Pandemia de coronavírus
Tribuna
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A crise que definirá nossa geração

Em exílio, mundo é obrigado a se repensar suas prioridades, seus líderes e seu destino

Turistas usam máscaras de proteção na avenida Champs Elysees, em Paris, no dia 17 de março.
Turistas usam máscaras de proteção na avenida Champs Elysees, em Paris, no dia 17 de março.Michel Euler (AP)
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15/03/2020 Coronavirus.- Comunidad cubre en un día las 7.400 plazas de voluntariado para necesidades más urgentes de la enfermedad.

Un total de 7.409 personas voluntarias y 90 entidades privadas y del Tercer Sector se han sumado, en menos de 24 horas, al registro de la Comunidad de Madrid abierto a personas voluntarias para ayudar a la población más vulnerable ante el coronavirus, ha informado la Consejería de Políticas Sociales, Familias, Igualdad y Natalidad.

POLITICA 
Óscar J.Barroso - Europa Press
Brasil tem primeiro morto por coronavírus: um homem de 62 anos, com doenças pré-existentes
View of the Simon Bolivar international brige closed in Cucuta, Colombia, on March 16, 2020. - Quarantine, schools, shops and borders closed, gatherings banned, are the main measures being taken in many countries across the world to fight the spread of the novel COVID-19 coronavirus. (Photo by Schneyder MENDOZA / AFP)
Países da América do Sul fecham fronteiras e ensaiam cooperação diplomática para conter pandemia
Commuters board a bus in Rio de Janeiro, Brazil, Monday, March 16, 2020. (AP Photo/Silvia Izquierdo)
No Brasil informal com coronavírus, domésticas dependem de altruísmo de patrões para evitar contágio

Nesta semana, recebi um email profundamente triste. Uma antiga colega jornalista havia falecido. Nenhuma relação com o coronavírus. Mas o mesmo email trazia uma segunda notícia dramática: a cerimônia prevista para seus obséquios estava cancelada. Desta vez sim, a culpa era do coronavírus. Um enterro solitário.

Não faltaram casamentos adiados, ampliando por alguns meses a vida de solteiro de alguns. Todos eles serão remarcados? As cortinas de milhares de teatros caíram, derrubando milhares de empregos. Todos eles voltarão aos palcos?

O que parecia uma história exótica de uma região da China ganhou, de forma silenciosa e invisível, o resto do mundo. Por semanas, nos corredores da OMS, eu ouvia de dirigentes e técnicos: “Acordem, isso tudo é muito grave”.

Agora, depois de muita hesitação, o continente europeu e o resto do Ocidente começaram a entender a dimensão do problema. Descobrimos um mundo vulnerável e dependente.

A partir dessa semana, quase 200 milhões de pessoas estão em quarentena completa ou parcial pela Europa. O vírus colocou uma parte importante do mundo em isolamento. Um exílio em suas casas, um exílio do contato social.

Sempre cauteloso com suas palavras, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, foi claro nesta segunda-feira sobre a dimensão da crise. “Ela definirá nossa geração”, afirmou. Ela testará nossa confiança na ciência e coloca em xeque a relação entre lideranças políticas e seus cidadãos, justamente no momento em que essa relação está corroída.

Dramático é folhear nos últimos dias os jornais italianos e descobrir que a seção de óbitos conta com dez páginas. O coronavírus só é invisível para quem não quer vê-lo.

A pandemia também traz o pior e melhor da sociedade. Descobrimos a falta de escrúpulos de quem usa tal situação politicamente. E aqueles que, ignorando os cientistas, colocam uma população em risco em nome de um egoísmo que flerta com o crime. Na França, apesar do vírus bater à porta, eleições municipais foram mantidas, obrigado as pessoas a se encontrar em locais de votos. No Brasil, Jair Bolsonaro deu uma clara demonstração de que não sabe o papel de um presidente ao convocar as pessoas às ruas.

Nas filas dos supermercados ou de serviços essenciais, descobrimos quem é quem. Na espera para comprar botijão de gás, enquanto uma senhora que estava sendo atendida buscava suas moedas e sua idade a levava mais tempo para encontrá-las, alguém tentou furar a fila sob a justificativa de que não tinha a vida toda para esperar.

