branca e na ONU ficou doente ao escutar que o compromisso talibã em relação a essas mulheres é “garantir seus direitos de acordo com o islã”? Os talibãs não são o islã, e sim uma ideologia político-religiosa com um extraordinário componente de opressão sobre as mulheres e há esmagadoras evidências disso.

Os relatos da jornalista britânica Emma Graham Harrison para o The Guardian estão cheios de admiração por essas decididas mulheres, mas não ocultam seu pânico pela tragédia que se avizinha. As demonstrações de força e ânimo das adolescentes e das mães que tentaram educá-las em liberdade também são demonstrações de seu medo e desespero pelo abandono em que ficam. Os talibãs não mudaram: continuam considerando as mulheres seres humanos inferiores que não podem reclamar e exercer os mesmo direitos que os homens. Jornalistas como Graham Harrison dão todos os dias depoimentos do que acontece nos territórios que vão caindo em seu poder: as mulheres não têm permissão para sair à rua sem companhia de um familiar homem, não podem frequentar as escolas públicas e os hospitais gerais, não podem trabalhar e devem se cobrir totalmente (burca).

Em 10 de agosto, o The Guardian publicou um artigo sem assinatura, mas escrito por uma jovem jornalista de 22 anos: “Há dois dias fugi de minha casa no norte do Afeganistão pela chegada dos talibãs à minha cidade... Continuo fugindo e não há lugar a salvo para mim... Na semana passada eu era jornalista, hoje sequer posso dizer meu nome... Tenho medo e não sei o que me acontecerá... Todas as minhas colegas estão aterrorizadas..., por favor, rezem por mim”.

Talvez, além de rezar, nós mulheres de todo o mundo possamos fazer algo mais, antes de que caia sobre todas nós a maior das vergonhas. Já sabemos que quando os direitos das mulheres em algum lugar do mundo são esmagados só se pode confiar em algo: na força, na fúria das outras mulheres. Não permitamos que ocorra o que está prestes a acontecer. Vamos pedir direito de asilo para as mulheres afegãs que fogem, sejam milhares e dezenas de milhares. Apoiemos com dinheiro, com trabalho voluntário, como pudermos, todas as associações e organismos que possam enviar ajuda para que elas resistam. Vamos exigir de nossas deputadas e ministras que se organizem e ajam. Vamos nos mobilizar já, agora, e com toda a fúria de que somos capazes. Não permitamos.

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.


Faça seu login para seguir lendo

Saiba que já pode ler este artigo, é grátis

Obrigado por ler o EL PAÍS

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS