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Para deter o ‘mito’, só o Curupira e legiões de boitatás

Corpo fechado pelo Congresso, à prova de CPI ou impeachment, o Unhudo tem o coronavírus como aliado para deter protestos de rua

Manifestantes inflam boneco que representa o presidente Jair Bolsonaro, em 21 de fevereiro em Brasília.
Manifestantes inflam boneco que representa o presidente Jair Bolsonaro, em 21 de fevereiro em Brasília.UESLEI MARCELINO (Reuters)
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Ao zombar do aumento do número de suicídios durante a pandemia, na sua live de quinta, o presidente Bolsonaro repetiu os trejeitos mal-assombrados de O homem que ri (1928). No filme de terror, Conrad Veidt faz o papel de um sujeito que teve a boca deformada para manter um sorriso macabro no rosto.

Quando faz chacota dos 260.000 mortos por covid-19, a munganga presidencial é ainda mais aterrorizante. O homem que ri da tragédia tem inclusive claque para reverberar as gargalhadas. Há sempre alguém rindo por bajulação ou perversidade enquanto mais um brasileiro é jogado em uma cova rasa —muitas vezes sem direito sequer aos sete palmos de terra do regulamento funerário.

Mas não será no horror gótico das antigas que encontraremos paralelo ao comportamento do amaldiçoado. Só uma lenda brasileira explica o “mito” que ocupa a presidência da República —a lenda do Corpo-Seco. Predominante no folclore sudestino, inclusive na sua Glicério (SP) natal, Corpo-Seco também é chamado de Bradador, Barulheiro, Berrador, Bicho Barulhento e Unhudo.

Por onde passa, o infeliz lendário atravanca os caminhos, favorece moléstias, assombra, deturpa, boicota, atrasa a vida dos viventes. Rejeitado por Deus e pelo Diabo, a criatura é incorporada por seguidores capazes de cometer as mesmas atrocidades em seu maldito nome.

Arrepiai-vos, o terror nacional, além muito além do seriado Cidade Invisível (Netflix), está apenas na metade. Temos 22 mal-assombrados meses pela frente. A não ser que apareça um Curupira e legiões de heroicos boitatás capazes de promover um sumiço desse Unhudo. No momento, parece improvável, mesmo com a destruição da floresta e seus derredores.

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Corpo fechado pelo Congresso, à prova de CPI ou impeachment, o tinhoso ainda conta com a ajuda do coronavírus para deter as manifestações de rua e outras possíveis barricadas. Nem o Saci Pererê seria matreiro ao ponto de quebrar essa blindagem do cascabulho. E assim o país moribundo é obrigado a dormir, mais uma noite, sob o sonífero tarja preta da Cuca. Nana neném...

É preciso parar essa assombração. Ouvimos aqui e acolá, inclusive entre os senadores mais tarimbados em exorcismos políticos. Nada feito. O Bradador finge que vai para as catacumbas e retorna mais perverso ainda, como nas versões caipiras do Corpo-Seco de São Luiz do Paraitinga, Dois Córregos e da mineira Ituiutaba. É uma peste capaz de tirar sono, juízo e sanidade. Vade-retro.

Caso as lendas do mato não sejam suficientes para brecar o inominável, apelaremos para as urbanas. Quem sabe a Perna Cabeluda, Papa-Figo, Galeguinho do Coque, Biu do Olho Verde, Palhaço do Coqueiro do Janga, Quibungo, Morto da Governadoria, Lobisomem da RFFSA, Cão de Itaoca, Corta-Bundas, Bebê Diabo, Loira do Algodão, Chupa Cabra... Alguém lembra de outras?

Xico Sá é escritor e jornalista, é autor de “Big Jato” (Companhia das Letras), entre outros livros.

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