Venezuela

A rede que burlou as sanções dos EUA à Venezuela

Investigação do EL PAÍS e do site ‘Armando.info’ revela como foi criado um esquema que envolve dezenas de pessoas e empresas, abrange quase 30 países e movimenta dinheiro entre paraísos fiscais para erguer negócios ocultos e bilionários

O esquema de petróleo

por alimentos

Os EUA impõem desde 2014 restrições econômicas à Venezuela para asfixiar o Governo de Maduro

1

As sanções dos Estados Unidos

Governo

de Maduro

Oil

PDVSA

EUA bloqueiam o mercado internacional para a Petróleos de Venezuela (PDVSA). O país perde sua principal fonte de divisas

Dinheiro

2

Governo venezuelano

ontorna as sanções

PDVSA

O Governo de Maduro aproveita as rotas das petrolíferas russas para continuar comercializando seu petróleo com outros países

Os pagamentos são feitos em euros ou rublos para evitar o sistema financeiro dos EUA

Rússia

Índia

China

Irã

3

Venezuela precisa de novos parceiros

PDVSA

A empresa mexicana Libre Abordo acerta um intercâmbio de milho e caminhões-tanque de água potável por petróleo da PDVSA

Mexico

4

O esquema se amplia

Em uma fase mais avançada, tradings mexicanas assinam contratos pelos quais se oferecem para tirar o petróleo da Venezuela e revendê-l

Dinheiro

China

Cingapura

Malásia

Irã

Bangladesh

Palestina

Índia

Fonte: criação própria

N. CATALÁN / EL PAÍS

O esquema de petróleo por alimentos

Os EUA impõem desde 2014 restrições econômicas à Venezuela para asfixiar o Governo de Maduro

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As sanções dos Estados Unidos

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de Maduro

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O Governo de Maduro aproveita as rotas das petrolíferas russas para continuar comercializando seu petróleo com outros países

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A empresa mexicana Libre Abordo acerta um intercâmbio de milho e caminhões-tanque de água potável por petróleo da PDVSA

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Em uma fase mais avançada, tradings mexicanas assinam contratos pelos quais se oferecem para tirar o petróleo da Venezuela e revendê-l

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A empresa mexicana Libre Abordo acerta um intercâmbio de milho e caminhões-tanque de água potável por petróleo da PDVSA

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O esquema se amplia

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EUA bloqueiam o mercado internacional para a Petróleos de Venezuela (PDVSA). O país perde sua principal fonte de divisas

O Governo de Maduro aproveita as rotas das petrolíferas russas para continuar comercializando seu petróleo com outros países

A empresa mexicana Libre Abordo acerta um intercâmbio de milho e caminhões-tanque de água potável por petróleo da PDVSA

Em uma fase mais avançada, tradings mexicanas assinam contratos pelos quais se oferecem para tirar o petróleo da Venezuela e revendê-lo

Fonte: criação própria

N. CATALÁN / EL PAÍS

Mais informações

Em 7 de março de 2019, a Venezuela mergulhou na escuridão. O que parecia ser outro apagão foi se prolongando: uma hora, duas, cinco; um dia, dois, três... Entre acusações de sabotagem, o Governo chavista atuou sigilosamente e recorreu à colaboração de sócios que conseguiu durante décadas. Entre eles, um grupo de mexicanos. O que inicialmente foi proposto como uma aproximação, para tentar amenizar as deficiências energéticas de um sistema solapado por décadas de corrupção e dinamitado durante o apagão, transformou-se com o passar dos meses em uma rede internacional com a qual tentou-se, e em muitas ocasiões conseguiu-se, movimentar enormes quantidades de petróleo, dinheiro e outros recursos, como ouro, carvão e alumínio, sob a aparência de ajuda humanitária, sempre evadindo as sanções impostas pelos Estados Unidos. Um esquema que envolve dezenas de pessoas e empresas, abrange quase 30 países e movimenta dinheiro entre paraísos fiscais. Uma investigação do EL PAÍS e do site Armando.info revela como foi forjada essa rede, que permitiu que o chavismo burlasse as sanções da principal potência do planeta e que gerou um negócio oculto bilionário.