Mas também presenciei como mães e pais se organizavam numa farmácia para dividir as fraldas ainda existentes no tamanho que precisavam. A solidariedade deve ser mais contagiosa que o vírus.

Ficamos aliviados quando ouvimos histórias de como vizinhos saíram às suas sacadas para cantar juntos na Itália e na Espanha. Um sentimento de uma comunidade real surgido às sombras do mundo virtual?

Mas a quarentena também impõe perguntas desconfortáveis ao mundo. Como é que certos governos gastam mais em armas que em remédios? Em 2018, o mundo destinou 1,8 trilhão de dólares de seus orçamentos públicos para o setor militar. A OMS estima que precisa de 7 bilhões de dólares para lidar com o vírus.

Outra pergunta inconveniente se refere ao destino dos mais pobres nessa crise. Para uma classe privilegiada do mundo, nunca foi tão fácil vencer uma pandemia. Fechados, temos as janelas abertas ao mundo graças às dezenas de conexões e possibilidades tecnológicas. Para aqueles em campos de refugiados, estão mais presos do que nunca.

Curioso como, num momento de agonia coletiva, a mão invisível do mercado parece não ter poderes para lidar com um inimigo. Resta apenas a ironia de ver ultraliberais perguntando: onde está o estado? A constatação é simples: a dificuldade em dar uma resposta ao vírus é o preço que o planeta está pagando por décadas investindo pouco no serviço público.

Desconcertante também é a pergunta sobre onde foram parar os líderes. Aqueles que deveriam chamar para si a responsabilidade pelo destino do mundo optaram pela miopia de uma disputa política por mandatos e influência.

Inquestionável por décadas, a abertura de fronteiras também foi suspensa e a Europa, por algumas semanas, voltará a manter a desconfiança sobre seus vizinhos. O fechamento, agora, pode servir como uma insurreição das consciências de que os luxos do século 21 foram conquistas sociais que o século 20 nos deixou. E conquistas que envolveram o sangue de muitos.

As mesinhas nas calçadas pela Europa não são apenas um hábito de lazer. Trata-se de uma parcela do contrato social de democracias vivas. A garantia da segurança pública, a garantia da renda, a garantia do tempo de lazer, a garantia de participação. Ao vê-las vazias, recolhidas e empilhadas, fica a sombra da possibilidade de que nada é irreversível.

E se usássemos essa quarentena para desenhar um modelo para ampliar a democracia e garantir que a ocupação dos locais públicos seja um direito universal? E se o isolamento fosse usado como incubadora de uma nova geração de líderes? E se o isolamento fosse aproveitado para ajudar nossos filhos sem escolas por semanas a desenhar a letra A? A de ágora.

Em seu livro A peste, Albert Camus conta como a doença que se espalhava pela cidade de Orã gerava em cada um dos moradores um sentimento diferente de exílio e isolamento. Distância daqueles que amamos, de nosso país de origem e até de uma amante.

No começo, todos queriam acelerar o tempo para decretar o fim da peste. Com o passar do tempo, alguns desistiram e outros criaram fantasias paralelas para manter a razão. Todos eram vítimas da mesma epidemia. Todos estavam em um exílio de seus universos. Mas se isso os unia, todos viviam a profunda desconfiança mútua. O resultado: estavam isolados em seu sofrimento.

O nosso exílio que começa nesta semana pela Europa e que pode chegar a outras partes do mundo não pode ser desperdiçado. Uma oportunidade única para a sociedade, fechada, olhar para si mesma e se examinar. Temos como construir uma geração fincada na responsabilidade social?

Entre as milhares de mensagens que circulam pelo Velho Continente nos últimos dias, uma delas tocava no coração do orgulhoso povo europeu, repleto de batalhas. “Nossos avós foram convocados a sair de casa para lutar por sua sobrevivência. Nós, desta vez, estamos sendo convocados a ficar em casa”.

A OMS garante que há como vencer o vírus. Mas ele deixará como legado uma necessidade real de repensar nossa existência.

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