Eleições EUA 2020
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A possível derrota do trumpismo enfraquece ou fortalece o bolsonarismo?

Não podemos nos iludir que, com a possível derrota de Trump para Biden, desaparecerão os grupos extremistas ativos. Talvez os exacerbem ainda mais

Donald Trump e Jair Bolsonaro, em março de 2020.
Donald Trump e Jair Bolsonaro, em março de 2020.Tom Brenner (Reuters)
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Bolsonaro entrega a Trump una camiseta de la selección brasileña en la Casa Blanca.
“Bolsonaro sempre imitou Trump. E vai fazer a mesma coisa em 2022”
People count postal ballots following the 2020 U.S. presidential election, in Downey, near Los Angeles, California, U.S., November 5, 2020. REUTERS/Lucy Nicholson
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“O trumpismo é um fenômeno que vai se manter, inclusive com reflexos no Brasil”
U.S. President Donald Trump speaks about the 2020 U.S. presidential election results in the Brady Press Briefing Room at the White House in Washington, U.S., November 5, 2020. REUTERS/Carlos Barria     TPX IMAGES OF THE DAY
Trump ameaça cruzar a linha vermelha do processo democrático

Poucas vezes o Brasil acompanhou uma eleição norte-americana com tanta atenção e apreensão como desta vez. A pergunta que se impõe é como o trumpismo continua vivo em metade dos norte-americanos e que pelo visto levará tempo para morrer.

Bolsonaro encolherá com a possível derrota de Trump ou ficará ainda mais encorajado com a tentativa de tomar hoje sua bandeira no continente? Assim como o histriônico presidente norte-americano não aceitou o resultado das urnas, não é impossível que Bolsonaro e seus filhos agora se sintam incitados a agarrar o bastão do trumpismo. É possível que Bolsonaro também continue alimentando seu pânico e sua obsessão em ver comunistas até debaixo da cama e que continue a combatê-los como moinhos de vento.

Ainda será preciso explicar como Trump –com todas as suas estridências, com sua política incorreta, seu racismo comprovado e sua política de perseguição das minorias– ainda consegue manter tanta força eleitoral. A democracia no mundo está entrando em crise para voltar aos tempos do obscurantismo, das guerras e do olho por olho? É uma análise que está por fazer. A antropologia e a psicologia também deverão explicá-lo, pois está estreitamente ligado aos instintos mais primitivos, inconscientes e destrutivos do ser humano.

O trumpismo, que não morreu, é um fenômeno cada vez mais difundido e está contagiando até países europeus como Hungria, Polônia e Itália, juntamente com o ressurgimento dos movimentos de extrema direita fascistas e até mesmo nazistas. Não podemos nos iludir que, com a possível derrota de Trump e com a volta dos democratas, desaparecerão o ressurgimento e o fortalecimento dos grupos extremistas cada vez mais vivos e ativos.

É como um novo vírus que poderia se tornar uma pandemia sem a vacina de uma política democrática renovada e capaz de entusiasmar as pessoas, capaz de saber dialogar com todos ao invés de semear o ódio e as cizânias que o passado nos ensina que costumam acabar em guerra civil.

E isso porque esses movimentos extremistas, autoritários e antidemocráticos não nascem do nada, mas de uma insatisfação geral com a política vista hoje mais como uma acumulação de privilegiados que se apropriam da riqueza universal. O mundo estaria se cansando da democracia?

O ser humano é instintivamente violento, egoísta, predatório, racista e acumulador. É um lobo para seu semelhante sem as barreiras impostas pela cultura, pela ciência e pela política de coexistência que contrabalançam esses instintos enraizados desde os tempos das cavernas.

São sentimentos destrutivos, de medo, que nunca morrem e que veem o próximo como um possível inimigo. Basta despertá-los para que surjam com sua força primitiva. E é isso que os movimentos radicais estão fazendo com os fenômenos do trumpismo e do bolsonarismo. E quando falo em bolsonarismo não me refiro aos 57 milhões de brasileiros que deram seu voto nas urnas ao capitão aposentado, muitos deles hoje decepcionados e até envergonhados. Refiro-me ao chamado bolsonarismo raiz, que apela aos sentimentos mais primitivos da convivência pacífica e que se alimenta do pior que existe no homem e goza revirando as latrinas que sujam a convivência civil e pacífica.

Todos esses movimentos destrutivos pertencem à ordem dos impulsos que para podermos conviver felizmente reprimimos. A guerra se baseia no medo do outro e na ambição de possuir, enquanto a paz se constrói com a cultura e com uma educação que ensina desde a infância a aceitação dos diferentes, o respeito pelo outro e pela natureza.

Não é por acaso que o bolsonarismo, por exemplo, revela desprezo pela ciência, pela cultura, pelo ensino livre de imposições autoritárias e defende a política do enfrentamento, enquanto fomenta o politicamente incorreto, zomba da defesa da terra, arrasta para o negacionismo e se opõe aos avanços civilizatórios que contribuem para a convivência pacífica.

Por tudo isto, esperar que a possível queda de Trump faça desmoronar automaticamente o bolsonarismo é uma vã quimera. Talvez o exacerbe ainda mais como sempre aconteceu com os ditadores que, quanto mais acossados estão, mais aumentam a dose de sua loucura, de suas paranoias e de suas frustrações reprimidas.

Por isso as forças democráticas e progressistas brasileiras devem ser capazes de, nas urnas em 2022, colocar um freio ao perigo cada vez mais real de ver destruídos os valores da democracia que impedem entrar no túnel da barbárie. Desse bolsonarismo que acaba envenenando as relações sociais e humanas, empobrecendo o país, afastando-o do diálogo com os outros povos e fechando-se cada vez mais em si mesmo.

O Brasil ainda tem tempo. Amanhã talvez seja tarde demais.

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