Crise política na Nicarágua

Argentina e México chamam para consultas seus embaixadores na Nicarágua pela escalada repressiva de Daniel Ortega

As duas nações se distanciam das resoluções da OEA, mas reiteram sua preocupação conjunta pela situação dos direitos humanos no país centro-americano

Uma mulher sentada ao lado de uma imagem de Daniel Ortega na cidade de Catarina (Nicarágua), em outubro de 2020.
Uma mulher sentada ao lado de uma imagem de Daniel Ortega na cidade de Catarina (Nicarágua), em outubro de 2020.OSWALDO RIVAS / Reuters

A Argentina e o México mantêm uma estratégia diplomática conjunta frente à crise política sofrida pela Nicarágua sob o regime de Daniel Ortega. Os dois países anunciaram separadamente na segunda-feira que decidiram chamar para consultas seus respectivos embaixadores em Manágua, para que expliquem o que consideram as “preocupantes ações políticas-legais realizadas pelo Governo nicaraguense nos últimos dias, que colocaram em risco a integridade e a liberdade de diversas figuras da oposição”. A decisão chega uma semana depois das potências latino-americanas se absterem de votar uma resolução de condenação a Ortega na Organização de Estados Americanos (OEA), que foi aprovada por 26 países do continente, em que também se exige a “libertação imediata de todos os presos políticos”.

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A estratégia conjunta dos dois países desconcertou os opositores na Nicarágua, que esperavam uma posição unânime regional de condenação contra Ortega e seu Governo. Uma fonte da Casa Rosada afirmou que os Executivos de Alberto Fernández e Andrés Manuel López Obrador reiteram sua preocupação pela situação dos direitos humanos, mas são contrários a intervir no que consideram assuntos internos da Nicarágua, informa Federico Rivas Molina de Buenos Aires. “Nos fundamentos da abstenção [na OEA] já se colocava a preocupação pelos direitos humanos. A questão é que a OEA queria eleições e se meter na questão eleitoral, coisa que a Argentina e o México não concordam. Agora, com os últimos movimentos de Ortega, que continua prendendo opositores, os embaixadores são chamados para consultas, mas é a mesma posição: preocupação pelos direitos humanos e agora manifestando-a de outra forma”, diz a mesma fonte do Executivo argentino.

No comunicado emitido na segunda-feira, as duas nações afirmam que continuam atentas à evolução dos acontecimentos do país centro-americano e mostram sua vontade para “colaborar construtivamente na promoção do diálogo para que sejam os próprios nicaraguenses a superar essa situação pacificamente”. O Governo do México se pronunciou pela primeira vez sobre a crise política nicaraguense em 14 de maio.

O jornalista Miguel Mora após ser libertado em junho de 2019.
O jornalista Miguel Mora após ser libertado em junho de 2019.Alfredo Zuñiga / AP

A Secretaria das Relações Exteriores (SER) informou que o Executivo de López Obrador expressou ao regime de Ortega “sua preocupação pela integridade e liberdade” dos opositores presos em semanas recentes, que incluem quatro aspirantes à presidência, dois empresários, um jornalista e três ex-guerrilheiros sandinistas. “O México, com estrito respeito a sua política de não intervenção e autodeterminação dos povos, informou ao Governo da Nicarágua sua preocupação pela integridade e liberdade dos presos”, afirmou a chancelaria mexicana. Apesar das condenações e do isolamento internacional, Daniel Ortega continua com sua ofensiva repressiva. Na noite de domingo a polícia prendeu o jornalista Miguel Mora, que também havia tornado pública sua intenção de participar das eleições presidenciais previstas para novembro como candidato da oposição. Mora se transforma, desse modo, no quinto aspirante à presidência a ser preso pelo regime, após a líder oposicionista Cristiana Chamorro, o acadêmico Félix Maradiaga, o diplomata Arturo Cruz e o ex-vice-ministro da Fazenda Juan Sebastián Chamorro.

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Essa é a segunda ocasião em que o regime prende Mora, fundador do Canal 100% Notícias, cuja redação foi atacada e confiscada em 2018 como resposta à linha crítica do veículo frente à repressão contra as manifestações que exigiam o fim do Governo de Ortega e que deixou 328 mortos, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Mora é investigado pelas mesmas causas que o restante dos detidos, ou seja, “por ter realizado atos que prejudicavam a independência, a soberania e a autodeterminação, incitar a ingerência estrangeira nos assuntos internos, pedir intervenções militares, se organizar com financiamento de potências estrangeiras para executar atos de terrorismo e desestabilização”. Com o jornalista, já são 18 os oposicionistas presos pelo regime, incluindo os heróis da revolução sandinista Dora María Téllez, Víctor Hugo Tinoco e Hugo Torres.

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