Pedra de toqueColuna
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“Não tirem o corpo da seringa”

A minha impressão, da longínqua Madri e pelas múltiplas e contraditórias informações que me chegam, é de que houve graves irregularidades nas eleições presidenciais do Peru

FERNANDO VICENTE

Desde a primeira vez em que a ouvi falar, no alto de uma sacada da Plaza Bolognesi, em Lima, faz muitos anos, pensei que a social-cristã Lourdes Flores Nano seria uma magnífica presidenta do Peru. As coisas não transcorreram assim, mas, se ela tivesse ganhado a eleição presidencial que disputou com Alan García, suspeito que Lourdes teria cumprido suas promessas e que García provavelmente estaria vivo (se suicidou quando ia ser preso).

Escutei-a falar em um programa de televisão sobre o discutido tema da “fraude” eleitoral que teria marcado o segundo turno das eleições peruanas. Ela, que é advogada, havia explorado esse assunto com um grupo de colegas. Afirmava, com firmeza, que eles haviam constatado, de maneira inequívoca, nos povoados da serra que tinham estudado, que houve muitas assinaturas falsas nas atas correspondentes e um suspeito incremento da votação do candidato Castillo no segundo turno, o definitivo. Lourdes Flores aceita a lei vigente no Peru, que deposita nos quatro membros do Júri Nacional de Eleições toda a responsabilidade de decidir se estas eleições refletem a “verdade” ou a desfiguram. E acrescentou, exortando os quatro juízes, com um peruanismo um tanto fétido que ressoou nostalgicamente em meus ouvidos: “Sejam corajosos, não tirem o corpo da seringa”. Esperemos que não.

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A investigação realizada por Lourdes Flores Nano e o grupo de advogados que a acompanha se concentra no caso de algumas cidadezinhas da região serrana peruana, representativas de uma área geográfica determinada. A primeira coisa que investigaram foi se havia vestígios de “assinaturas falsas”. Para isso, recorreram a um perito em grafologia que submeteu aquelas atas a um exame morfológico e cobrou 120 dólares pelo trabalho. Em todas elas encontrou vestígios de falsificações de assinaturas, às vezes do próprio chefe da seção eleitoral. Por outro lado, o exame dessas atas mostra uma tendência claríssima: ao mesmo tempo em que os votos que Keiko Fujimori havia obtido no primeiro turno desapareciam no segundo, os votos assim expressos passaram no segundo a engrossar a candidatura de Pedro Castillo. Lourdes Flores pediu, com bom discernimento, que os quatro membros do Júri Nacional de Eleições submetam ao mesmo exame as mais de 800 atas contestadas na votação do segundo turno, em nome da “verdade eleitoral”.

O importante não é ter um presidente da República que seja um andino humilde, como acreditam alguns correspondentes que os jornais europeus mantêm no Peru, mas ter um presidente eleito pela maioria dos eleitores peruanos e não um presidente fraudulento. Este assunto é o fermento de todos os tipos de especulação e sintomas de violência no Peru, e, a menos que o Júri Nacional de Eleições proceda com a seriedade e a responsabilidade que Flores Nano lhe exige, a violência pode irromper mais uma vez, tão logo seja conhecido o resultado eleitoral. Antes que isso aconteça, tudo é preferível. Alguns reivindicam, entre as soluções possíveis, a de cancelar a eleição defeituosa e convocar novamente uma eleição definitiva, rodeada, esta sim, da vigilância que impede nas seções qualquer deformação dos resultados eleitorais genuínos. Mas o ex-primeiro-ministro Pedro Cateriano argumenta que essa alternativa é inconstitucional.

Os observadores enviados pela OEA (Organização dos Estados Americanos) ao Peru se apressaram, sem dúvida, em declarar que essas eleições foram “limpas” e em felicitar o Governo peruano por isso. Todos os indícios —para além da investigação de Flores Nano e do seu grupo de advogados— revelam que essa felicitação foi um tanto precipitada e, como ela disse, “muito diplomática”.

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O grupo de juristas que representa Keiko Fujimori, e que agora está acompanhado por um eminente homem de Direito que está além do bem e do mal, é amplamente respeitado e tem credenciais democráticas impecáveis pelo seu papel nos anos 90 — o doutor Óscar Urviola impugnou mais de 200.000 votos, por terem sido obtidos por meio de manipulações como as denunciadas pela doutora Flores Nano. O Júri Nacional de Eleições, depois de resistir a revisar as atas contestadas, tarefa enorme, sem dúvida, parece ter aceitado revisar algumas e agora está imbuído dessa responsabilidade. É fundamental que revise todas. Qualquer que seja a decisão, é óbvio que, no clima exasperado que prevalece no Peru, haverá protestos e poderiam ocorrer ações violentas por parte dos partidários do candidato derrotado.

A minha impressão, da longínqua Madri e pelas múltiplas e contraditórias informações que me chegam, é, cada dia mais, a de que houve graves irregularidades e isto, sobretudo, não tanto a cargo do candidato Pedro Castillo, mas de muitos membros do partido que o lançou à Presidência. O líder não poderia ser candidato porque estava impedido pelo Judiciário, acusado de ter aberto a mão mais do que poderia durante seu Governo em Junín. Eu me refiro a Vladimir Cerrón, dono do partido Peru Libre, e que será, se Castillo vencer, o verdadeiro poder por trás do trono. O senhor Cerrón, que é médico e viveu dez anos em Cuba, teve a ousadia de proclamar, perante seus partidários, que era um “marxista, leninista e mariateguista” e que, portanto, à maneira de Cuba, Venezuela e Nicarágua, não deixaria o poder ao final de seu mandato (que no Peru é de cinco anos). Essa famosa frase, é claro, disparou os alarmes em muitos lares peruanos. Por outro lado, circula uma gravação em que o instrutor dos observadores eleitorais de Cerrón exorta seus companheiros a que compareçam às seções eleitorais às cinco da manhã e as ocupem antes que o façam os membros das seções escolhidos por sorteio.

Graças a pessoas como o senhor Vladimir Cerrón e a alguns de seus partidários, os quais, quando falam, fica a sensação de se estar escutando policiais stalinistas, essas eleições peruanas nada têm a ver com as que houve até agora em nossa história, porque nesta não se trata de mudar pessoas ou partidos, mas de regime. Se o senhor Castillo vencer, já sabemos: o Peru será uma segunda Venezuela daqui a alguns anos, ou haverá um forte confronto em que pelo menos metade dos peruanos lutaremos para defender a democracia e a liberdade que a acompanha, porque este regime, ainda que insuficiente e gravemente ferido pela pandemia de coronavírus, pode ser melhorado. Enquanto no sistema comunista, não, como comprovam a Rússia, com o desaparecimento da URSS, e a China Popular, que se tornou um regime capitalista autoritário. Na Rússia, os capitalistas respeitosos são autorizados, e só são perseguidos e inabilitados (ou assassinados) os que desrespeitam o regime. Com sua discrição habitual, o eixo dos países que aspiram a lançar suas garras sobre o Peru se mostrou muito prudente ao longo deste processo e delegou ao boliviano Evo Morales fazer os elogios fraternais ao “irmão peruaninho” que aspiram a teleguiar no futuro, mesmo mediante fraudes e manipulações nos lugares onde os observadores de Keiko Fujimori não puderam chegar: há abundantes testemunhos, na serra e na floresta, de que foram intimidados ou expulsos das seções eleitorais para as quais haviam sido convocados. Mas, talvez, esses regimes se apressaram a cantar vitória. Nada ainda está decidido no Peru e o exemplo de Lourdes Flores e de Óscar Urviola assim demonstra.

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