Em abril de 2019, um mês após a Venezuela ficar no escuro, a vice-presidenta Delcy Rodríguez tirou o telefone do gancho e ligou para um grupo de empresários mexicanos, conhecedores do setor elétrico. A priori, era uma questão de ver como eles podiam levar para a Venezuela algumas usinas de eletricidade, muito similares às utilizadas durante a guerra do Iraque, que servissem para amenizar os efeitos da escassez de energia. No entanto, desde a primeira viagem que os empresários fizeram a Caracas, ficou claro que as intenções de fazer negócios iam além da aquisição de geradores. Vários membros do Governo da Venezuela e operadores da cúpula chavista propuseram o que se tornaria a semente de um esquema internacional para gerar negócios que não deixariam rastros. O EL PAÍS e o Armando.info têm em seu poder milhares de documentos que, juntamente com dezenas de entrevistas, inclusive com alguns envolvidos —que pediram anonimato por medo de represálias—, atestam como essa rede opaca foi criada e desenvolvida. Uma trama que primeiro trocou petróleo por alimentos e caminhões-cisterna de água potável, e depois passou a cobrar o dinheiro das exportações por meio de circuitos financeiros fora do controle dos EUA. Todos os envolvidos possuem um vínculo em comum:

Alex Saab, suposto testa de ferro de Nicolás Maduro, que aguarda em Cabo Verde sua extradição para ser julgado nos EUA por lavagem de dinheiro.

A origem dessa rede remonta às sanções impostas à Venezuela desde 2014, sobretudo pelos EUA, para pressionar o Governo de Maduro e tentar forçar uma mudança que nunca chegou. Hoje, as sanções são moeda de troca em uma possível negociação entre a oposição e a Administração para alcançar uma saída à crise do país. O que essas pressões conseguiram foi reduzir a margem de manobra do chavismo para fazer negócios com muitas companhias, pois elas temem ser afetadas pelo Departamento do Tesouro dos EUA. E, no centro de toda a pressão, está a Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), a grande provedora de divisas para a Venezuela, o país com uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Depois que a petroleira estatal enfrentou escassez de divisas, utilizadas pelo Governo para pressões de todo tipo, o chavismo recorreu a operações comerciais nas quais pudesse pagar com petróleo em vez de dinheiro.

Delcy Rodríguez foi fundamental para ativar a conexão mexicana. Com seu irmão Jorge, atual presidente da Assembleia Nacional e várias vezes ministro, ela forma um dos pilares do Governo de Nicolás Maduro e uma dupla cujo poder lhes permitiu afastar Diosdado Cabello como o oficioso número dois do chavismo. A ex-chanceler e atual vice-presidenta preparou em abril de 2019 uma série de reuniões com funcionários estatais e operadores próximos da cúpula chavista, e um grupo de empresários mexicanos, entre os quais estava o também político José Adolfo Murat, a quem ela conhecia de fóruns internacionais de organizações de esquerda como o do Biarritz. Diversos negócios foram propostos. Com Simón Zerpa, então ministro da Economia que entrou em decadência após acusações de deslealdade, formulou-se a possibilidade de conseguir alguns caminhões de água potável. Além disso, o ministro perguntou aos mexicanos se era possível conseguir um cargo importante no porto de Veracruz, por onde seria possível introduzir e retirar do México carregamentos em grande escala. Nem Delcy Rodríguez nem o Governo venezuelano responderam aos pedidos de entrevista para esta investigação.

A reunião seguinte dos mexicanos foi feita com Ricardo Morón e José Luis Sandoval —o primeiro, sancionado por Washington em julho de 2020, faz parte do entorno de Nicolás Maduro Guerra, filho do presidente; o segundo é funcionário da PDVSA—, que colocaram sobre a mesa a possibilidade de fazer negócios com milho branco e trigo duro, por meio da Colômbia: o preço e o pagamento seriam em ouro. Outra pessoa com quem se reuniram foi Omar Nassif, irmão de um empresário próximo de Delcy Rodríguez. Nassif propôs aos mexicanos a possibilidade de transportar alguns alimentos, com transações que seriam realizadas via Hong Kong. Para isso, ele afirmou que contava com a colaboração de alguns fornecedores do México. A afirmação de Nassif não era trivial: ele havia participado do esquema dos CLAP, os comitês de distribuição de alimentos promovidos pelo chavismo. Entre 2016 e 2018, Alex Saab e seu sócio, o também colombiano Álvaro Pulido Vargas —cujo nome real era Germán Rubio, mas que ele mudou após ser envolvido em 2000 numa operação de narcotráfico vinculada com o cartel de Bogotá—, idealizaram uma estrutura de sociedades instrumentais em Hong Kong, Turquia e Emirados Árabes Unidos, da qual se beneficiaram empresários mexicanos. Alguns deles, como foi possível comprovar, vinculados à nova rede, que começou a ser tecida em abril de 2019. O nome de Alex Saab aparece também naqueles encontros em Caracas: os empresários mexicanos se reuniram com uma de suas operadoras.

