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Instituições financeiras também são lugares para mulheres, mas maioria está fora dos cargos de chefia

Bancos brasileiros deixam mulheres fora da maioria dos cargos de lideranças e dos Conselhos Administrativos. Além do quadro de funcionários, um grande desafio é incluí-las no sistema bancário

A Menina Sem Medo’, de Kristen Visbal, instalada em frente a Bolsa de Valores de Nova York.
A Menina Sem Medo’, de Kristen Visbal, instalada em frente a Bolsa de Valores de Nova York.Brendan McDermid / Reuters

Pode parecer repetitivo todo dia 8 de março falarmos da falta de oportunidades para mulheres no mercado de trabalho, mesmo passados 50 anos do início do movimento feminista contemporâneo ― isto sem considerarmos que já havia luta por igualdade de gênero na época da Revolução Francesa (século 18). Mas, infelizmente, ainda há setores reservados principalmente para homens, um deles são as instituições financeiras.

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Você pode até achar estranho, pois vê muitas mulheres trabalhando em bancos, mas a avaliação dos nove maiores bancos do país (Banco do Brasil, BNDES, Bradesco, BTG Pactual, BV, Caixa, Itaú, Safra, Santander) feita pelo Guia dos Bancos Responsáveis (GBR) mostra que em apenas três instituições elas são maioria dos funcionários. O GBR é realizado no Brasil pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e segue os critérios internacionais do FFI (Fair Finance International). O último relatório, divulgado em fevereiro deste ano, analisou as informações relativas a 2019 na questão de gênero.

E os dados são ainda mais críticos quando olhamos para os cargos de liderança, como as diretorias. Em nenhum banco analisado o percentual de mulheres nestes postos ultrapassa os 30%. E para piorar, em uma atualização recente desses números, o Banco do Brasil ― que tinha 25% em cargos de liderança (o mais alto em 2019) ― reduziu para 18,5% a participação feminina nas diretorias no ano passado.

Aprofundando ainda mais a análise, em 2019, os cargos mais altos em conselhos de administração, na média geral dos nove bancos, tinham o percentual de ocupação por mulheres de 5%. Felizmente, em 2020, esse número aumentou para 14,6%. Contudo, dos 7 membros do conselho de administração do Banco Safra, nenhum é mulher. Em 2019, eram quatro as instituições que só tinham homens como conselheiros.

Políticas de investimento e assédio

É importante destacar também que somente o Banco do Brasil e o BNDES possuem políticas de igualdade de gênero para empresas que financiam ou investem. O BNDES, por exemplo, tem cláusulas contratuais para financiamento que exigem que as empresas e seus fornecedores não cometam assédio moral ou sexual ou discriminação de raça e gênero.

E é justamente o assédio moral um dos problemas que causaram a redução do número de mulheres no quadro de funcionários das instituições financeiras, em especial as com mais de 40 anos de idade. Entre as hipóteses para essa redução apresentadas em um estudo publicado em 2018 pela Revista Ciências do Trabalho, da Escola Dieese, está o fato de que a presença feminina mais predominante nas áreas comerciais dos bancos aumenta a incidência de assédio moral.

O estudo também aponta uma grande pressão com a mulher bancária em relação à venda de produtos. Há uma exploração do que se chama de “características” femininas como paciência, o certo jeito para tratar com os clientes e, evidentemente, a exploração da própria imagem da mulher.

Mulheres são as mais desbancarizadas

Além do quadro de funcionários, um grande desafio é incluir as mulheres no sistema financeiro. Uma pesquisa realizada em maio de 2019 pelo Instituto Locomotiva apontou que 45 milhões (29% de brasileiros) estavam desbancarizados ― ou seja, não possuíam conta em nenhuma instituição financeira ou não as movimentavam há mais de seis meses. Dessa parcela da população, seis em cada dez desbancarizados eram mulheres. Entre os bancarizados, os últimos dados oficiais do Banco Central, de 2019, apontam que as mulheres representam 48,5% das pessoas com contas abertas e ativas, enquanto os homens ainda são maioria, com 51,5%.

Considerando que a população brasileira tem mais mulheres que homens, os resultados mostram que os bancos não têm dado a devida atenção ao público feminino. Muitas mulheres brasileiras são chefes de família e se encontram em situação de superendividamento, justamente para garantir o mínimo para sobrevivência. É para essas brasileiras vulneráveis que as instituições financeiras precisam pensar em produtos, promovendo uma verdadeira inclusão através de serviços financeiros e políticas afirmativas.

A inclusão de mais mulheres em cargos estratégicos, com mais familiaridade e empatia com os desafios femininos, também é um caminho para que os bancos se tornem vetores de mudanças, focados na responsabilidade socioambiental.

Ione Amorin é economista e coordenadora do programa de Serviços Financeiros do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor)

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