Racismo
Tribuna
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Estar nas ruas é um sentido de sobrevivência das pessoas negras, no Brasil e no mundo

Quando a polícia chega para matar estamos praticamente mortos, fisicamente eliminados, emocionalmente sequelados. Já não podemos respirar há muito tempo

Homem com máscara passa por graffiti de Marcos Costa, o Spray Cabuloso, na entrada da favela Solar de Unhão em Salvador, Bahia, em 15 de abril.
Homem com máscara passa por graffiti de Marcos Costa, o Spray Cabuloso, na entrada da favela Solar de Unhão em Salvador, Bahia, em 15 de abril.ANTONELLO VENERI (AFP)
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Protesters gather to call for justice over the death of George Floyd at the Texas State Capitol in Austin on Sunday, May 31, 2020. George Floyd died while in police custody in Minneapolis on Memorial Day. (Lola Gomez/Austin American-Statesman via AP)
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A woman holds a banner reading "Stop killing us" in front of a line of riot police during a protest called by activists against the killing of black people during police operations in favelas amid the new coronavirus pandemic, outside the Guanabara Palace -headquarters of Rio State government- in Rio de Janeiro, Brazil, on May 31, 2020. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP)
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Enquanto o mundo tenta se organizar frente aos efeitos da pandemia mundial por covid-19, o assassinato de George Floyd, um homem negro, por um policial branco em Minneapolis, Minnesota, no dia 25 de maio de 2020, data que marca o Dia Mundial da África, expõe, mais uma vez, o ódio antinegro existente e que circula desde sempre entre nós de diversas maneiras, aqui no Brasil e em qualquer lugar.

Como se não bastassem as sequelas do genocídio negro manifestas na impossibilidade do acesso a diversos bens e serviços públicos, como saúde e educação de qualidade, o símbolo mais importante do controle social direcionado ao povo negro, a segurança pública, não somente reafirma a prática de nossa eliminação física como exercício do ódio racial, mas demonstra, através da tortura física e psicológica ―numa arena, a luz do dia, sob os olhares e registros da plateia― a forma como promove, planeja, executa e assiste a nossa morte lenta e sem piedade. George Floyd implorava pelo ar para respirar. Gratuito e disponível. O ar. Nada mais. Era o que lhe bastava naquele momento para seguir vivo. Foi negado!

Com o peso da supremacia branca sobre um corpo negro dominado, algemado para trás, impossibilitado de se defender, território negro pressionado contra o asfalto, um homem branco demonstra ao mundo mais do que a supremacia branca vem fazendo há séculos. Torturando, eliminando, matando. Corpo negro dominado, território negro violado e controlado: genocídio do povo negro continuado. Direta e Indiretamente.

Nos Estados Unidos o povo negro saiu às ruas num levante como resposta imediata à profundidade da dor coletiva negra causada pelo supremacismo branco. Em apoio, pessoas brancas contrárias a esta supremacia formaram um cordão de isolamento como demonstração de apoio diante da dor de pessoas negras que podem ser as próximas vítimas. Por lá e por aqui.

A vida negada a Floyd representa a vida negra negada. Representa a eliminação do povo negro. O policial branco reafirma ali que não há humanidade naquele corpo negro. Ao não reconhecer o sofrimento, não reconhece dignidade para a vida. O direito a vida. Esta tem sido a luta negra ao longo do tempo: o direito à vida negra. Direito de estarmos vivos. Este é um motivo para sair as ruas e se organizar. Por este motivo desde 2005 a Organização Política Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto da cidade de Salvador, Bahia, do Nordeste do país para o mundo, tem colocado corpos negros nas ruas e convocado aliados para o combate ao genocídio do povo negro.

