O amor filho da dor

O luto de mais de 100.000 brasileiros que partiram em 2020 pela covid-19 está em primeiro plano neste momento. Nenhuma notícia no mundo é mais importante hoje do que os que partiram pela pandemia. É nesse silêncio doloroso que o Brasil pode se reencontrar no amor

Indígenas do Parque das Tribos choram a morte do cacique Messias Kokama, em Manaus, em 14 de maio.
Indígenas do Parque das Tribos choram a morte do cacique Messias Kokama, em Manaus, em 14 de maio.MICHAEL DANTAS / AFP

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Há momentos em que é preciso parar tudo o que se está fazendo para falar de amor. Não o amor relegado ao romantismo, ou ao mecanismo ilusório de fugir da realidade. Mas o amor que dá sentido à vida, e que transmuta a dor. Nunca o mundo, e em especial, o Brasil, precisou falar tanto sobre este sentimento que compõe a base das sociedades virtuosas que ainda não somos. No dia em que os registros oficiais no país superam 100.000 vidas perdidas para a covid-19, sem contar as enormes subnotificações, é preciso falar de amor para elaborar uma emoção que só nasce quando ele existe. O luto.

Perdido em devaneios políticos, o Brasil tenta evitar essa dor, que machuca a alma e induz involuntariamente a uma reflexão mais profunda. Das nossas falhas enquanto país, do nosso papel como cidadãos, de perguntar se podíamos ter evitado tantas mortes. Mas a dor já está aqui. A dor de 100.000 histórias interrompidas em 2020 pelo coronavírus é concreta. De 100.000 afetos partidos, de 100.000 despedidas inesperadas.

O EL PAÍS Brasil convidou pessoas que perderam alguém durante a pandemia para escrever cartas de despedida. Um exercício que exige enfrentar a dor da solidão até encontrar o amor que dê sentido a esse abandono. Uma tarefa que requer coragem para expor às vezes a palavra que ficou sufocada antes de ser dita em vida, ao mesmo tempo em que expressa a gratidão de ter partilhado uma existência que deixou frutos. “Seu amor é o culpado por eu não me contentar com qualquer coisa, por eu sempre querer mais e por reaprender a olhar a vida a cada pôr do sol”, diz Cristiane, para sua mãe Mazé, técnica de enfermagem, que perdeu a batalha para o vírus.

Por alguns minutos, Cristiane, Luciana, Ciro, Glades, Pedro, Sol, Maíra, Sheila e Karina fizeram o que Paulinho da Viola segue para si próprio. Falar dos seus amores que partiram como se estivessem aqui para amenizar a saudade. No Brasil, onde o samba é filho da dor, é preciso encarar esse sofrimento para reencontrar o amor. A pandemia também matou a nossa esperança de avançar, num momento em que a morte ainda espreita quem continua aqui. Há outros tantos milhões de brasileiros mergulhados no medo de ser o próximo a adoecer. E sob o medo de sofrer ou nos contaminar, também adoecemos como país. Esse contador mórbido da pandemia fala muito sobre as sombras do Brasil e nossos subterfúgios para desviar os olhos de nossas mazelas.

Convidamos nossos leitores a este momento de silêncio, a navegar pelo coração amoroso de quem partilhou suas cartas para nos lembrar do que somos feitos. É através dessas cartas que homenageamos as mais de 100.000 famílias que choram suas perdas este ano, lembrando que os números oficiais não retratam todas as mortes, um capítulo que vamos carregar em nossa história. Hoje, nenhuma notícia no mundo é mais importante do que a morte destes que partiram pela pandemia. Deixamos flores com vocês por cada um que foi embora.

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