Essa série de contatos foi ganhando forma com o regresso ao México. Entrou então em cena, segundo a reconstrução com base na investigação do EL PAÍS e do Armand.info, Joaquín Leal, um empresário de 29 anos sancionado desde junho de 2020 pelo Departamento do Tesouro dos EUA por seus negócios com a Venezuela e que, na época, trabalhava na Diversidad, a empresa de José Adolfo Murat, com quem começou a desenvolver os negócios que lhes propuseram.

Em maio de 2019, Murat regressou a Caracas, desta vez com Leal. Os empresários mexicanos se reuniram de novo com Simón Zerpa. O objetivo era concretizar as operações citadas. Embora naquele momento tenha se falado que os pagamentos seriam feitos em euros ou rublos, a opção que frutificou um mês depois foi a troca de petróleo por alimentos e caminhões-cisterna de água potável. A moeda analisada para as transações foi o euro. Zarpa afirmou que eles pediriam a um terceiro ator que efetuasse o pagamento, com 70% de adiantamento. Nos dois contratos da operação, que chega a 200 milhões de euros (1,2 bilhão de reais), não consta nenhum número de conta do destinatário para a realização do pagamento. “Perante os organismos competentes” é a estranha fórmula utilizada em ambos os casos, que também especifica que o pagamento poderá ser feito “de forma fracionada” e com a possibilidade de rescindir o contrato em 90 dias. Os 30% restantes, segundo o contrato, “serão processados pelo comprador pelas entidades de financiamento competentes”, sem que em nenhum momento se esclareça a quem se refere.

Após a assinatura dos acordos comerciais, Leal procurou assessoria e se encarregou de conseguir os caminhões e coordenar o transporte dos alimentos do México. Também negociou o preço do petróleo com seus contatos venezuelanos. Nos e-mails, ele se apresentava como representante legal da Libre Abordo, a empresa com a qual o Governo venezuelano fez o negócio. Depois de fechar o pacto, a petroleira venezuelana enviou uma série de faturas à Libre Abordo “aos cuidados de” Olga María Zepeda Esparza, diretora e sócia da empresa —hoje também sancionada pelos EUA—, detalhando o equivalente em barris de petróleo e os milhões de euros que a petroleira exigia como pagamento à firma mexicana, além das trocas por alimentos e artigos em espécie. Por exemplo, numa fatura datada de 19 de junho de 2020 de 32,9 milhões de euros (202 milhões de reais), lê-se que o destino do petróleo era o porto de Cingapura.

A operação de troca de petróleo por alimentos e caminhões-cisterna de água foi o estopim para que, um ano depois, em junho de 2020, o Departamento do Tesouro dos EUA sancionasse a Libre Abordo, Joaquín Leal e Zepeda Esparza. Na época, a Unidade de Inteligência Financeira do México (UIF), dirigida por Santiago Nieto, iniciou uma investigação para seguir os rastros do dinheiro. Os resultados, no entanto, são ínfimos. Em 18 de maio passado, a UIF apresentou ao Ministério Público uma denúncia, à qual este jornal teve acesso, e pediu medidas judiciais para preservar uma centena de contas da Libre Abordo, Leal, Zepeda Esparza e sua mãe, Verónica Esparza, sócia da empresa.

A viagem daquela primavera foi a única que Murat e Leal realizaram juntos a Caracas. O primeiro afirma que deixou o negócio nas mãos do segundo ao regressar da capital venezuelana. Quando Leal contou que os venezuelanos lhe disseram que as operações incluíam uma troca de petróleo, Murat lhe pediu que não prosseguisse. “Eu lhe disse que havia sanções dos EUA e não podíamos nos meter nessa confusão”, afirmou Murat a este jornal. Ele diz que não foi consciente de que Leal prosseguiu com o negócio com a Libre Abordo. Murat rompeu com Leal meses depois, no final de 2019, ao perceber que este havia dado continuidade ao negócio, apesar das advertências. O jovem empresário mexicano não quis dar sua versão nem responder aos pedidos de entrevista para esta investigação.

