O sacrifício perdido de duas gerações com a volta do Talibã no Afeganistão: “Foi tudo em vão”

Jovens temem o retorno do regime do terror da milícia fundamentalista que levou seus pais a fugirem do país na década de noventa

Cidadãos afegãos fazem fila no passo fronteiriço de Chaman, entre o Paquistão e o Afeganistão, nesta terça-feira. Em vídeo, imagens de afegãos tentando sair do país de avião.
Cidadãos afegãos fazem fila no passo fronteiriço de Chaman, entre o Paquistão e o Afeganistão, nesta terça-feira. Em vídeo, imagens de afegãos tentando sair do país de avião.- (AFP)
Mais informações
Lições aprendidas no Afeganistão? Nenhuma
Jóvenes afganas en una clase de astronomía, el pasado 18 de julio, en Herat.
Universitárias são proibidas de frequentar aulas com a tomada do Talibã no Afeganistão
Captura de vídeo de Ashraf Ghani, durante un discurso en la televisión afgana, el 14 de agosto.
Ashraf Ghani, o presidente que fracassou na última tentativa de selar a paz com os talibãs no Afeganistão

O ar da manhã é fresco e o silêncio das ruas de Cabul se tornou inquietante na segunda-feira em que a reinstauração do Emirado Islâmico do Afeganistão se tornou realidade, duas décadas depois da invasão norte-americana que derrubou o regime fundamentalista do Talibã. Essa tranquilidade contrasta com o caos que se instalou no aeroporto da cidade quando milhares de afegãos tentaram desesperadamente embarcar em algum avião que os levasse embora do país —um esforço que, na maioria dos casos, foi em vão. Já no resto da cidade reina uma calma inquietante: não houve combates, como se temia, mas a confusão e o medo crescente monopolizam as conversas entre os moradores.

“Sinto-me como se tivesse perdido tudo”, lamenta-se Marzia Panahi, dona da galeria de arte Namad. “Quando acordei esta manhã, estava muito deprimida, tive vontade de desaparecer, mas pensei na minha família e isso me deu ânimo.” Panahi conta que muitos de seus amigos empreendedores sentem o mesmo. Ela criou sua galeria há um ano e planejava inaugurar uma exposição no mês que vem, mas seus sonhos agora se desvaneceram. Não só precisou fechar temporariamente o estabelecimento, ante a incerteza sobre o que acontecerá e sobre quem manda agora, como também sua universidade fechou, o que a impede de completar os dois últimos meses da licenciatura em Relações Internacionais. “Ouvimos disparos no domingo pela manhã e achei que precisávamos sair daqui, Queria chorar… não quero largar minha galeria”, diz.

“Os jovens queriam mudar este país, tínhamos muitos sonhos e planos de futuro, para nós e para o Afeganistão”, prossegue. Se permanecer em Cabul, Panahi acredita que estará em perigo, mas deixar tudo para trás e refazer a vida em um lugar desconhecido como o Paquistão, seu destino escolhido por enquanto, tampouco foi uma decisão fácil. “Não sei quanto tempo eu teria que me esconder se ficasse. Trabalhei como jornalista e para o Governo, o Talibã têm muitas razões para me matar”, diz, em alusão à campanha de assassinatos que durante meses teve esses trabalhadores como alvos.

“Começaremos de novo, mesmo que isso signifique que temos que ir primeiro para o exterior e depois retornar. Meu plano é ir primeiro para o Paquistão e depois, com sorte, seguir meus estudos em outro país. Vou me fortalecer e depois voltarei para cá”, diz a galerista.

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

Uma densa névoa de confusão e medo baixou sobre Cabul na segunda-feira, quando seus habitantes anteciparam como seria o futuro de seu país destruído pela guerra depois da transição do poder do Governo pró-ocidental para o Talibã. A grande maioria das lojas permaneceu fechada porque seus proprietários temiam sair: preferiam se esconder na segurança de seus lares.

Deeba, mãe de um menino de 10 anos, vive há dias atormentada com a perspectiva de perder sua liberdade com a chegada do Talibã. “Estivemos vivendo uma vida livre, não teremos essa vida se o Talibã chegar ao poder. Vivo com minha mãe, minha irmã e meu filho, não há homens na casa. Sob o Governo do Talibã, as mulheres não podem sair de sua casa sem um companheiro masculino, então o que faremos?”, diz, chorando.

Rohina Haroon-Walizada e seu marido Walid conseguiram reservar um voo para a França no sábado, um dia antes de a capital cair em poder dos fundamentalistas. Os pais de Rohina estavam na mesma situação há pouco menos de 30 anos, quando fizeram o grande sacrifício de emigrar com a família para o Paquistão em 1994, num momento em que o país estava mergulhado em uma brutal guerra civil que levou o Talibã ao poder em 1996. Seu objetivo é, como foi o de seus pais, garantir que seus filhos tenham oportunidades e acesso à educação.

“Uma geração depois, a história se repete”, diz Rohina. “Todo esse sacrifício foi em vão”, lamenta. “Por isso estamos tão tristes. Meu pai sofreu da mesma forma que nós agora. tantos anos se passaram… e nada mudou.”

Retrocessos

O atleta Nabi (pseudônimo) acredita que o progresso dos últimos 20 anos vai desmoronar completamente. Que não sobrará nada do que foi feito. Ele e sua namorada, a quem não quer se identificar, tentaram desesperadamente obter os documentos de viagem para poder escapar para um lugar seguro. “É impossível, porque tudo está fechado. Nosso plano é ir para o Paquistão e depois chegar à Turquia, porque tirar um visto turco lá agora custa só 8.000 dólares por pessoa. Do Paquistão é mais fácil”, diz.

“A situação é terrível. O Talibã está por toda parte. Muitos acham que acabamos de perder todos os avanços que tínhamos conseguido nos últimos 20 anos, especialmente para as mulheres. Agora só nos resta sentar e esperar.”

Ambos são atletas, e ela recebeu ameaças dos fundamentalistas por se dedicar ao esporte, diz Nabi. “É aterrador ver os talibãs em Cabul. Eu os vi muitas vezes em outros lugares do país, e vi do que são capazes. No ano passado, meus amigos e eu estávamos em um ônibus em Ghazni. Os talibãs detiveram o veículo e prenderam uma pessoa a quem acusaram de trabalhar para o Governo. Deixaram-nos ir e depois atiraram nessa pessoa”, disse.

“A situação muda a cada minuto. Não temos nem ideia do nosso futuro. Se eu ficar aqui, talvez não possa continuar com o esporte, que é minha paixão, ou fazer meu trabalho, ou interagir com estrangeiros. Preciso ir embora”, conclui.

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS