Irã

Os filhos da revolução iraniana que lutaram para reformar o austero regime islâmico jogaram a toalha

Ilusões da Geração K terminaram no exílio, na prisão ou na resignação

Mulheres iranianas em um café no bairro de Ekbatan, na zona oeste de Teerã, na sexta-feira passada.
Mulheres iranianas em um café no bairro de Ekbatan, na zona oeste de Teerã, na sexta-feira passada.MORTEZA NIKOUBAZL / AFP
ENVIADA ESPECIAL, Teerã - 21 jun 2021 - 16:15 UTC

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Eles nasceram na época da revolução de 1979, cresceram nos difíceis tempos da guerra contra o Iraque e entraram na idade adulta em meio ao entusiasmo com a chegada ao Governo de um presidente que prometia reformar o austero sistema teocrático e ampliar as liberdades pessoais. Depois, um novo fechamento do regime sufocou suas esperanças. Ao participarem da maior mobilização social desde a fundação da República Islâmica, pagaram por seu atrevimento com a prisão, o exílio ou o silenciamento político. Hoje, muitos jogaram a toalha, decepcionados com a falta de vontade regeneradora das elites governantes, com a corrupção e a deterioração econômica.

Farzaneh vê sua vida como uma montanha-russa. Ela era uma daquelas jovens que queriam engolir, senão o mundo, pelo menos seu país. Os dois mandatos do reformista Mohammad Khatami (1997-2005) tinham lhes dado asas, e viram a liberdade ao alcance da mão. Então chegou o fundamentalista Mahmud Ahmadinejad (2005-2013), e as comportas se fecharam. Ela participou dos protestos contra sua reeleição em 2009, convencida de que houve fraude. Até que as manifestações se tornaram violentas e ela optou por se recolher à sua família e seu trabalho.

Hoje, prestes a completar 40 anos, essa funcionária administrativa, casada e sem filhos, recorda aqueles dias com nostalgia. “Na época tínhamos lugares de encontro, onde compartilhávamos as ilusões de mudança. Agora nem sequer existe essa possibilidade: a situação econômica é tão premente que não temos tempo nem vontade de fazer nada”, admite, desiludida não só com o Governo de Hassan Rohani, mas com o sistema como um todo. É o estado de espírito predominante na chamada Geração K (pelas iniciais dos dois líderes supremos que eles conheceram, Khomeini e Khamenei), nascidos entre 1975 e 1989.

O mesmo sentimento de frustração é expresso por Humam, um pequeno comerciante que administra três lojas de roupas masculinas no shopping Andiseh, no bairro de Seyed Khandan. “Sim, infelizmente, sou um filho da revolução”, admite. Aos 42 anos, sabe que, em comparação à maioria, não está tão mal, mas esperava mais da sua vida e do seu país. “Comecei como aprendiz no Grande Bazar, há 22 anos, e tudo é fruto do meu trabalho, ninguém me ajudou”, salienta.

“Nós, que nascemos com a revolução, vimos a guerra e depois todo tipo de crise ano após ano. É claro que estamos decepcionados, mas o que podemos fazer? Greve? Manifestação? Para nos meterem na cadeia? Se você tiver sorte, talvez seja só uma multa e depois você volta a trabalhar. Não serve de nada”, confidencia, depois de enumerar as crescentes dificuldades econômicas que enfrenta. “Parte do problema atual é pelas sanções de Trump e sua política de pressão máxima. Nem tudo é culpa deles”, acrescenta, em referência ao regime, que acusa de má gestão e de desatenção com as necessidades dos cidadãos.

Depois de os EUA se desvincularem do acordo nuclear com o Irã, em 2018, o investimento estrangeiro desapareceu do país e o PIB desabou. A pandemia exacerbou a crise. A inflação, que Rohani havia conseguido reduzir a um só dígito, disparou (ronda 50%, segundo cifras oficiais). O dólar e o euro são negociados a preços que impossibilitam viagens ao exterior para uma classe média cada vez mais pobre, o que aumenta sua sensação de isolamento. O desemprego, em especial entre os jovens, é uma bomba-relógio.

Protestos duramente reprimidos

De fato, houve protestos recentes, em 2017 e 2019, que foram duramente reprimidos. Mas, diferentemente das mobilizações sociais e por liberdades de uma década antes, as últimas tiveram caráter econômico e partiram dos mais desfavorecidos. Farzaneh lamenta que a classe média, na qual se inclui, não tenha sido capaz de se conectar com essa parte da sociedade. “Estouraram sem nem ficarmos sabendo”, observa.

Parvin (nome fictício) tem 34 anos e era uma menina quando Khatami governava. Mas o clima de abertura também marcou sua formação. “Entre os 14 e os 19 anos colaborei com uma ONG ambiental que foi fundada entre várias escolas, públicas e privadas, e que além disso era mista”, relata, destacando o caráter inovador desse dado num país onde a educação continua sendo segregada. Depois, o Governo mudou e “tudo ficou muito limitado”. As ONGs foram sendo fechadas uma após a outra, e ela decidiu focar no seu curso de marketing na universidade.

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Outros não puderam suportar a pressão. O jornalista Omid Memarian não esperou nem mesmo que Ahmadinejad tomasse posse para ir embora do Irã. A feminista Masih Alinejad abandonou o país em 2007 por causa do crescente assédio oficial, e hoje luta dos Estados Unidos contra a obrigatoriedade do véu e pela democratização de seu país. Dois anos mais tarde, a repressão aos protestos desatou um êxodo. Ebrahim Sharifi fugiu para a Turquia após ser sexualmente violentado na prisão. A poetisa e ativista de direitos humanos Asieh Amini se refugiou na Noruega. O advogado Mohammad Mostafaei também optou pelo exílio depois de ter ousado defender uma mulher condenada a morrer apedrejada.

Agora também há muitos iranianos que sonham em emigrar. “Aqui não há futuro. Eu atualmente tenho um bom trabalho, mas penso no meu filho”, manifesta Maryam, de 34 anos, mãe de um garoto de 12. “Tanto faz que saia um presidente e entre outro, o sistema não muda. Todas as alavancas econômicas e de poder são controladas pelos mesmos”, diz, preocupada de que um novo corte das liberdades se some em breve à deterioração do nível de vida.

Parvin discorda. “Nossa história sempre foi assim: lutar e lutar até encontrar uma porta aberta. Sim, tenho muitos amigos que querem ir embora, que não aguentam mais aqui, mas é o meu país e estou otimista com o futuro”, defende. Ela se diz convencida de que com a retomada do acordo nuclear a situação vai melhorar, pois haverá mais trabalho e dinheiro: “É o que aconteceu em 2015 quando ele foi assinado; vivi isso no meu trabalho.”

Na opinião dela, é improvável que haja novas restrições às liberdades. “Uma vez que se dá algo é muito difícil tirar. Há 15 ou 20 anos, minha irmã mais velha não podia ir a uma lanchonete com o seu namorado. Agora, se digo isso à minha sobrinha de 14, ela nem liga. A sociedade está mais avançada que o sistema”, explica. Admite, porém, que é possível que o país se feche mais sobre si mesmo, “com mais filtros de internet e menos informação”.

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