Os intercâmbios humanitários eram mera fachada

Com base nas operações dos caminhões-cisterna e o milho, Leal organizou do México uma rede secreta a serviço do Governo de Maduro para ajudar a vender o petróleo venezuelano à margem das sanções dos Estados Unidos. Para tentar esconder o rastro do dinheiro, ele criou dezenas de empresas e armou uma rede de sócios financeiros em cerca de trinta países. A rede se conecta com entidades em todo o mundo —algumas offshore—, na Suíça, Luxemburgo, Malta, Curaçao, Reino Unido, Suécia, Noruega, Grécia, Estados Unidos, Cingapura, Bangladesh, China, Malásia, México, entre outros países da Europa, Ásia e América, e paraísos fiscais como a Ilha de Man e as Ilhas Virgens Britânicas.

As várias redes operam em 30 países por meio de mais de 50 empresas.

Fonte: criação própria

EL PAÍS

As várias redes operam em 30 países por meio de mais de 50 empresas.

Fonte: criação própria

EL PAÍS

As várias redes operam em 30 países por meio de mais de 50 empresas.

Fonte: criação própria

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O modus operandi reconstituído nesta investigação mostra que a prestação de ajuda humanitária era apenas um pretexto. O lado mexicano despachava os produtos em espécie e a PDVSA os pagava com petróleo e logística para retirá-los do país em navios. No entanto, por trás dessa operação se escondia outra mais complexa que deixava milhões em lucro para os envolvidos com a revenda do petróleo a preços abaixo do mercado, com dinheiro que acabava voltando para a PDVSA como pagamento pela mercadoria. A petroleira venezuelana acabava recebendo as faturas que emitia para a Libre Abordo em contas de bancos russos, como o Gazprombank e o Evrofinance Mosnarbank. Com isso, puderam realizar transações fora do sistema bancário dos Estados Unidos e não envolver cidadãos desse país. Os documentos acessados por esta investigação mostram que os negócios de petróleo duraram entre novembro de 2019 e maio de 2020. Na grande maioria dos casos, a troca de alimentos foi posta de lado e o petróleo foi vendido diretamente a intermediários mexicanos.

Assim que a Libre Abordo acertava a saída do petróleo da Venezuela, lançava mão de um grupo de intermediários para continuar com a revenda dos barris. Em geral procurava compradores do mesmo consórcio envolvido na trama ou se dirigia às refinarias localizadas no exterior. Por exemplo, um carregamento entregue na Malásia a uma empresa chinesa foi revendido pela Orin Energy, uma holding que lida com matérias-primas. A rede de Leal e da Libre Abordo tinha seus principais clientes na Ásia. Nas apresentações corporativas, lê-se que dois dos principais compradores do petróleo venezuelano eram as chinesas PetroChina e Sinopec. A maior parte de seus embarques também foi enviada para Cingapura e Malásia, dois grandes centros de refino do mundo.

Numa primeira fase, a Libre Abordo procurou clientes e formas de colocar o petróleo no mercado mundial de energia. Quando sancionou a empresa mexicana em junho de 2020, o Departamento do Tesouro destacou que ela utilizava as mesmas rotas internacionais, os mesmos processos de embarque e os mesmos clientes que antes atendiam duas subsidiárias suíças da petroleira Rosneft. A gigante russa era uma das principais parceiras da PDVSA, mas saiu do negócio em fevereiro de 2020, após ser sancionada pelos EUA por seus acordos com a Venezuela. Leal e seus sócios também receberam assessoria de outros participantes do esquema traçado pelo Governo de Maduro, como Alessandro Bazzoni, um italiano com uma longa história de negócios com a PDVSA, e Philipp Apikian, um suíço que também esteve envolvido na venda e embarque de petróleo venezuelano. Ambos foram sancionados em janeiro de 2021 pela Casa Branca por serem participantes do mesmo complô que movimentou milhões de barris de petróleo venezuelano sob o radar das sanções norte-americanas.

A ligação entre Leal e um velho conhecido da PDVSA

Um dos principais intermediários que Leal usou para revender o petróleo foi a Elemento, empresa constituída por Bazzoni em Malta em março de 2015, com subsidiárias na ilha caribenha de Curaçao e no Reino Unido, e que anteriormente comercializava petróleo venezuelano em associação com uma empresa norte-americana. A Elemento, entre fevereiro e dezembro de 2019, movimentou pelo menos 13 remessas da PDVSA. Após os negócios com a Leal, a firma de Bazzoni assumiu um dos dois primeiros carregamentos que a Libre Abordo retirou da Venezuela. A mercadoria revendida pela Elemento foi entregue em Singapura a uma empresa de Macau —ex-enclave português na China, agora com status de soberania semelhante ao de Hong Kong— em abril de 2020, quase um ano depois de zarpar do país caribenho.

