Pandemia de coronavírus

As novas variantes da covid-19, mais contagiosas, dificultam que se chegue à imunidade de rebanho

Os principais indicadores da pandemia irão evoluir de forma positiva, mas isso não será o suficiente para eliminar as restrições ou o uso de máscaras

Vacinação em massa para maiores de 50 anos no Centre Civic Montserrat Roig, em Terrasa (Barcelona).
Vacinação em massa para maiores de 50 anos no Centre Civic Montserrat Roig, em Terrasa (Barcelona).CRISTÓBAL CASTRO

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O avanço da vacinação trouxe otimismo sobre o futuro da pandemia na Espanha. Com grande parte da população vulnerável já imunizada e 14,9 milhões de pessoas (31,4% dos cidadãos) tendo recebido pelo menos uma dose, os especialistas pressupõem que os principais indicadores da evolução do coronavírus —incidência, hospitalizações e mortes— diminuirão acentuadamente nos próximos meses. Mas a imunidade de rebanho, avisam, não será alcançada este ano e, no momento, é difícil prever se o planeta chegará algum dia a ela, considerando a ameaça das novas variantes e a falta de vacinas para imunizar no médio prazo toda a população mundial.

“O vírus não vai desaparecer tão rapidamente, se é que vai desaparecer”, alerta Antoni Trilla, chefe do serviço de Medicina Preventiva do Hospital Clínic (Barcelona). “Caminhamos para a normalidade, mas as infecções continuarão. Em vez de imunidade de rebanho, falamos, neste caso, de controle funcional da pandemia. Não vamos conseguir nos despedir da máscara tão rapidamente”, prevê.

Desde o início da pandemia se repete que a imunidade de rebanho —também chamada de imunidade de grupo, situação em que o percentual de imunizados impede a circulação do vírus e, portanto, protege também os não vacinados— seria alcançada quando 70% da população tivesse recebido suas doses. Um momento para o qual faltam apenas “100 dias” na Espanha, segundo anunciou nesta semana o presidente do Governo (primeiro-ministro), Pedro Sánchez.

O problema é que esses 70% não serão mais suficientes por causa das novas variantes. Quique Bassat, epidemiologista e pesquisador do instituto ISGlobal (Barcelona), explica que “a porcentagem de pessoas que precisam ser vacinadas depende do número reprodutivo básico de cada vírus, o R”, que indica quantos novos casos cada positivo desencadeia, em média.

“Há um ano, o R para SARS-CoV-2 era estimado em 2 a 3 e é daí que veio a meta de 70%. Mas agora existem variantes mais contagiosas e o R pode estar entre 3 e 5. Uma doença mais transmissível obriga a vacinar mais pessoas. Talvez sejam necessários 80% ou 90% agora”, explica Bassat. O sarampo, ainda mais contagioso —com um R maior que 12— exige a vacinação de mais de 95% da população para se obter imunidade de grupo.

Mais população a ser vacinada requer mais tempo e isso repercutirá no ritmo em que o país seguirá em direção a uma vida sem restrições ou máscaras. “Será um processo mais lento e progressivo, não algo que possa ser feito da noite para o dia”, admite Clara Prats, pesquisadora em Biologia Computacional da Universidade Politécnica da Catalunha (UPC), que está desenvolvendo um modelo para prever com que velocidade isso poderá ser feito de acordo com diferentes cenários.

Na Espanha, país conhecido internacionalmente por sua adesão às vacinas, não se considera um exagero que taxas muito altas de imunização possam ser alcançadas. Mas, nos Estados Unidos, paradoxalmente o grande país onde a vacinação começou mais rápido, cresce a preocupação com a relutância de alguns setores da população em se imunizar. Isso levou vários especialistas a expor ao The New York Times suas dúvidas de que seja possível alcançar a imunidade de rebanho nos EUA.

De qualquer forma, os especialistas concordam que “o importante agora é avançar e vacinar o maior número possível de pessoas”. Mesmo sem atingir a imunidade de rebanho, explicam eles, o impacto da doença pode ser reduzido ao mínimo e o retorno à normalidade pode ser quase completo. “Isto não é um tudo ou nada. Nem com o sarampo conseguimos evitar a continuação dos casos e convivemos com isso quase sem nenhum problema”, lembra Trilla.

Santiago Moreno, chefe de Doenças Infecciosas do Hospital Ramón y Cajal, considera que “é possível encurralar o vírus para que, se não for possível fazê-lo desaparecer, seja reduzido a uma expressão mínima, com poucos casos e quase todos leves”.

