A desmobilização, as sanções, Biden. Os pontos que obrigam ao avanço do diálogo na crise da Venezuela

Maduro e os líderes da oposição abrem negociações em busca de uma saída para a precária situação do país

O oposicionista venezuelano Juan Guaidó, em entrevista à imprensa em Caracas, na quarta-feira passada.
O oposicionista venezuelano Juan Guaidó, em entrevista à imprensa em Caracas, na quarta-feira passada.RAYNER PENA R (EFE)
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AME7261. CARACAS (VENEZUELA), 12/05/2021.- Fotografía cedida por prensa Miraflores que muestra al presidente de Venezuela, Nicolás Maduro (c), junto al ministro de Producción Agrícola, Wilma Castro Soteldo (d), y la ministra de Agricultura Urbana, Greicys Barrios (i), mientras participa en una jornada de trabajo agroproductivo hoy, en Caracas (Venezuela). El presidente venezolano, Nicolás Maduro, aseguró este miércoles que está "listo" para reunirse "con toda la oposición", al referirse a la propuesta que hizo un día antes el líder opositor Juan Guaidó de abrir una negociación, siempre bajo unas condiciones previas que el antichavista transmitió.
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El dirigente opositor venezolano Leopoldo López, durante una entrevista para Europa Press, a 22 de abril de 2021, en Madrid (España). El político venezolano llegó a Madrid el pasado mes de octubre. La Fiscalía del país latinoamericano prepara la solicitud a España para su extradición.
22 ABRIL 2021;VENEZUELA;LEOPOLDO LÓPEZ;OPOSITOR;POLÍTICO;EUROPA PRESS;EXTRADICCIÓN
Ricardo Rubio / Europa Press
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AME1516. CARACAS (VENEZUELA), 21/04/2021.- Fotografía cedida por Prensa de Miraflores que muestra al presidente de Venezuela, Nicolás Maduro, durante un acto de gobierno hoy, en Caracas (Venezuela). Maduro calificó este miércoles como un "gran logro" el acuerdo que firmó recientemente con el Programa Mundial de Alimentos, por el que el organismo se compromete a proporcionar comidas escolares a 185.000 menores en situación de vulnerabilidad en el país caribeño. "Es un gran logro internacional de la República Bolivariana de Venezuela la firma del acuerdo con el Programa Mundial de Alimentos, un gran logro de la política internacional de la revolución", dijo Maduro durante un acto transmitido por la televisión pública VTV. EFE/ Prensa Miraflores SÓLO USO EDITORIAL/SÓLO DISPONIBLE PARA ILUSTRAR LA NOTICIA QUE ACOMPAÑA (CRÉDITO OBLIGATORIO)
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Os ecos de uma negociação entre o chavismo e a oposição venezuelana soam cada vez mais próximos e nenhum protagonista quer ficar à margem. A certeza de que a situação atual não beneficia ninguém ganha força e obriga todas as partes a repensarem sua estratégia. O Governo de Nicolás Maduro, afogado pelas sanções e desterrado da comunidade internacional. A oposição, desaparecida quase por completo da vida política doméstica e com índices de popularidade muito baixos. Os próprios venezuelanos, que a pandemia e o processo informal de dolarização aprofundado no ano passado continuaram a mergulhar em uma crise econômica devastadora. E a comunidade internacional, já ciente de que a política de sanções e de união em torno da liderança de Juan Guaidó, a quem reconheceram como presidente interino, não conseguiram minar o poder de Maduro.

A saída de Donald Trump, epicentro da estratégia de afundar o Executivo venezuelano com sanções econômicas, abre uma nova janela de oportunidade para o chavismo. O Governo de Nicolás Maduro não vive seus piores momentos no país. A decisão da oposição de não comparecer às últimas eleições permitiu ao chavismo manter o seu poder bem firme, mas atado de pés e mãos por uma situação econômica insustentável. Michael Penfold, pesquisador global do Wilson Center, explica que “a popularidade de Guaidó caiu, assim como a capacidade de mobilização da oposição, o que permitiu ao chavismo ganhar espaço no controle interno e territorial”. Maduro não quer correr riscos políticos, mas tem a certeza de que não haverá levantamento das sanções se não houver progresso no processo de democratização do país. “Estou de acordo”, disse o presidente na quinta-feira, “com a ajuda do Governo da Noruega, da União Europeia, do Grupo de Contato, quando quiserem, como quiserem, onde quiserem, em encontrar-me com toda a oposição”.

Essa não foi a primeira nem a única surpresa em uma semana em que, para alguns analistas consultados, o chavismo fez os maiores gestos e concessões dos últimos anos. Vários sinais para a comunidade internacional e para o interior do país pavimentam o terreno para um diálogo que até agora sempre foi estéril.

