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QAnon entra oficialmente no partido Republicano

Teoria conspiratória ganha novo status ao eleger uma apoiadora para o Capitólio americano

Marjorie Taylor Greene se tornou deputada republicana.
Marjorie Taylor Greene se tornou deputada republicana.Europa Press
Clara Becker Gabriela de Almeida Pereira

A desinformação ganhou mais uma, com a vitória nos Estados Unidos de uma candidata a deputada apoiadora da QAnon, a poderosa e delirante teoria da conspiração que afirma existir uma rede de pedófilos e satanistas infiltrada no governo, na imprensa e no mercado do entretenimento para derrubar Donald Trump e seus apoiadores. Marjorie Taylor Greene foi eleita nesta terça-feira (3/11) para representar o estado da Geórgia na Câmara americana, fazendo as conspirações saírem de cantos escondidos do mundo virtual para a ribalta do Capitólio.

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Já escrevemos aqui neste espaço sobre o desafio à parte que teorias conspiratórias representam no combate à desinformação e o poder de influência corrosiva que elas têm na sociedade. Agora, elas ganharam um microfone oficial.

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(FILES) This file photo taken on August 22, 2020 shows demonstrators from conspiracy theorist group QAnon protesting against child trafficking at a demonstration on Hollywood Boulevard in Los Angeles, California. - The QAnon conspiracy movement has exploded from the US political fringe into the global mainstream during the COVID-19 coronavirus pandemic, with its influence seen at anti-lockdown and anti-mask rallies from Los Angeles, to London and Melbourne -- with protesters warning, without evidence, that the pandemic is a conspiracy by a cabal of satanist paedophiles who control the world. (Photo by Kyle Grillot / AFP) / TO GO WITH Health-virus-internet-disinformation-QAnon,FOCUS by Qasim Nauman
Como argumentar com quem acredita em teorias conspiratórias
AME9478. BRASILIA (BRASIL), 13/05/2020.- Fotografía de archivo del 13 de mayo de 2020 que muestra a Sara Winter, la principal portavoz del autodenominado grupo "300 do Brasil", durante una rueda de prensa del presidente de Brasil, Jair Bolsonaro (fuera de cuadro), este miércoles frente al Palácio do Alvorada, en Brasilia (Brasil). La Corte Suprema de Brasil ordenó este lunes el arresto de seis militantes de movimientos radicales que apoyan al presidente Jair Bolsonaro acusados de haber liderado manifestaciones antidemocráticas en los últimos días, informaron fuentes oficiales. EFE/ Joédson Alves/ARCHIVO
No combate à desinformação, é preciso não ridicularizar o “conspirador”

O movimento QAnon é um produto da internet e reflexo de uma sociedade hiperconectada. Suas origens são remontadas a outubro de 2017 quando o misterioso “Q” apareceu pela primeira vez no fórum online “politicamente incorreto” de discussões anônimas, o 4chan. O usuário anônimo deu a entender que ele é um oficial de inteligência ou militar com a “liberação Q”, o que quer dizer que ele teria suposto acesso a informações sigilosas de dentro do governo americano. Sempre na busca por plataformas mais seguras, Q mudou do 4chan para o 8chan e depois para o 8kun. Os adeptos do QAnon foram se tornando cada vez mais devotos e a teoria chegou às plataformas mainstream como Reddit, Facebook, Twitter, YouTube e TikTok impulsionada por influenciadores digitais que buscavam novo conteúdo e descobriram no QAnon uma fórmula de sucesso para aumentar o engajamento de suas contas.

Com hashtags populares, o rastilho de pólvora do QAnon se espalhou para valer com a narrativa da rede de pedófilos e satanistas. Impulsionados por uma crescente desconfiança nas instituições, os seguidores são levados a crer que quase toda figura de autoridade que de alguma forma se manifesta (ou não) contra essas ameaças imaginárias pode ser parte de um plano secreto que age contra os Estados Unidos, a liberdade e está a favor de práticas que envolvem abuso sexual infantil.

Questões ligadas a crimes sexuais contra crianças formam a base das conspirações ligadas ao QAnon, mas o movimento muito facilmente incorpora outras teorias tão delirantes quanto, que caminham de forma paralela seduzidas pelo forte viés extremista e a disseminação de práticas discriminatórias. É como se observa a intensa aproximação de seguidores do movimento com grupos antivacina que acreditam que o incentivo à vacinação seria uma forma de controlar a humanidade por meio de nanochips.

Em maio de 2019, o FBI americano emitiu um alerta para o avanço do movimento ao classificá-lo como uma ameaça de terrorismo doméstico, chamando atenção especialmente para atos criminosos que poderiam ocorrer motivados pela corrente conspiracionista. O relatório enumerou diversos casos em que incidentes violentos inspirados pela teoria conspiratória levaram pessoas a serem presas e concluiu que “essas teorias da conspiração muito provavelmente irão surgir, se espalhar e evoluir no ecossistema informacional moderno, ocasionalmente levando grupos e extremistas individuais a cometer atos criminosos ou violentos”.

Ainda assim, apoiado por Donald Trump, o movimento ganhou força e se espalhou pela América Latina.

No Brasil chegou com uma série de postagens que colocam celebridades e influenciadores digitais na mira dessas “denúncias”, disseminando falsas acusações especialmente ligadas a artistas globais e à TV Globo, colocando essas figuras públicas como integrantes de uma rede que articula crimes graves, como pedofilia, e os principais responsáveis pelas mais diversas mazelas sociais.

Desacreditar as instituições e reforçar valores cristãos que supostamente estariam sendo deturpados por satanistas é uma tática que tem funcionado no Brasil, um país com uma população majoritariamente cristã (86,8%, segundo dados do IBGE).

Boa parte desse avanço se deve aos seguidores públicos dessa teoria.

Um levantamento feito pela agência de checagem Aos Fatos revelou que ao menos 212 autoridades do Brasil (parlamentares eleitos e integrantes do primeiro escalão do Executivo federal) seguem mais de 1.400 perfis que divulgam conteúdos QAnon. De acordo com o levantamento, parlamentares que apoiam Jair Bolsonaro são os principais seguidores dessas contas. Foi observado ainda que o próprio presidente e seu círculo próximo estão em contato direto com o material, em análise que remete a oito perfis diretamente ligados a Bolsonaro e ministros a ao menos 96 contas responsáveis por difundir postagens simpáticas ao movimento.

O resultado já tem aparecido nas eleições municipais brasileiras, com candidatos apropriando-se da retórica mentirosa para difundir possíveis operações que estariam sendo criadas por grupos especiais para barrar práticas de canibalismo, satanismo, tráfico de pessoas e de órgãos, usando a hashtag #SalvemAsCrianças para propagar as falsas teorias. Enquanto o Brasil mais uma vez segue passos semelhantes aos da extrema direita americana, os resultados do dia 15 de novembro mostrarão se também daremos palanque oficial aos criadores de narrativas de conspiração, o que eles podem causar com poder na mão e, o mais importante, quão capazes as instituições serão para neutralizá-los.

Clara Becker e Gabriela de Almeida Pereira integram o Redes Cordiais, uma iniciativa que alia educação midiática no combate às notícias falsas.

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