PELÉ
Opinião
Texto em que o autor defende ideias e chega a conclusões basadas na sua interpretação dos fatos e dados ao seu dispor

O Brasil deve mais a Pelé do que Pelé ao Brasil

Pegamos pesado com quem praticamente inventou a ideia de país em terras estrangeiras, como os diretores exibem no documentário ‘Pelé’, da Netflix

Pelé em um momento do documentário da Netflix.
Pelé em um momento do documentário da Netflix.NETFLIX
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Pelé, aos 80 anos, em cena do documentário "Pelé", da Netflix.
Pelé encara seus dilemas com a ditadura na Netflix
AME2441. SANTOS (BRASIL), 19/10/2020.- Fotografía del 17 de octubre de 2020, cedida por Felipe del Valle, donde se observa al artista brasileño Kobra (d) trabajando en su mural de Pelé en la ciudad de Santos (Brasil). El pintor brasileño Kobra finalizó este domingo su obra "Coração Santista" (Corazón Santista), en la ciudad de Santos, en el estado de Sao Paulo, en el que hace homenaje a la leyenda del fútbol mundial, el brasileño Edson Arantes do Nascimento, conocido mundialmente como Pelé, y que cumplirá 80 años el próximo 23 de octubre. EFE/ Felipe Del Valle SÓLO USO EDITORIAL/NO VENTAS/NO ARCHIVO
Pelé, 80 anos do jogador perfeito
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Sócrates, Che e Maradona, orai por ‘nosotros’

A ditadura militar (1964-1985) usou e abusou politicamente da figura de Pelé e da seleção brasileira. No momento mais pesado de terror, tortura e mortes nos porões, o presidente Emílio Garrastazu Médici recebia a equipe tricampeã na Copa do México, 1970, para uma festa patriótica no Palácio do Planalto.

Os diretores britânicos David Tryhorn e Ben Nicholas, no filme Pelé (Netflix), bem que buscaram tirar de Edson Arantes do Nascimento, meio século depois, uma revisão sobre o período. Sem êxito. “A gente sabia de muitas coisas que aconteciam no país. Outras, não”, responde. “Nunca fui forçado a nada.”

Mesmo arriscando palpites infelizes sobre política ao longo da trajetória (“O povo brasileiro não está preparado para votar”), o cidadão do mundo Edson Arantes do Nascimento se mantém na retranca no documentário. A fala de Pelé é a mesma de quase 100% dos jogadores de futebol do país: não misturo futebol e política. Nada anormal. Pegue a seleção de hoje e o fenômeno se repete. São raros os rebeldes como Afonsinho e doutor Sócrates desde que esse esporte de massa vingou nos trópicos.

Na mesma pauta, os jornalistas Juca Kfouri, José Trajano e Paulo César Vasconcelos dão uma aula no filme. Indivíduos competentes em explicar Pelé na história. É querer demais que o atleta do século, um gênio no patamar de Machado de Assis, ainda exercite com maestria a arte da política.

Diz aí, Gilberto Gil, outro personagem: “Pelé é uma estrela brilhante que fulgura em um céu negro da vida brasileira”. A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) faz o repique: “É a imagem mais promissora de um menino negro e pobre”.

O craque Paulo Cezar Caju, colega do elenco do tricampeonato da seleção brasileira, chega com um contraponto necessário para qualquer bom documentário. “Pelé retoma a posição do ‘sim, senhor’”, diz sobre questões essenciais como combate ao racismo e relação com a ditadura. PC nunca deixou se cobrar ao próprio amigo de equipe sobre o seu comportamento. O cutucão do ex-ponta-esquerda do Botafogo é importante, palavra de um jogador negro e engajado que sempre enfrentou os políticos, os dirigentes dos clubes e a própria torcida com consciência de classe e altivez.

Necessária e democrática a firmeza crítica do colega de time. Creio, porém, que a marcação feita no Brasil ao Edson Arantes do Nascimento, em muitos momentos, é a de de zagueiros ideológicos implacáveis. O Brasil pega pesado com quem praticamente inventou a ideia de país em terras estrangeiras, como os diretores exibem na fita da Netflix.

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Pelé não jogou a Copa de 70 para ajudar a ditadura, apesar dos generais terem roubado até a sua alma em flashes maquiavélicos de propaganda. O homem-futebol chega no México sob todas as suspeitas (inclusive metafísicas) de que ele não seria ele mesmo, não teria a mesma força, chegara à decadência.

O 10 do Santos jogou aquele mundial para provar que era sim o maior da história. “Eu não morri, eu não morri, eu não morri”, berrava ele no vestiário do estádio Asteca, na narração comovente de Rivelino.

Sempre que os ativistas do Brasil e do mundo buscaram uma voz militante no gênio da bola foi em vão. Pelé disse apenas “Love, love, love”, como no discurso na despedida do Cosmos, em 1977, quando fez a sua cerimônia de adeus ao futebol.

O revolucionário em Edson é ter sido Pelé na vida. Isso não é pouco.

Xico Sá, escritor e jornalista, é um dos autores do livro “Pelé 70” (editora Realejo).

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