Não era a primeira vez que a Elemento ajudava o Governo de Maduro a retirar centenas de milhões de barris de petróleo das costas do país, segundo se depreende dos milhares de documentos em poder dos dois meios de comunicação e que fazem parte desta investigação. Para revender as cargas, a Elemento se valeu da Swissoil Trading S.A, uma empresa de energia fundada na Suíça em 1998 que atuou como revendedora de matérias-primas no Oriente Médio e na Ásia, e da qual Apikian é o único administrador. Com a intenção de replicar esse esquema idealizado pela Elemento e reduzir as perdas e problemas jurídicos de recorrer a outros intermediários para revender o petróleo, em 11 de fevereiro de 2020, Leal fundou a Cosmo Resources em Cingapura. A ideia, segundo um organograma desenhado pelo próprio Leal, era dividir a diretoria da empresa com seu sócio Bazzoni para dar continuidade à comercialização de petróleo na Ásia e em outras partes do mundo.

Por meio da Cosmo, o empresário mexicano explorou a ideia de absorver a Libre Abordo e sua subsidiária Schlager Business Group, encarregada de dar suporte administrativo às operações de sua empresa-mãe. Em 16 de fevereiro de 2020, Leal escreveu em um e-mail que estava contemplando a possibilidade de a Cosmo comprar a Libre Abordo. Um dia depois, Hugo Villaseñor, diretor financeiro da Cosmo e íntimo de Leal, coordenou a abertura de uma conta bancária para a empresa. Em um e-mail enviado a um diretor do Alpha FX, banco londrino especializado em divisas que oferece seus serviços em nível internacional para “empresas e instituições afetadas pela volatilidade cambial”, Villaseñor solicitou a abertura da conta e calculava que o fluxo mensal de dinheiro oscilaria entre 10 e 40 milhões de euros (62 e 245 milhões de reais). A conta foi aberta por recomendação de Richard Rothenberg, diretor financeiro da Elemento.

O papel da Cosmo é crucial para entender como os intercâmbios de petróleo foram capitalizados sob o pretexto de ajuda humanitária. No pedido de abertura de conta, a empresa explicava que obtinha a sua principal receita com os pagamentos que a PetroChina e as refinarias da Sinopec lhe faziam pelos embarques de petróleo que saíam da Venezuela. Outra de suas entradas provinha de pagamentos que recebia de outros intermediários de commodities, como a Beaconsfield Commodities Trading, um consórcio de Bazzoni estabelecido na Suíça e com subsidiárias nas Ilhas Cayman, África do Sul, Suíça e Suécia. Já as principais saídas de dinheiro da Cosmo eram para pagamentos feitos à Elemento e à Libre Abordo, que estavam encarregadas de tirar o petróleo da Venezuela. Um dos planos do jovem empresário mexicano era realizar os mesmos negócios feitos com a PDVSA com outras petroleiras latino-americanas, como a Pemex, a colombiana Ecopetrol e a Petroecuador.

As sanções que catapultaram a trama mexicana

A saída da Rosneft da Venezuela catapultou os negócios de Leal e seus sócios. Com a partida da gigante russa, uma das principais parceiras da PDVSA, as quantidades de petróleo a que a rede mexicana tinha acesso dispararam. Por volta de abril de 2020, os empresários mexicanos recebiam cerca de 40% das exportações da petroleira venezuelana, segundo o Departamento do Tesouro. À medida que seus negócios decolavam, Leal começou a se preocupar com a situação legal das relações de suas empresas com a Venezuela. Em dezembro de 2019, ele contatou o escritório de advocacia Pillsbury Winthrop Shaw Pittman LLP, dos EUA, para consultoria. Em março de 2020, um escritório de advocacia mexicano também emitiu parecer jurídico sobre as possíveis sanções às quais Leal e a Libre Abordo poderiam estar sujeitas.

