Será que começamos a nos sentir mais iguais diante do medo de uma nova guerra viral?

De repente, ninguém se sente seguro diante desse mal invisível. Todos nós estamos igualmente desarmados

Vizinhos conversam pela sacada em um prédio em Madri.
Vizinhos conversam pela sacada em um prédio em Madri.Mariscal / EFE

O mundo está passando por uma prova global de medo diante da nova epidemia viral que ameaça a todos por igual e que nos mostra que, para ela, não existem muros nem fronteiras. É um inimigo que domina o espaço e o tempo, e a humanidade não será a mesma depois deste enigma que ninguém é capaz de resolver. Se será melhor ou pior, dependerá de nós e de como sejamos capazes de entender sua mensagem.

O que é certo é que, de repente, ninguém se sente seguro diante desse mal invisível. Todos nós estamos igualmente desarmados. Pessoas importantes e simples, famosas e anônimas se veem forçadas a lavar igualmente as mãos, a cobrir comicamente o rosto e a sofrer a quarentena até amorosa imposta pelo temor do contágio. Todos sentem medo. Descobrimos ser igualmente vulneráveis diante de um inimigo invisível que não pede nossa identidade de gênero, política ou religiosa para nos atacar ou nos salvar. O presidente de um banco importante morre e seu motorista se salva. Morrem o político e o pedreiro, o crente e o ateu. O mundo, as coisas, a vida e seus velhos paradigmas estão mudando vertiginosamente, para nosso assombro.

Será que esta guerra sem nome servirá para algo? Será que nos fará mais humanos, com menos ódio, ou endurecerá ainda mais nosso coração? Nestas horas de angústia global em que as crianças nos olham com estranhamento, fazem-nos perguntas sem respostas e não entendem por que não podemos mais beijá-las, prefiro apostar que o vírus diabólico que chega sem bater à porta nos trará o paradoxo de nos ajudar a refletir se vale a pena cultivar no coração tantos ódios políticos, tanta vontade de acumular. Ele nos obriga a repensar nosso moderno e cruel capitalismo, assim como nos obriga a olhar nos olhos as vítimas da pobreza e o abandono dos discriminados. Desta vez, todos nós, sem distinção de posição social, sentimos medo e vulnerabilidade.

Talvez seja uma miragem, mas parece que alguma coisa já está mudando. Estamos, por exemplo, mais sensíveis ao que possa acontecer com nossa família e amigos. De repente, nós os sentimos mais próximos enquanto somos obrigados a nos distanciar fisicamente deles. Nunca tínhamos nos comunicado tanto através das redes para saber como estão aqueles que amamos ou que havíamos esquecido. Nunca estivemos tão distantes e com tanta vontade de estar juntos, de poder voltar a nos abraçar e a nos beijar sem medo.

É como se descobríssemos que somos mais iguais diante do perigo e se despertasse em nós um sentimento de compaixão que tínhamos esquecido. Eu mesmo vejo agora com uma ternura especial, por exemplo, aqueles que passam para coletar o lixo, os médicos e enfermeiros que também estão morrendo, os que não podem parar de descer das favelas para o asfalto porque precisam trabalhar, e fazem isso utilizando um transporte coletivo abarrotado, expondo-se mais do que ninguém ao contágio. Eles, os mais pobres, o novo proletariado da modernidade, serão certamente os que terão de suportar o fardo mais pesado da dor. Ainda vêm por aí muito desemprego −que atinge os mais fracos da cadeia social− e muito sofrimento. Ainda mais em um país como o Brasil, com tantos bolsões de pobreza e miséria e com milhões de pessoas sem serviços básicos de higiene.

Mas, ao mesmo tempo, estou sentindo que, embora as vozes mais estridentes do ódio político e religioso que infectou o Brasil não tenham se calado, começa a ser percebida nas redes sociais, assim como nos comentários dos leitores na imprensa, uma agressividade menor, como uma tentação de escutar e entender que, diante do medo da nova praga, precisamos nos unir em vez de nos dividir. Começamos a distinguir melhor o essencial do inútil que vamos acumulando na vida, assim como a importância de defender nosso planeta dos ataques que ameaçam sua existência.

É como se, de repente, uma parte da sociedade estivesse mudando de registro, deixando de ser raivosa e ofensiva e abraçando um desejo mais forte de comunhão, como se o novo inimigo começasse a derrubar as trincheiras levantadas pelas ideologias.

Esta epidemia que nos atingiu como um lúgubre e imprevisível fantasma da morte terá consequências políticas e sociais tanto mundiais como locais. Inclusive aqui no Brasil, um país que, além disso, não tem um líder à altura da gravidade do momento. Uma tragédia que nos afetará a todos também no campo humano e emocional. Será que sairemos deste inferno melhores ou piores? Será que teremos menos rancores, mais consciência de que todos nascemos nus e iguais, mais vontade de lutar, de agora em diante, por uma vida melhor para todos, de mãos dadas como em uma festa, menos apegados às coisas inúteis e supérfluas, ou continuaremos olhando um para o outro com olhos de sangue?

Meu pressentimento é o de que, se o vírus nos perdoar, sairemos desta com mais vontade de construir um mundo menos cruel, mais feliz e mais de todos, onde, como afirma o profeta Isaías, “as espadas se transformem em arados e os lobos possam conviver com os cordeiros”. E onde “nenhuma nação se levantará contra outra e ninguém mais se preparará para a guerra”.

Mantenhamos a raiva contra tudo que nos oprime e tenta nos alienar. Gritemos nossa indignação e angústia contra os tiranos do momento, porque essa raiva e esse grito são justos e terapêuticos. Mas devemos nos despojar do ódio e da violência que atingem principalmente os mais desamparados, e ser capazes de nos olhar mais nos olhos, sem medo. Talvez acabemos descobrindo que somos todos filhos da mesma luz e vítimas da mesma cegueira.