E o pós-Brasil?

O coronavírus é um problema complexo que vai muito além da virologia e da medicina. Requer ação conjunta da população e intervenção firme dos governos em nome da sociedade

Voluntário desinfeta uma área da favela da Babilônia, no Rio de Janeiro, no dia 18 de abril.
Voluntário desinfeta uma área da favela da Babilônia, no Rio de Janeiro, no dia 18 de abril.CARL DE SOUZA / AFP
Rafael R. Ioris / Antonio A. R. Ioris

Um Furacão Chamado Covid-19

Muito se pode dizer sobre o furacão covid-19, menos que seja uma crise inesperada. No passado recente tivemos H1N1, SARS, gripes sazonais, outras tantas doenças e pandemias. Mas, ao que parece, embora muitas, tiveram pouca influência sobre a condução da saúde pública ao redor do mundo, imerso no receituário individualista neoliberal ao longo das últimas décadas. De fato, a tendência no Brasil e em outros países seriamente afetados pelo coronavírus, como Itália, Reino Unido e EUA, tem sido a de transformar saúde em questão privada e deixar que cada um cuide de si. Trágica ironia quando se trata de uma doença cuja profilaxia requer ação conjunta da população e intervenção firme dos governos em nome da sociedade. A covid-19 é um problema complexo que vai muito além da virologia e da medicina. É uma questão multifacetada, localizado no centro da integração dos dos mercados, que demonstra, de maneira contundente os muitos e graves equívocos políticos, econômicos e científicos de uma globalização focada quase que exclusivamente nas finanças e em extensas redes de produção e comercialização, mas não na dimensão coletiva e muito menos na inclusão social.

A analogia da covid-19 com um furação é mais estreita do que parece. Assim como nos desastres ditos naturais, pandemias são tragédias que afetam diferentes grupos de forma totalmente diferenciada. Risco é uma realidade socialmente construida e as respostas aos riscos têm relação direta com o balanço de poder e desigualdades sociais e espaciais acumuladas ao longo do tempo. Mais do que uma questão técnica relacionada à propagação de um novo vírus com fator de contágio e letalidade maiores do que a gripe comum, a chegada do coronavírus ao Brasil tem sido envolta pela profunda polarização política e ideológica que tomou conta da sintaxe política e social do país nos últimos anos. Assim, o que teria que ser tratado como uma questão de saúde pública em uma nação com sérias dificuldades materiais e humanas para implementar políticas que se demonstraram eficazes em outros países (por exemplo, testes em grande escala, como na Coreia), vem, na prática, se demonstrando como uma nova etapa no acelerado processo de erosão tanto das instituições do Estado, como da própria institucionalidade democrática, dentro de um processo que tenderá a se agravar nas próximas semanas, com consequências gravíssimas para milhares ou milhões de pessoas.

A Paralaxe da Crise

Como em astronomia, há aqui uma paralaxe evidente quanto à visão do mesmo fenômeno por observadores posicionados em locais distintos. Assim foi no caso da chamada Gripe Espanhola, que começou nos Estados Unidos e foi trazida ao Brasil por um navio dos correios ingleses. Quem mais sofreu foram justamente as comunidades que viviam nas áreas periféricas do Rio de Janeiro e em outros centros urbanos. Durante a crise, a partir do final de 1918, a elite político-econômica e muitas autoridades médicas tomaram uma posição cética e preferiram ignorar as mortes que se somavam exponencialmente, culminando com o falecimento do presidente eleito Rodrigues Alves. O fato de o atual governo brasileiro totalmente desconhecer a condição da população pobre e, por isso mesmo, ter um ministro da fazenda incapaz de formular as mais simples estratégias de alívio momentâneo infelizmente não é novidade. Lembremos que em 1940, durante os terríveis bombardeios alemães a Londres, a elite britânica não queria aceitar que o metro londrino fosse usado como abrigo anti-aéreo, apenas cedendo depois de muita pressão política.

No caso atual, apesar de importantes medidas de isolamento social que vêm sendo implementadas por vários governadores ao redor do país, o combate à expansão da covid-19 no Brasil tem se definido por duas muito preocupantes dinâmicas. Por um lado, o constante confronto entre os poucos membros do governo que trabalham com dados científicos na formulação de políticas públicas —entre eles o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que foi demitido após ser permanentemente ameaçado pelo presidente Jair Bolsonaro, apesar se sua militância anterior em favor da privatização do SUS e destruição do sistema de saúde pública. Por outro, a resistente, talvez mesmo crescente, narrativa de que a ameaça não é tão grave, que o isolamento social não é necessário ou que fará mais mal do que a própria doença; ou ainda que tudo não passaria de uma conspiração internacional, liderada pela inteligência chinesa, para acabar com a economia brasileira (afirmação que carece totalmente de lógica dado o impacto enorme da covid-19 naquele país). Essa visão irracional e perigosa vem sendo vergonhosamente propagada por lideranças empresariais e religiosas neo-pentecostais, especialmente por meio de carreatas de luxo ao redor do país, que exigem o fim das medidas de isolamento —sob o slogan “O Brasil não pode parar!”— processo de culminou no dia de jejum e orações (como medidas, ou bruxarias, de saúde pública) lideradas pelo próprio presidente da República no último dia 5 de abril.

Entre os muitos grupos e áreas afetadas, as populações indígenas parecem estar ainda mais no centro do furacão. Estes grupos já vinham sendo exterminados pela ação deliberada pelo (des)governo atual, em sua defesa incondicional das atividades do agronegócio, mineração e extração de madeira com incentivos à degradação ambiental e um descomissionamento em larga escala de serviços públicos. Líderes indígenas vêm morrendo em um número crescente, enquanto a polícia protege justamente os criminosos; áreas reconhecidas como terras indígenas vêm sendo administradas por militares completamente despreparados e instruídos a não fazer nada para garantir o o atendimento às comunidades; adultos e crianças ficam cada vez mais doentes devido à falta de comida, água, abrigo e assistência médica, mas o governo lhes nega os direitos mais básicos. Essas diferentes estratégias demonstram que a administração federal tem um plano claro para facilitar novas rodadas de aniquilação étnica que relacionadas diretamente ao favorecimento dos setores econômicos mais violentos e atrasados ​​do país, em particular o agronegócio. Assim como no caso de muitos outros grupos brasileiros carentes na periferia das grandes cidades e em áreas dominadas pelo agronegócio exportador, a mobilização de grupos indígenas contra os riscos da pandemia de covid-19 é uma luta árdua pela inclusão social e influência política.

Possíveis Desdobramentos: Três Tendências Gerais

Mesmo após parecer ter sido convencido de que a pandemia seria, sim, um problema real e greve no país, Bolsonaro continua a insistir no discurso negacionista, mais que tudo fornecido pelo guru des-intelectual do Governo, o astrólogo Olavo de Carvalho, quem vem afirmando que trata-se de um grande complô, ao passo que os números oficias (certamente sub-representados) de infecções aumenta rapidamente. Dentro desse contexto de crescente polarização ideológica e deslegitimação da ciência e mesmo do papel do Estado, quais cenários poderiam ser vislumbrados a curto e médio prazos?

Um primeiro cenário ou tendência possível, talvez o mais provável, é que, ao fim da fase mais aguda da crise (entre seis e doze meses), haja um retorno, ou mesmo um aprofundamento, da política econômica neoliberal e anti-povo que vem sendo implementada no país ao longo dos últimos 5 anos. Como no pós-2008, a resposta dominante para a crise do neoliberalismo seria pois mais do mesmo. Com ou sem Bolsonaro, com ou sem Guedes, um governo pós-crise, novamente legitimado pelo controle da retórica e conivência da mídia poderia retomar com ainda com mais força midiática e empresarial a plataforma neo-liberal que, afinal, foi o que legitimou a candidatura de Bolsonaro em 2018. Esse processo frustraria as ambições e receitas neo-kenesianas que em diferentes partes do mundo tentam lidar com os excessos neoliberais, evidentemente sem enfrentar as questões de fundo relacionadas ao poder do capital financeiro, glorificação da acumulação privada e padrões suicidas de produção, consumo e desperdício. Esse cenário levaria, evidentemente, ao aprofundamento da recessão, desemprego e colapso de diversos setores econômicos, inclusive boa parte do agronegócio, cúmplice de primeira hora do neoliberalismo-de-estado. Tais contradições seriam providencialmente negadas, sufocadas pela ação coordenada das milícias estaduais (com a omissão do Exército ou sua ajuda explícita, como foi o caso durante a intervenção recente no Rio de Janeiro, quando o exército foi instrumental para a limpeza de muitas favelas em favor de milicianos) e suas consequências transferidas de forma leviana a governos futuros.

