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Tribuna
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Fora, Ernesto

O chanceler brasileiro foi extremamente eficiente em cumprir o mandato que recebeu. Foram dois anos de destruição deliberada da política externa e de uma visão de mundo

Ernesto Araújo em audiência sobre a busca por vacinas contra a covid-19 no Senado, em 24 de março. A reunião foi realizada na sala de controle da Secretaria de Tecnologia da Informação (Prodasen), de forma virtual.
Ernesto Araújo em audiência sobre a busca por vacinas contra a covid-19 no Senado, em 24 de março. A reunião foi realizada na sala de controle da Secretaria de Tecnologia da Informação (Prodasen), de forma virtual.Waldemir Barreto (Agência Senado)
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BRA104. BRASÍLIA (BRASIL), 24/03/2021. - El presidente de Brasil, Jair Bolsonaro, participa de un encuentro celebrado con los jefes del Congreso, del Tribunal Supremo y de los gobernadores, hoy, en Brasilia (Brasil). El presidente de Brasil, Jair Bolsonaro, anunció este miércoles la creación por primera vez de un comité nacional para combatir la pandemia del coronavirus en momentos en los que el país bordea los 300.000 muertos por la covid-19, tras superar la víspera la marca de los 3.000 decesos diarios. EFE/ Joédson Alves
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Humilhado, Ernesto Araújo gaguejava ainda mais do que de costume. Em uma audiência de mais de quatro horas nesta quarta-feira no Senado, o chefe da diplomacia brasileira mostrou de uma maneira inequívoca e em cada resposta que não tem condições de liderar o braço internacional de um país de dimensões globais.

Nunca teve, e o mundo sempre soube disso. Agora, numa audiência transmitida ao vivo, o brilho na testa do chanceler enquanto ele falava era apenas um sintoma de um constrangimento histórico.

A reunião testemunhou um desfile de senadores esculachando o diplomata, numa fritura pouco vista com um representante do Itamaraty. “O senhor não tem condições de ser ministro nem do reino de Tonga”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). “Pede para sair”, pediu a senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP).

“Pelos brasileiros, renuncie ao ministério”, insistiu o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). “O senhor está no lugar errado. Vá para um ministério ideológico”, completou a senadora Simone Tebet (MDB-MS).

Acusado de “agredir a todos e de forma gratuita”, o ministro ouviu recomendações sobre como ser um diplomata. Outros optaram por qualificar Araújo de “office boy de luxo”. Inconformado, o senador Humberto Costa (PT-PE) perdeu a paciência e avisou que deixaria a reunião. “Não é possível continuara a ouvir esse cidadão”, disse. “O senhor atrapalha mais que ajuda”, completou o senador Jean-Paul Prates (PT-RN).

Do outro lado, a opção por Araújo foi por frases desconcertadas, vazias e, quando muito, completas. Divagou e não explicou, num reflexo do que foram seus dois anos no cargo e numa administração que transformou a posição do Brasil do mundo.

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A audiência no Senado não trouxe novidades sobre a chegada de vacinas, nem sobre como o Governo pensa em salvar vidas. Não houve um sinal de arrependimento e nem o reconhecimento de erros, como fez Angela Merkel horas antes por uma decisão equivocada.

A audiência ainda foi marcada por um gesto do assessor especial da presidência, Filipe Martins, interpretada como um sinal dos supremacistas brancos. O Senado afirmou que uma investigação seria feita. Mas, nas redes sociais, o assessor chamou quem o criticou de “palhaços”, “mentes doentias” e qualificou a oposição de “decadente”. Isso tudo enquanto o destino da nação ―de joelhos neste momento― era alvo de um debate.

Uma vez mais, o que ocorreu no Senado revelou que o interesse nacional jamais esteve sobre a mesa do chanceler. Mas engana-se quem opte por tratar tais figuras como “alucinados” ou “despreparados”.

Araújo foi extremamente eficiente em cumprir o mandato que recebeu. Foram dois anos de destruição deliberada da política externa e de uma visão de mundo. Tudo isso em gestos cuidadosamente estabelecidos e coordenados com aliados na ultradireita pelo planeta, num plano ambicioso.

Sua permanência como chanceler, portanto, não é apenas um vexame nacional, um atalho fácil para as críticas da oposição.

Hoje, ele é uma ameaça à democracia, à saúde de um povo e ao interesse nacional.

Jamil Chade é correspondente na Europa desde 2000, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e autor do romance O Caminho de Abraão (Planeta) e outros cinco livros.

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