Jovenel Moïse, um homem cercado de inimigos dentro e fora do Haiti

O presidente assassinado nesta quarta-feira em sua casa em Porto Príncipe estava em conflito com senadores, grandes empresários e, no exterior, com a Venezuela

Jovenel Moïse em Washington, em 20 de abril de 2016, enquanto ainda era candidato à presidência do Haiti.
Jovenel Moïse em Washington, em 20 de abril de 2016, enquanto ainda era candidato à presidência do Haiti.Alex Wong (Getty Images)
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Se fosse um filme policial em que o oficial pergunta ao familiar se conhecia alguém que queria matar o presidente do Haiti, seriam muitos os nomes que apareceriam na caderneta. O assassinato de Jovenel Moïse revela a decomposição social e política em que o país caribenho está estagnado desde muito antes de o terremoto de 2010 ter reduzido o país a escombros.

O magnicídio acelera o caos e o vácuo de poder a menos de três meses de uma eleição que marcava o roteiro para sua saída natural do cargo.

Altamente impopular e rotulado de autoritário, Jovenel Moïse se mantinha precariamente no cargo. O presidente norte-americano, Joe Biden, via com bons olhos a possibilidade de realizar eleições em setembro e evitar uma crise que desestabilizaria o país (e que eventualmente poderia aumentar a migração para os EUA).

Moïse era odiado por um grupo de famílias entre as quais estavam os Vorve, donos da eletricidade do país a quem afastou do suculento negócio, uma das principais conquistas de sua gestão. A eles e a outras poderosas famílias que controlam a economia, Moïse atribuía as tentativas de golpe de Estado e de estar por trás de outras tentativas de magnicídio.

Outros de seus inimigos são as dezenas de senadores —e todos os negócios que controlam em paralelo— que ficariam desempregados se fosse aprovada a reforma constitucional que ia ser votada em setembro e que pretendia acabar com um modelo de Assembleia e Senado para transformar o Parlamento em unicameral. Também dentro de seu partido, o PHTK, a nomeação na semana passada de um primeiro-ministro próximo a ele tinha criado mal-estar e inimigos na cúpula ao se verem distanciados do poder.

O presidente do Haiti tinha outro inimigo externo: a Venezuela. Se os presidentes do Haiti têm certeza de uma coisa, é que seu mandato dura o tempo que os Estados Unidos levarem para baixar o polegar. Durante os últimos quatro anos, Jovenel Moïse viveu um idílio com Donald Trump devido, entre outras coisas, ao seu ativismo contra a Venezuela e à sua decisão de romper os laços comerciais com o mundo bolivariano. A máquina chavista respondeu vazando documentos sobre uma suposta corrupção de Moïse ligada à PetroCaribe que deu início à instabilidade em que o país esteve mergulhado nos últimos anos. Não por acaso as autoridades haitianas vazaram no comunicado anunciando a morte do mandatário que os assassinos falavam espanhol.

Ao mesmo tempo, Jimmy “Barbecue” Cherizier, um ex-policial que lidera uma das gangues violentas mais poderosas de Porto Príncipe, empoderada com o auge da indústria de sequestros e o tráfico de armas e de drogas, apareceu recentemente nas redes sociais chamando a tomar o poder e começar uma “insurreição dos pobres”.

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