Espanha na vitrine

Livro mostra que espanhóis se incluem mais entre aqueles que foram críticos ferozes de seu país do que entre aqueles que o defenderam e o valorizaram. E isso não é uma crítica, mas um elogio

FERNANDO VICENTE
FERNANDO VICENTEFernando Vicente

José Varela Ortega deve ter trabalhado na documentação de seu extraordinário livro España: Un Relato de Grandeza y Odio (“Espanha: uma história de grandeza e ódio”, publicado na Espanha pela Espasa) durante muitos anos e não há dúvida de que continuará trabalhando nele, em cada uma de suas reedições ―já está na segunda―, porque esse ensaio é uma dessas tentativas impossíveis que, muito de vez em quando, certos autores excepcionais impõem a si mesmos, e das quais resultam, também às vezes, realizações admiráveis, como os ensaios históricos da famosa polêmica entre Américo Castro (España en su Historia) e Sánchez Albornoz (España: Un Enigma Histórico). Seu livro está nesse nível intelectual e, em seu campo específico, não há nenhum que se compare a ele.

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Convém, antes de tudo, dizer que esse ensaio tem muito pouco a ver com o livro de Elvira Roca Barea, Imperiofobia y Leyenda Negra (“imperiofobia e lenda negra”), uma pesquisa interessante que comentei nesta mesma coluna e que estuda, como indica seu título, as falsidades, os exageros e as fantasias absurdas que, para diminuir o prestígio da Espanha, seus inimigos espalharam. O de José Varela Ortega é muito mais ambicioso e pretende nada menos que historiar tudo ―sim, tudo― aquilo que disseram a favor da Espanha ou contra ela seus amigos, adversários e, entre eles, é claro, não só os estrangeiros, mas também os próprios espanhóis. E a verdade é que, embora seu objetivo fosse inatingível, temos a impressão, lendo esse grosso volume, de que esteve a ponto de alcançá-lo. Sua busca não se limita a livros e jornais, mas também a filmes, tanto ficções como documentários, pinturas, gravuras, fotografias, quadrinhos e até memes e fofocas orais.

Embora possa parecer mentira, esse livro está muito longe de ser um simples catálogo, e se lê com um interesse constante, por sua amenidade e sua ironia, que Varela Ortega deve ter herdado de seus professores ingleses, pois se formou na Grã-Bretanha, com a qual, mantendo uma neutralidade total sobre aquilo que conta, lima as arestas das mentiras excessivas ou dos elogios desmedidos, zomba das tolices e idiotices, e detalha com simpatia as coisas inteligentes e criativas que já disseram sobre a Espanha tanto seus impugnadores como seus defensores.

Uma conclusão evidente é que, em cada período histórico em que gozaram de liberdade ―não foram muitos em sua trajetória—, os espanhóis se incluem mais entre aqueles que foram críticos ferozes de seu país do que entre aqueles que o defenderam e o valorizaram. Isso não é uma crítica, mas um elogio, porque o que mantém uma sociedade viva e a faz progredir não são o ditirambo e a adulação, e sim o espírito pugnaz e a atitude indômita, ou seja, o questionamento constante de suas instituições e de seus costumes por seus intelectuais e líderes políticos. A Espanha é o único caso, na história, de um império que em plena conquista da América reúne, por exigência de seus críticos, principalmente religiosos, uma grande assembleia em Salamanca para determinar se a conquista era justa ou injusta e se os indígenas —eram filhos de Deus e tinham alma?— estavam sendo bem tratados. Na Inglaterra ou na Holanda, alguém como o indomável dominicano Bartolomé de las Casas e seus ataques ferinos à ocupação da América pelos conquistadores teria sido enforcado, é óbvio. E o Século de Ouro, quando a Espanha alcança uma superioridade intelectual sobre o restante da Europa, antes que comece a decadência, é uma época de crítica profunda, saudável no caso de um Cervantes, e distorcida e amarga no do desafortunado Quevedo, por exemplo.

O caso da geração de 1898 e suas ramificações é muito interessante e está descrito esplendidamente no livro de Varela Ortega. A perda da última colônia —Cuba—, na derrota na guerra com os Estados Unidos, leva seus membros a descobrir seu próprio país. Com olhos críticos, sim, mas também compreensivos e generosos, e abrindo-se para a Europa e o mundo, dos quais seu congêneres estiveram afastados por muito tempo. E é através desse contato com o próprio país e suas melhores tradições que escritores como Azorín, Valle-Inclán, Unamuno, Pérez de Ayala, para não falar do principal cruzador de fronteiras, Ortega y Gasset, vão se conectar com o resto do planeta. A Espanha volta a ser, do ponto de vista intelectual, um país europeu e não apenas consumidor, mas também produtor de ideias e realizações artísticas, literárias e filosóficas. O país fica na moda e muitos estrangeiros o visitam ou se estabelecem nele, atraídos pela “cor local” —o flamenco, as ruínas, os touros—, e alguns deles deixam testemunhos tão estimulantes como os do Gerald Brenan e George Borrow.

Merecem menção à parte as notas de rodapé de España: Un Relato de Grandeza y Odio. São abundantes e às vezes muito longas, mas nunca excessivas, e são lidas como pequenos ensaios independentes. Servem para Varela Ortega constituir uma história separada, menos importante que a principal, mas sempre esclarecedora, e frequentemente divertida pelos traços de humor e de erudição pitoresca que revelam. Essas notas de rodapé me lembraram as que acompanham o esplêndido ensaio de María Rosa Lida de Malkiel sobre A Celestina. “Cada nota é um verdadeiro artigo!”, exclamou meu amigo Sergio Beser, com quem li ao mesmo tempo essa impressionante realização de argúcia crítica e erudição, quando fomos professores na Inglaterra dos anos 1970.

As conclusões que podemos tirar desse ensaio são perfeitamente previsíveis: sobre a Espanha e os espanhóis foi dito tudo que se pode dizer, principalmente o excessivo: o país é triste e alegre, seus habitantes são loquazes ou lacônicos, apaixonados ou austeros, místicos e sensuais, violentos e pacíficos, cruéis e generosos, como se, conforme a idiossincrasia e os valores de cada época, a Espanha e os espanhóis os encarnassem sempre, embora sejam incompatíveis entre si. Não se poderia dizer o mesmo de todos os países? Sem dúvida. Porque, simplesmente, a unidade buscada por aquelas fórmulas não existe e nunca existiu, exceto nas fantasias dos ideólogos. Um país é um formigueiro onde, abaixo da superfície que poderia parecer uniforme e idêntica, irrompem as diferenças. E muito mais em nossa época, que fez com que desaparecessem todas as tribos, ou seja, aquele período histórico no qual o indivíduo ainda não existia e o ser humano era apenas parte da comunidade. É verdade que as distintas línguas, assim como as crenças religiosas e os usos e costumes, foram diferenciando as sociedades, mas um dos grandes méritos do livro de José Varela Ortega é demonstrado em um caso concreto e específico. A visão da Espanha revela muito mais a subjetividade de quem a elogia ou a critica do que a realidade diversa e múltipla que ela é, um país antigo, o mais longevo império europeu, que, através de múltiplas vicissitudes, foi se ampliando e formando um gigantesco conglomerado de seres diversos, unidos pelo idioma e pela história, onde, se for visto sem preconceito, cabe o mundo inteiro em sua fantástica diversidade. O livro de José Varela Ortega será um desses ensaios memoráveis que continuarão sendo lidos quando tudo isso for evidente, se os preconceitos nacionalistas —quem diria que ressuscitariam— permitirem e não nos cegarem outra vez.

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