Militares conservadores desafiam Macron e abrem crise na França

Artigo atribuído a quadros da ativa, publicado no domingo por uma revista de extrema direita, alerta para uma “guerra civil latente” no país

O chefe do Estado Maior francês, general François Lecointre, com o presidente Emmanuel Macron, em 2020.
O chefe do Estado Maior francês, general François Lecointre, com o presidente Emmanuel Macron, em 2020.POOL (Reuters)

O chefe do Estado Maior dos Exércitos da França, general François Lecointre, disse nesta terça-feira que deveriam passar à reserva todos os militares da ativa que tiverem assinado de forma anônima um artigo, publicado no domingo por uma revista ultraconservadora, em que alertavam para o “desmoronamento” do país e para uma “guerra civil latente”.

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“O mais razoável é deixar a instituição para poder tornar públicas, com toda a liberdade, suas ideias e convicções”, escreve Lecointre em uma carta interna aos militares, à qual a Agência France Presse diz ter tido acesso. O Estado Maior francês confirmou a este jornal a existência de “uma mensagem destinada aos militares” por parte do comandante, mas sem revelar seu conteúdo.

Em um mês, este foi o segundo artigo assinado por militares ―o primeiro majoritariamente por oficiais da reserva, e este por quadros da ativa, embora, devido ao anonimato, seja difícil verificar sua identidade e número. A ação dos signatários, que rompe a tradicional neutralidade das Forças Armadas ao assumir um discurso muito próximo à extrema direita, provocou forte reação tanto no Governo como em boa parte da oposição, sobretudo de esquerda. Na segunda-feira, a ministra da Defesa, Florence Parly, qualificou o artigo, publicada na revista de extrema direita Valeurs Actuelles, como uma “áspera maquinação política” que “utiliza toda a retórica, vocabulário, tom e referências da extrema direita” e “procura dividir, fraturar, a nação num momento em que, mais do que nunca, precisa se unir, se reencontrar”. Segundo a Valeurs Actuelles, a nova colaboração foi assinada por mais de 240.000 pessoas depois que a publicação “convidou” civis a aderir ao texto, embora continue sem revelar a identidade dos signatários.

O primeiro artigo, assinado inicialmente por cerca de 1.000 militares (dos quais apenas 18 da ativa e outros 20 generais da reserva), levou as autoridades militares a anunciarem sanções “exemplares” contra os autores, que chegavam a advertir para a possibilidade de uma “intervenção” militar se o Governo de Emmanuel Macron não fizer nada para evitar o “desmoronamento” da França. Neste novo caso, entretanto, é mais difícil tomar medidas, porque não se conhece a identidade dos signatários, que apenas afirmam ter entrado “recentemente” nas Forças Armadas e se definem como “homens e mulheres, militares da ativa, de todos os exércitos e de todas as gradações, de todas as sensibilidades”, que em alguns casos combateram o extremismo islâmico no Afeganistão, Mali e África Central, entre outras missões.

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“Há várias semanas (…) a obrigação de reserva que se impõe a todo militar foi amplamente transgredida”, lamenta Lecointre na carta, sempre segundo a AFP. Os signatários dos dois artigos, “em nome da defesa de convicções pessoais (…), contribuíram para arrastar o Exército para debates políticos nos quais não tem nem legitimidade nem vocação para intervir”, adverte, fazendo ao mesmo tempo um apelo a “demonstrar bom senso e, sobretudo, lucidez”.

“Cada militar é livre para pensar o que quiser, mas tem que distinguir, sem ambiguidade alguma, o que vem da sua responsabilidade como cidadão e o que provém da sua responsabilidade como militar”, salienta o máximo comandante militar francês. Na véspera, o Governo tinha insistido também em que a neutralidade é justamente o que garante a legitimidade e confiança dos cidadãos nas suas Forças Armadas.

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