Investigação aponta pelo menos 216.000 casos de pedofilia na Igreja francesa

Após dois anos e meio de apuração, a Comissão Independente sobre Abusos Sexuais na Igreja Católica apresenta em Paris seu relatório final com quase meia centena de propostas para evitar novos casos

Jean-Marc Sauvé, à esquerda, entrega cópias do relatório sobre pedofilia ao bispo Éric de Moulins-Beaufort, presidente da Conferência Episcopal Francesa, nesta terça-feira, em Paris.
Jean-Marc Sauvé, à esquerda, entrega cópias do relatório sobre pedofilia ao bispo Éric de Moulins-Beaufort, presidente da Conferência Episcopal Francesa, nesta terça-feira, em Paris.THOMAS COEX (AFP)

Pelo menos 216.000 pessoas foram vítimas de pedofilia no seio da Igreja católica francesa nos últimos 70 anos, segundo o relatório final da Comissão Independente sobre Abusos Sexuais na Igreja (Ciase, na sigla em francês). A cifra chega a 330.000 quando são contabilizados também os crimes sexuais cometidos por pessoal laico da igreja, como professores de colégios religiosos ou de catecismo, de acordo com uma investigação iniciada há 32 meses e revelada nesta terça-feira em Paris. Poucas horas depois da revelação, o Papa Francisco disse que recebeu o relatório com pesar e afirmou que a luta dele está com as vítimas.

“São cifras esmagadoras, que exigem medidas muito fortes” por parte da Igreja católica, disse o presidente da comissão, Jean-Marc Sauvé, ao apresentar o relatório. Isto demonstra, segundo ele, que os “silêncios” e “falhas” do clero francês perante os casos de pedofilia desde 1950 têm um “caráter sistêmico”, que requer profundas reformas da instituição e suas práticas, incluído o segredo de confissão, salientou. “Até o começo dos anos 2000, constatamos uma indiferença profunda e cruel perante as vítimas. Não se acredita nelas, não são ouvidas, considera-se que elas podem ter contribuído para o que aconteceu com elas”, apontou. Por isso, continuou, a Ciase é “unânime” em sua conclusão: “A Igreja não soube ver, não soube escutar, não soube captar os fracos sinais” e, se as vítimas não houvessem finalmente tomado a palavra, “nossa sociedade continuaria ignorando ou negando o que aconteceu”.

No relatório se confirma também que a cifra de predadores sexuais na Igreja francesa ronda os 3.000 sacerdotes ou religiosos, uma “estimativa mínima”, como explicou Sauvé à imprensa nacional às vésperas da divulgação do relatório.

“Não pode haver um futuro comum sem um trabalho de verdade, perdão e reconciliação”, insistiu o presidente da comissão logo antes de entregar o informe a dois altos representantes da Igreja, o presidente da Conferência Episcopal da França (CEF), Éric de Moulins-Beaufort, e a presidenta da Conferência de Religiosos e Religiosas da França, a freira Véronique Margron. A Ciase “contribuiu para o trabalho de verdade, agora cabe à Igreja agir e recuperar a confiança dos fiéis e o respeito da sociedade”, afirmou Sauvé.

A amplitude das cifras reveladas e a voz das vítimas “nos perturba, nos aflige, superam o que supúnhamos”, reconheceu Moulins-Béaufort, que não minimizou seu impacto. O relatório “nos envergonha, nos espanta”, prosseguiu, e serve para “persuadir” a Igreja francesa de que “o trabalho de purificação necessário deve ser feito sem descanso”. Acrescentou que há uma “determinação de agir para que a recusa a escutar, a intenção de silenciar, de ocultar”, denunciada no relatório, “desapareça” e haja uma verdadeira mudança de atitude e de reação.

“Meu desejo neste dia é pedir perdão, perdão a cada um e cada uma”, acrescentou o presidente da Conferência Episcopal.

A Igreja católica francesa decidiu no final de 2018 investigar todos os casos de pedofilia na instituição desde 1950, num reação à multiplicação de processos no país contra religiosos acusados de cometer abusos sexuais ou silenciar denúncias recebidas – como foi o caso do cardeal Philippe Barbarin, então arcebispo de Lyon. Aquela onda de denúncias também coincidiu com um aumento do debate nacional e internacional sobre o tema, com casos muito midiáticos nos Estados Unidos, Europa e até na Austrália. Em fevereiro de 2019, o papa Francisco convocou um sínodo sobre a pedofilia em que aceitou passar da retórica a “medidas concretas e eficazes”. No final deste ano, o Vaticano anunciou duas novas leis que, entre outras coisas, liquidam o segredo pontifício – imposto desde 1972 em assuntos e investigações de particular gravidade – nos casos de abusos contra menores por parte de representantes da Igreja.

Nesse contexto, a CEF decidiu encarregar a uma comissão independente a tarefa de investigar possíveis casos de pedofilia desde 1950 e “as razões que favoreceram a maneira como esses assuntos foram tratados”, além de fazer propostas para evitar novos casos no futuro.

O mandato foi entregue a Sauvé, um católico praticante e ex-vice-presidente do Conselho de Estado, que convocou 21 homens e mulheres de diferentes âmbitos – de juristas e teólogos a psicólogos e assistentes sociais – e diversas confissões religiosas, inclusive não crentes. Assim nasceu a Ciase, que cerca de seis meses após sua formação, em junho de 2019, começou a procurar depoimentos para compor sua investigação e suas propostas, agora apresentadas em toda a sua amplitude.

Ao todo, o relatório, aprovado “por consenso”, segundo Sauvé, consta de 2.480 páginas, 2.000 delas de anexos. Sua elaboração exigiu quase dois anos e meio de trabalho, em parte interrompidos pela pandemia. Para chegar às suas conclusões e cifras, que são “uma estimativa mínima”, conforme advertiu nos últimos dias o próprio Sauvé, a comissão trabalhou sobre a base de 6.500 telefonemas e e-mails com depoimentos recebidos entre 3 de junho de 2019 e 31 de outubro de 2020, na etapa decisiva dos trabalhos da comissão, seguidas de 250 audiências ou entrevistas. Além disso, a Ciase complementou seu trabalho com diversas pesquisas, incluindo uma em nível nacional sobre abusos generalizados contra menores, não só no seio da Igreja, para poder contextualizar os casos de religiosos, e com a consulta também a arquivos eclesiásticos e civis (judiciais, policiais e jornalísticos). A investigação custou cerca de três milhões de euros (19 milhões de reais), financiados pelo Episcopado e por instituições religiosas.

Se você conhece algum caso de abuso sexual que não foi revelado, envie sua denúncia por escrito para: abusos@elpais.es

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