Pandemia de coronavírusTribuna
i

Silêncio da seleção é cumplicidade diante da morte

Não existe neutralidade numa guerra pela sobrevivência. Não há como ficar sobre um muro quando o que está em jogo é a vida

Paquetá celebra de joelhos ao fim da partida contra o Paraguai pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo, na terça-feira.
Paquetá celebra de joelhos ao fim da partida contra o Paraguai pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo, na terça-feira.NATHALIA AGUILAR / EFE

Mais informações

Não existe neutralidade numa guerra pela sobrevivência. Não há como ficar sobre um muro quando o que está em jogo é a vida. Existem circunstâncias em que o silêncio é paz. Mas, em outras, é crime e cumplicidade.

A seleção brasileira de futebol tinha hora marcada com a história. Optaram por não aparecer. No lugar de se posicionar diante de 500.000 mortes num país governado por um negacionista, seus jogadores abriram espaço para que o símbolo nacional fosse uma vez mais manipulado por interesses privados e políticos.

Ao decidir jogar a Copa América e publicar um comunicado oco, os jogadores prorrogaram a ruptura entre a seleção e uma parcela da população. Belas jogadas não serão suficientes para restabelecer essa relação de amor, por mais que o locutor prolongue por eternos minutos o grito de gol.

Nos últimos dias, não faltaram vozes fazendo eco ao discurso dos aliados do Governo de Jair Bolsonaro sobre o fato de que a Copa América nada representa em termos de risco extra. Afinal, dezenas de torneios estão sendo disputados no país.

O argumento é tão fraudulento quando as próprias estratégias de poder do Planalto.

Mas há uma enorme diferença entre o calendário regular do esporte ―já extremamente complicado e polêmico― e a decisão do Governo de acolher uma das principais competições do futebol mundial. Nenhum outro torneio serve de palanque político de forma tão clara como um evento que, depois de ter sido negado por Colômbia e Argentina, encontra alguém para o salvar.

Acima de tudo, é o recado que a decisão envia que mais importa e sua construção de um significativo precisa ser entendida.

Ao tomar essa decisão, o Governo manda uma mensagem de que há uma normalidade vigente e que a crise está sob controle, potencialmente desviando o foco para o acúmulo de corpos empilhados, denúncias de corrupção e uma CPI.

Ao se comprometer em organizar o evento, manda também um sinal subliminar de que existem outras prioridades e que o vírus não pode determinar nossas vidas.

O que o Governo não diz é que os números no país vão na contramão do mundo, segundo a OMS. Na semana passada, enquanto a pandemia regrediu em 15% em média no planeta, ela subiu em 7% no Brasil.

O criador de uma mensagem de que há espaço para um torneio continental sabe que não pode rebater números. Mas vai buscar na paixão dinâmicas que possam desmontar ou asfixiar a realidade da crise.

Os significados de um evento, de um ato ou de um produto são erguidos em parte por aqueles que os constroem. Nessa obra, aqueles garotos que entram em campo são instrumentos.

Ao dizer que não gostariam de tomar uma atitude política, jogadores abriram espaço para que, uma vez mais, o torneio seja um instrumento político. Bolsonaro será convidado para sua abertura e, se o Brasil vencer, certamente vai desfilar com o troféu.

Mas seja qual for o resultado do torneio, a realidade é que sua realização ampliou o sequestro de um uniforme que é praticamente uma segunda pele para um país que busca eterna de sentidos.

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

Desbotado, o amarelo do uniforme hoje desfila como a cor do ódio, da falta de humanidade.

Ela é o símbolo de lucro e de poder, vestida por indivíduos que dizem lutar contra a corrupção. Ironicamente, se fantasiam, traduzem e dão vida na avenida Paulista para o conceito de Ortega e Gasset de “homem-massa” e “esvaziado da sua própria história”.

Entre as várias redefinições que a pandemia nos exige, ela também reabre o debate sobre o significado dessa nossa segunda pele.

Para algumas culturas, a cor amarela é associada à riqueza e à coragem. Em outras, é de uso quase exclusivo dos líderes de uma sociedade. Mas ela também significou ao longo da história a contradição do ser humano. No século X, as portas de casas de pessoas consideradas como criminosas ou traidoras eram pintadas de amarelo na França. Na China, há uma associação do amarelo com a pornografia.

Cores e atos ganham significados ao longo de nossa existência. Eles podem mudar, como num caleidoscópio no qual, em cada giro, adicionamos uma nova pedra. Mas somos nós quem damos a elementos físicos, cerimônias, tragédias e eventos suas definições.

Hoje, no Brasil do século XXI, a cor do luto continua sendo o negro. Já o do escárnio é o amarelo.

Jamil Chade é correspondente na Europa desde 2000, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e autor do romance O Caminho de Abraão (Planeta) e outros cinco livros.

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50