Do México, Leal estruturou vários esquemas para concluir seus negócios com a Venezuela e lançou mão de engenharia financeira para administrar seus ativos, tentando apagar as pegadas do dinheiro. A documentação em poder de EL PAÍS e do Armando.info contém milhares de e-mails trocados por membros do esquema protagonizado por Leal. Há planilhas com o valor do petróleo bruto e os fluxos mensais obtidos com a comercialização dos carregamentos, bem como contratos de exportação, faturas das operações de compra e venda e de serviços de assessoria financeira. Há também referências bancárias, planos de negócios nos quais se explorava a possibilidade de entrada no mercado do cobre e do alumínio, e uma lista de pagamentos pelos custos gerais e administrativos das várias empresas da rede, tais como despesas de aluguel, serviços públicos e gastos de viagens internacionais.

Um documento com as receitas registadas em 2019 pelas empresas da Leal traça a ascensão espetacular deste grupo de empresários, até então quase desconhecidos. Cinco empresas ligadas ao jovem empresário arrecadaram mais de 107 milhões de dólares (540 milhões de reais) somente nesse ano, quando ainda não haviam atingido o pico dos negócios com o petróleo venezuelano. Os valores mais altos da folha de pagamento dessas empresas se destinavam aos salários de Leal, que pagava a si mesmo 750.000 pesos por mês (pouco mais de 37.000 dólares, cerca de 185.000 reais), bem como sua mãe e irmã, que ganhavam meio milhão de pesos (25.000 dólares, 126.000 reais). No arquivo que responde pela contabilidade durante o ano de 2019, vem também o salário da avó, que nesse ano obteve uma renda de 30.000 pesos por mês (1.500 dólares, cerca de 7.600 reais).

EL PAÍS e Armando.info puderam comprovar que Leal e seu entorno usaram pelo menos 50 empresas para esconder o rastro de dinheiro. Por trás de cada plano de negócios havia uma empresa para executar seus projetos. Na maioria, Leal não aparecia como sócio, mas como representante legal. Por trás das empresas estavam Verónica Esparza e sua filha Olga María Zepeda Esparza ou membros de sua família. Em seu extenso portfólio, ele também criou estruturas em paraísos fiscais, onde a identidade dos sócios não aparece aberta nos registros e onde é fácil esconder grandes fluxos de dinheiro evadindo o pagamento de impostos. Uma delas é a JLJ Technologies LLC, constituída em Wyoming em 20 de março de 2019, onde Leal foi registrado como administrador único. Essa companhia não teve um funcionamento real, mas permitiu a Leal esconder o rastro dos sócios que estavam por trás de suas empresas.

Ele também criou a Mystic Universe, uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas —o maior paraíso fiscal do planeta em termos de volume de negócios e número de empresas incorporadas—, que tinha uma companhia-espelho em Ontário, no Canadá. Ambas as empresas foram constituídas por Leal em maio de 2019, em meio a suas primeiras viagens a Caracas. De acordo com o contrato social, Leal possuía 90% das ações, enquanto sua mãe, María Teresa Alfaro, e sua irmã, Carlota Jiménez, detinham 5% cada. Em 5 de agosto de 2019, a Mystic passou a funcionar como uma holding que absorveu o controle de outras firmas vinculadas à Leal.

Em uma das apresentações preparadas pela equipe do Leal informa-se que a Mystic investia em empresas de tecnologia, energia e commodities na América e em países fora do continente. “O objetivo do Mystic Universe é mudar o mundo, por isso nos concentramos em indústrias fundamentais, energia, tecnologia, commodities, finanças e saúde”, destaca o documento. Em seu antigo site, a Mystic assinala que tinha investido mais de 300 milhões de dólares (1,5 bilhão de reais). Mas todos os beneficiários dos investimentos da Mystic eram outras empresas de Leal.

A Mystic foi destaque na mídia mexicana como um fundo de investimento canadense focado em projetos de impacto social. Em notas jornalísticas publicadas entre agosto e setembro de 2019 era informado que a empresa iria investir na Hábitos Luzy, subsidiária mexicana da Luzy Technologies, empresa incluída na lista negra do Departamento do Tesouro. Nos documentos, a empresa é especializada em prestar assessoria em saúde e alimentação por meio de um aplicativo móvel, na gestão de restaurantes industriais e na revenda de materiais sanitários.

Leal, que constantemente planejava como reorganizar seu amplo portfólio de empresas por meio de fundos fiduciários, empresas de fachada e testas de ferro, em 16 de abril de 202, recorreu ao banco de investimentos Morgan Stanley para explorar uma IPO para a Mystic Universe. Uma das muitas manobras que surgiram do esquema que contornou as sanções dos Estados Unidos à Venezuela.

Ewald Scharfenberg e Roberto Deniz são repórteres do portal venezuelano de investigação Armando.info

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