Bassat prevê dois cenários: “Em médio prazo, com entre 50% e 80% da população vacinada, teremos algumas centenas de casos por dia e uma enorme queda de hospitalizações e óbitos. Nesta fase, embora de forma mais relaxada, ainda será necessário manter algumas medidas preventivas”. “Em longo prazo, haverá surtos localizados com relativamente pouca importância clínica. Os grupos mais vulneráveis estarão protegidos e será possível localizar e isolar todos os afetados, rastrear contatos, vacinar ou revacinar ... “, acrescenta. Nesse ponto, a normalidade estará muito próxima.

Os especialistas se recusam a apontar uma data específica para quando esse momento chegará, embora tendam a situá-lo no final deste ano ou no primeiro semestre de 2022. Há uma concordância em que a máscara em espaços abertos sem aglomeração, uma medida cada vez mais questionada, não demorará muito para ser deixada de lado.

“O ponto crucial serão os espaços fechados com muitas pessoas de diferentes origens. Lá teremos que continuar usando máscara e o certificado de vacinação será importante”, continua Bassat.

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A desaceleração viverá nas escolas um de seus momentos de pico, com o fim dos grupos de bolhas e o adeus às máscaras. Previsivelmente, de acordo com a evolução epidemiológica, isso deve ocorrer no final deste ano ou no início de 2022, o mais tardar. A primeira proposta enviada pelo Governo às comunidades prevê a manutenção das duas medidas no início do próximo ano letivo.

Bassat explica as razões. “Em setembro, adolescentes de 12 a 16 anos não estarão vacinados e o vírus vai circular entre eles. Será praticamente o último grupo em que isso representa um risco, já que o faz com um R próximo a 1. Portanto, o próximo passo lógico é imunizá-los. Os Estados Unidos já aprovaram isso e a previsão é que a Europa o faça em junho”, acrescenta.

Menos clara é a vacinação de crianças da escola primária (6 a 12 anos), um grupo de baixa transmissão —o R neles é em torno de 0,3— e com situação mínima de complicações clínicas, de modo que a relação risco-benefício é duvidosa. “Mas eles deveriam continuar usando máscara para minimizar a circulação do vírus até a vacinação dos adolescentes. Quando isso acontecer, então sim, as máscaras vão desaparecer das salas de aula”, conclui Bassat.

Os especialistas, no entanto, alertam que esses critérios epidemiológicos razoáveis, se você olhar para um país como a Espanha, podem mudar se o foco for ampliado. A questão-chave neste caso é se é apropriado vacinar pessoas mais jovens e de menor risco nos países ricos enquanto nos países menos desenvolvidos nem mesmo os mais vulneráveis receberam uma única dose.

O diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, pediu aos países ricos na última sexta-feira que “reconsiderem” suas estratégias de vacinação. “Nos países pobres, não há vacinas disponíveis nem mesmo para os profissionais de saúde”, disse ele.

Em nível global, a solidariedade falhou
Pedro Alonso, epidemiologista

O pedido da OMS é que as vacinas que o mundo desenvolvido planeja administrar aos adolescentes em breve sejam doadas aos países mais necessitados. “Em nível global, a solidariedade falhou”, considera o epidemiologista Pedro Alonso, que dirige o programa contra a malária da OMS. “Todos falamos sobre isso, mas primeiro corremos para vacinar nossas populações. E este é um assunto complexo, porque a verdade é que não é fácil culpar os Governos por isso “, acrescenta.

“Ninguém está seguro se todo mundo não está.” É a frase que corre para alertar que se o mundo não se aproximar da imunidade de rebanho global —embora não a alcance completamente—, não só enfrentará duras questões morais, mas crescerá “o risco de que surjam variantes mais contagiosas que podem afetar também a Espanha e outros países já vacinados”, alerta Federico García, chefe do serviço de Microbiologia do Hospital San Cecilio (Granada).

O medo não é tanto de uma supervariante imune a todas as vacinas existentes, diz Garcia. “Não acho que haverá tempo para algo assim surgir. E mesmo que aconteça, aprendemos muito e temos a tecnologia para adaptar rapidamente as vacinas existentes e concluir o desenvolvimento de novas. Na corrida entre vacinas e variantes, as vacinas vão vencer”, considera.

O objetivo, concordam os especialistas, é encurtar essa corrida ao máximo para reduzir o enorme custo global da pandemia. A humanidade ainda não sabe se conseguirá acabar com o vírus ou se terá que aprender a conviver com ele. Se a covid-19 se tornar uma doença sazonal ou a causa de surtos cada vez menores, acabará deixando de ser notícia. Trilla conclui: “O que sabemos, sim, é que temos que chegar o mais próximo possível da imunidade de rebanho mundial. Fazer isso rapidamente é a única maneira de minimizar o impacto do vírus e o risco de novas variantes. Essa é a meta que o mundo tem pela frente nos próximos meses”.

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