Bruxelas e Washington abrem as portas ao fim das sanções contra a Venezuela

Borrell e Blinken emitem um comunicado conjunto em que advogam a favor de uma “solução pacífica” e oferecem concessões caso Nicolás Maduro avance rumo a uma saída negociada da crise

Josep Borrell, na cúpula europeia de Bruxelas na sexta-feira.
Josep Borrell, na cúpula europeia de Bruxelas na sexta-feira.JOHANNA GERON / POOL (EFE)
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Pela primeira vez em muito tempo, a União Europeia e os EUA lidam com a crise política e econômica da Venezuela em total sintonia e se mostram favoráveis a levantar as sanções que castigam o país latino-americano. O Alto Representante de Política Externa da UE, Josep Borrell, e o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, emitiram na sexta-feira um comunicado conjunto em que advogam por uma “solução pacífica” que parta “do próprio povo venezuelano” e que seja canalizada através das estruturas políticas do país caribenho.

Os dois principais responsáveis da diplomacia europeia e norte-americana também pedem “a libertação incondicional de todos os presos injustamente por motivos políticos”, assim como a restauração de todos os processos democráticos colocados em risco pelo presidente Nicolás Maduro e a realização de eleições livres em novembro.

Se todos esses passos forem dados, os responsáveis pela diplomacia em Washington e Bruxelas assumem um compromisso importante ao abrir as portas a uma revisão da política de sanções aplicada ao país latino-americano. “Avaliamos os avanços substanciais e críveis para restaurar os processos democráticos e as instituições na Venezuela e estamos dispostos a revisar a política de sanções na base de um progresso significativo em uma negociação ampla”, diz o comunicado, emitido no final da sexta-feira após várias semanas de gestação.

Borrell e Blinken também expressam seu compromisso com a ajuda necessária para acabar com a crise humanitária, que afeta tanto a população venezuelana como os seis milhões de pessoas que saíram do país e os países vizinhos de acolhida.

O comunicado marca uma mudança drástica em relação à etapa do presidente dos EUA, Donald Trump, quando Bruxelas e Washington nem sempre concordaram sobre como abordar a grave situação no país presidido por Nicolás Maduro. Os dois lados do Atlântico questionavam a legitimidade democrática de Maduro e deram certo reconhecimento ao oposicionista Juan Guaidó, a quem chegaram a qualificar como presidente encarregado. Mas a Administração Trump chegou até mesmo a pensar em uma intervenção armada para acabar com o regime chavista, um caminho que não foi apoiado pela Europa. Ainda que inicialmente boa parte dos países da UE tenha seguido os passos de Trump no reconhecimento a Guaidó, pouco depois o bloco foi se distanciando do rumo norte-americano.

A UE, além disso, deixou de outorgar em janeiro deste ano o tratamento de presidente encarregado a Guaidó após a formação da nova Assembleia parlamentar surgida das eleições de dezembro de 2020. Bruxelas não considerou democráticas essas eleições, mas deu por encerrada a Assembleia surgida após as eleições de 2015 em que Guaidó baseava sua reivindicação da liderança interina do país.

Por outro lado, o chamado Grupo de Lima (Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Paraguai e Peru), em que junto com os Estados Unidos se concentra o maior apoio à oposição venezuelana, condenou as eleições, mas não retirou o tratamento preferencial a Guaidó.

Fontes diplomáticas são favoráveis a que a oposição venezuelana se envolva na medida do possível na dinâmica política do país para não deixar um vazio que dê a Maduro a oportunidade de se tornar interlocutor único. A maioria das forças de oposição, lideradas por Guaidó, boicotou as eleições de dezembro para denunciar as ausências de garantias democráticas e de transparência no processo.

O boicote oposicionista contribuiu para elevar a abstenção a 70%. Mas em termos práticos, Maduro recebeu mais de 67% dos votos emitidos e por volta de 86% das cadeiras em disputa. Fontes europeias assinalam que, por pior que seja, o regime de Maduro é o que controla a situação do país e a relação com seu regime é inevitável.

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