Os movimentos começaram batendo à porta do novo inquilino da Casa Branca, Joe Biden. Maduro permitiu a entrada de ajuda humanitária das Nações Unidas após um ano de negociações e, entre outros gestos, trocou a prisão por prisão domiciliar de seis empresários do setor do petróleo com dupla nacionalidade detidos na Venezuela há três anos. “A grande questão é como a Administração Biden vai reagir”, disse Geoff Ramsey, diretor para a Venezuela da organização de investigação e defesa dos direitos humanos Wola. “E se há uma forma de encorajar o regime de Maduro a fazer mais concessões para conseguir a restauração da democracia. Disseram que o acompanham de perto e apoiam uma solução negociada, mas há o risco de que, se não derem algum tipo de sinal ou incentivo [levantamento de qualquer das sanções impostas por Trump], Maduro possa abandonar esta nova tentativa de uma abertura possível”, observa.

Ao mesmo tempo, a Assembleia Nacional, controlada pelo regime, nomeou um novo Conselho Nacional Eleitoral —o CNE, órgão responsável pela transparência dos processos eleitorais—, com três membros ligados ao chavismo e dois da oposição. “É o melhor CNE para a oposição em 22 anos”, diz o ex-candidato à presidência Henrique Capriles. “É um primeiro passo”, afirmou em um comunicado o Ministério de Relações Exteriores da Espanha, que segue de perto e de forma ativa todos os movimentos no país. Poucos dias depois, o novo órgão convocou eleições regionais e locais para 21 de novembro.

Os olhares agora se voltam para a oposição. Fazem parte do passado as imagens de todos os líderes reunidos em torno da figura de Guaidó quando foi nomeado presidente em exercício, em janeiro de 2019, estimulado pela multidão nas ruas de Caracas e com amplo apoio internacional. Naquela época, 77% dos venezuelanos teriam votado nele nas eleições, cifra que, de acordo com a pesquisa da Datanalisis divulgada em março, despencou para 11,4%. “O venezuelano está desligado da política, está tentando sobreviver, o jogo já mudou”, enfatiza Penfold.

José Gregorio Ochoa, militante no setor popular de Carapita, no oeste de Caracas, bairro que já foi reduto do chavismo, aponta as prioridades da população. “Comer e sair vivo da covid-19 são as principais preocupações das pessoas”, diz ele. A aceleração da hiperinflação e sua retomada no processo de dolarização informal aumentaram o fosso da desigualdade. À luta diária para arranjar dinheiro para alimentar a família se somou a pandemia e, pela primeira vez, a escassez de combustível e gás de cozinha no país com as maiores reservas de petróleo.

A estratégia do tudo ou nada que até agora a oposição e a comunidade internacional mantinham contra Maduro pode mudar a partir de agora. Guaidó, desde o início, se abre a uma negociação com o regime. “Temos que tentar isso com todo o ceticismo e toda a desconfiança em relação à ditadura”, diz Freddy Guevara, um de seus colaboradores mais próximos e que na semana passada construiu as primeiras pontes de reaproximação com representantes dos governistas ao se reunir com o deputado chavista Francisco Torrealba.

“Assim como partimos do fato de que com as circunstâncias atuais não poderíamos derrubar Maduro, eles partem também da realidade de que com seu plano não resolvem seus problemas. Estamos obrigados a buscar uma solução urgente para a crise do povo, que é o Acordo de Salvação Nacional, porque, afinal a situação está pior para todos”, acrescenta Guevara. O Acordo é a proposta que Guaidó apresentou esta semana, na qual estabelece um pacto pela realização de eleições livres, não só regionais e municipais como propõem os governistas, mas também parlamentares e presidenciais que permitam iniciar uma transição mediada pela comunidade internacional. “Nós estamos prontos”, disse o líder da oposição em entrevista coletiva na quarta-feira.

A estratégia de retomada da via eleitoral, promovida sobretudo por Capriles, é também o desejo de diversos setores do interior do país, explicam fontes consultadas, que desejam reconquistar o papel político cedido desde 2019. A ideia de derrotar o regime de um só golpe perdeu força nos últimos dois anos, por isso, tanto em nível interno como internacional, se impõe a estratégia de recuperar a via política e ganhar espaço gradativamente do chavismo.

A unidade da oposição, dividida em torno de várias lideranças, é a grande incógnita diante de uma eleição. Ochoa, que também é membro da Frente Ampla, coalizão de organizações e sindicatos que apoia Guaidó, explica que “nos bairros a oposição tem maioria silenciosa, porque há medo total dos níveis de repressão e da capacidade de chantagem ou de extorquir dinheiro com comida, com moradia, com o cotidiano”. “As pessoas estão se dando conta de que este é um Estado opressor, mas também que não há alternativa para a mudança, a menos que haja uma votação verdadeiramente secreta e a oposição esteja unida. Do contrário, não vale a pena votar”, afirma.

A participação da comunidade internacional como mediadora de uma negociação entre o partido no poder e a oposição e também observadora do processo eleitoral é fundamental. “O papel da comunidade internacional era de pressão, o dilema agora não é se vão pressionar mais ou menos, mas se vão acompanhar esse processo”, acrescenta Penfold. Nas eleições legislativas realizadas em dezembro, a União Europeia tentou um adiamento dessas eleições por falta de garantias, mas o Governo de Maduro recusou. As eleições, das quais a oposição não participou, não foram reconhecidas. A abstenção foi de 70%. Algumas vozes na Europa agora reconhecem que uma nova oportunidade está se abrindo.

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