Para além da conjuntura politica, estar nas ruas tem sido um caminho de sobrevivência de pessoas negras. As ruas marcam uma posicionalidade social, nosso “estar” ausente na sociedade de cidadania, uma cidadania de segunda classe ou uma “não-cidadania” que pode ser abatida sem que haja comoção social é a marca que nos indica a necessidade de tomada de espaço para existirmos em plenitude. Por isso, a formação de quilombo, a reterritorialização civilizatória, tomada de cultura, religião, hábitos e capacidade de defesa. As ruas representam a afirmação de nossa coletividade em enfrentamento a nossa morte habitual, banalizada. A violência quotidiana contra corpos negros não considerados em sua humanidade plena normalizada e “gratuita, não precisa de protestos”.

Os corpos brancos , as pessoas brancas sabem que seu corpo é uma barreira, uma blindagem e podem ser abraçados por policiais na avenida paulista mesmo estando com um taco de beisebol ―uma arma― vandalizando e agindo contra a democracia , não representando o grupo que constitui os contrários à lei. Corpos brancos podem transitar entre os policiais norte-americanos e os pretos em protestos porque sua vida tem valor, sua vida não pode ser atacada, não pode ser ofendida.

Nos territórios de maioria negra o que vemos é a presentificação da morte social. Mulheres negras organizando e defendendo comunidades controladas pela policia e milicias. Empregos com baixa remuneração em trabalhos exaustivos, adoecimento e morte por causas evitáveis, segregação residencial, violência permanente. Mulheres e homens negros: padrão criminalizável, nas ruas, nas delegacias, nas prisões, no IML, buscando familiares. O que nos dá o arcabouço para afirmarmos, desde 2005, que quando a policia chega para matar estamos praticamente mortos, fisicamente eliminados e psíquica, histórica e emocionalmente sequeladas. Já não podemos respirar há muito tempo.

As manifestações que vemos se espalhar pelo Brasil, são parte de um fenômeno para o qual já tínhamos alertado: de um lado a exclusão e o desmascaramento de sujeitos signatários da supremacia branca e de outro, a tomada de consciência coletiva de sujeitos negros com uma afirmação de seu pertencimento africano e uma solidariedade enquanto povo. Vemos isso no campo e na cidade e vai ser impossível deter o curso da história.

No Nordeste do pais, onde as situações de dor e desgraça do povo, sobretudo os pretos e pretas, não ganham visibilidade da mídia nacional, a conjuntura em meio à pandemia é de morte, dor e tortura. Grupos de extermínios, milícias armadas e esquadrões da morte seguem operando com a tolerância dos governos. Os prisioneiros e prisioneiras expostos a toda sorte de tratamentos degradantes, negligência, negação dos direitos fundamentais por parte do Estado, expostos à covid-19 e outras morbidades. Uma fala do governador do Estado da Bahia, Rui Costa, se iguala à posição do presidente Jair Bolsonaro, ao insinuar que os altos índices de homicídios na Bahia se dão por conta da Recomendação 62/2020 do Conselho Nacional de Justiça, que orienta os juízes a garantir progressão de regimes ou prisão domiciliar para presos e presas em situação de extrema vulnerabilidade frente à pandemia e, assim mitigar os danos e os riscos de uma catástrofe no sistema prisional brasileiro. De fato, o Governo não enfrentou os grupos de extermínio e os esquadrões da morte, deixando nascer as sementes das milícias e o aumento das gangues toleradas pela polícia, que em boa medida participam dessas ações contraproducentes ao direito.

Casos como a chacina do Cabula, com as mortes de 12 jovens negros durante ação policial, a chacina de Canabrava, com a morte de três jovens negros, e o caso de Nordeste de Amaralina, com a morte do menino Joel, um garoto de 10 anos morto dentro de casa durante atividade policial ―algumas semanas depois, foi a vez de seu primo, Carlos Alberto, de 22 anos, também morto durante ação da polícia―, são uma constante do Estado de uma Bahia de maioria negra sufocada pelo racismo e pelo ódio antinegro. As vidas negras são caras aos negros e negras, para além da conjuntura. Estamos nas ruas desde sempre.

Andreia Beatriz Silva dos Santos é médica de familia e comunidade, e componente da organização politica Reaja Ou Será Morta, Reaja Ou Será Morto.

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