Uma segunda tendência, também bastante provável, é a do aprofundamento do viés autoritário do atual governo. Esse aprofundamento, uma espécie de Leviatã Tropical 2.0, seria feito por um ainda maior (não legítimo) protagonismo das Forças Armadas na política, reencarnadas na tarefa auto-atribuída de manter a lei e a ordem a fim de garantir a manutenção dos ciclos produtivos do capital. Essa processo implicaria numa maior repressão de grupos sociais marginalizados, um ainda maior ataque aos direitos sociais que ainda restam e mesmo a diminuição das liberdades civis e talvez mesmo políticas (vide a ameaça do cancelamento da eleição de outubro), e certamente um aumento cada vez maior dos serviços de inteligência e monitoramento das pessoas —algo que talvez seja necessário na condições atuais e que seria assim promovido como aceitável ou mesmo inevitável no momento pós-crise. A implementação dessa tendência poderia se dar de diferentes formas. Alguns tem aventado a possibilidade vindoura de um auto-golpe (a la Fujimori), com o fechamento do Congresso e uma censura forte da mídia e de qualquer oposição. Cabe ressaltar que esse curso não é necessário já que, com ou sem a tomada direta do governo pelos grupos militares, fica cada dia mais difícil distinguir em que setor a caserna já não está no comando da nação. Diretamente ou indiretamente, um governo militarizado, como atual, seria o mais indicado para implementar concomitantemente as duas tendências apresentadas. Teríamos pois um aumento da repressão estatal contra toda e qualquer resistência ao aprofundamento do receituário neoliberal que estaria, assim, garantido em sua implantação. De maneira sinérgica, veríamos um relacionado aprofundamento das desigualdades sociais e uma erosão ainda maior das noções de cidadania.

Uma terceira tendência, diretamente relacionada ao aprofundamento dos cenários anteriores, envolveria uma crise crônica da autoridade e da intervenção estatal talvez nunca vista no Brasil. Vivenciaríamos uma escalada de protestos ao redor do país —derivados da deterioração acelerada das condições de vida, desemprego elevado, economia fragmentada e violência generalizada—, sem, contudo, que esse processo consiga ser organizar de modo a oferecer uma alternativa viável de organização social e política ao país.Apenas alguns setores extrativistas diretamente ligados aos interesses internacionais teriam alguma capacidade de atuação, situação hoje presente no Delta do Rio Niger, no Iraque e na Amazônia peruana. As elites nacionais perderiam influência em favor de elites regionais, ainda mais obscurantistas, em aliança com fundamentalistas evangélicos, grupos neo-fascistas e milicianos em posições de mando ainda mais importantes que nos cenários anteriores. O estado nacional seria mantido nominalmente e o emblema ‘Brasil’ seria mantido para consumo externo (manter a bandeirinha na frente das Nações Unidas e participação em jogos de futebol, por exemplo), mas o território seria na prática fragmentado entre as elites nacionais e parceiros internacionais. Em alguma medida, este cenário já se manifesta hoje, com a crescente presença dos interesses chineses na Amazônia e na soja do centro-oeste, o turismo europeu no nordeste e a decadência pronunciada dos estados sulinos, e não seria pois nada surpreendente que se aprofunde nos próximos tempos.

O Pós-Brasil

A lógica individualista e o neoliberalismo-Talibã disseminados no país com uma voz monocórdica nos últimos anos ajudaram, em muito, a viabilização eleitoral do reacionarismo de viés fascista em 2018. Como em todo discurso negacionista e falacioso, especialmente sob o manto de um patriotismo maniqueísta, essa narrativa ainda tem a capacidade de atrair simpatizantes entre diversos grupos sociais, notadamente entre os mais desmobilizados e com baixíssimo nível de informação além das chamadas bolhas. Bolsonaro representa, pois, um movimento mais amplo que tomou conta do país em favor de fanatismo econômico e medievalismo intelectual.

Muitos ainda apostam que a crise de saúde nas próximas semanas será algo administrável pela ação governamental montada, ainda que de maneira esquizofrênica, na capital federal. A depender do tamanho da dor da perda de algum ente querido, os níveis de apoio ao status quo serão maiores ou menores. De todo modo, a crise institucional em curso tenderá a se aprofundar em qualquer cenário vindouro, onde as tendências acima apontadas parecem adquirir capacidade quase autônoma de continuar a definir o caráter anti-democrático, anti-popular e anti-natureza dos rumos em curso. É fundamental, pois, pensarmos de maneira crítica e corajosa não somente no Brasil pós-crise, mas nas consequências mais profundas de um Pós-Brasil distópico que se configura no horizonte.

Rafael R. Ioris e Antonio A. R. Ioris são professores da Universidade de Denver e Universidade de Cardiff, respectivamente.

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