Protestos na Colômbia

Cresce a pressão internacional para que Duque acabe com a violência na Colômbia

Presidente se reúne pela primeira vez com setores da oposição em uma tentativa de apaziguar os ânimos diante das críticas à repressão policial de protestos

Um manifestante em Bogotá em 6 de maio.
Um manifestante em Bogotá em 6 de maio.Luisa González / Reuters

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O mundo olha a Colômbia com preocupação. Em diversos pronunciamentos, a comunidade internacional aumentou na sexta-feira a pressão para que o Governo de Iván Duque, cercado pelos protestos que explodiram com a repressão policial, acabe com a violência no país andino. Enquanto a ONU pediu a garantia ao direito à liberdade de reunião pacífica e ao protesto, o secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, condenou os casos de “tortura e assassinato cometidos pelas forças da ordem”, ainda que também tenha pedido o fim dos bloqueios de estradas que colocaram em risco o abastecimento de alimentos e remédios em algumas cidades.

Após 10 dias mobilizações e distúrbios em que pelo menos 27 pessoas morreram com inúmeras imagens perturbadoras de uso excessivo da força e brutalidade policial, a delicada situação interna ameaça causar também uma crise diplomática. O sistema das Nações Unidas na Colômbia afirmou em um comunicado que “toda ação da força pública deve observar plenamente a proteção e o respeito pelos direitos humanos”, além de lembrar que o acordo de paz feito no final de 2016 com a extinta guerrilha das FARC, do qual Duque foi muito crítico, “oferece elementos para regulamentar essas garantias e fortalecer a participação da população”.

Entre a longa cadeia de declarações que expressam alarme diante da urgência dos acontecimentos, da Europa aos Estados Unidos, a do presidente da Argentina, Alberto Fernández, parece ter causado uma particular irritação. “Peço para que o povo colombiano retome a paz social e solicito ao seu Governo que, na defesa dos direitos humanos, acabe com a singular violência institucional exercida”, escreveu o mandatário peronista em suas redes sociais.

Bogotá criticou suas palavras. “A institucionalidade democrática colombiana protege os direitos constitucionais dos colombianos e não será desprestigiada por este tipo de pronunciamento que, além de ser uma intromissão arbitrária, pretende alimentar a polarização que não contribui à convivência e ao consenso”, afirmou o Governo em uma resposta inusual. “A Colômbia continuará sendo um país aberto ao escrutínio internacional, mas rechaçaremos sempre os pronunciamentos externos que não refletem objetividade”, disse a chanceler Claudia Blum em uma declaração.

Nos Estados Unidos, o principal aliado da Colômbia em muitos campos, também se fizeram ouvir as vozes críticas de vários democratas no Congresso, onde se definem assuntos orçamentários fundamentais para Bogotá. “Deve ocorrer uma prestação de contas pela longa série de abusos aos direitos humanos exercidos pelo Governo colombiano”, manifestou a nova-iorquina Alexandria Ocasio-Cortez, alinhada com os pedidos feitos por outros legisladores como Jim McGovern e Ilhan Omar, do partido do presidente Joe Biden. A crise pode afetar a cooperação norte-americana, que inclui as forças de segurança.

A tempestade se agrava enquanto Duque tenta retomar a iniciativa com uma difícil negociação com diversos setores políticos. Em um alento de oxigênio diplomático, os governos do Brasil, Chile, Equador, Guiana, Paraguai e Peru, seus parceiros no Prosur, manifestaram seu apoio ao Executivo, às instituições e “a todas as partes interessadas em promover espaços de diálogo, recuperar a convivência e garantir o respeito aos Direitos Humanos”.

Duque se reúne com a oposição

No tabuleiro político interno, a Coalizão da Esperança, que reúne as forças no centro do espectro, aceitou se reunir na sexta-feira com Duque na Casa de Nariño, o palácio do Governo. Foi o primeiro setor de oposição a responder ao pedido de diálogo convocado pelo presidente para retomar a iniciativa e procurar uma saída da crise, após a brutalidade policial e a decisão de colocar o Exército nas ruas frustrarem as primeiras aproximações. Os candidatos presidenciais Sergio Fajardo, Ángela María Robledo, Humberto de la Calle e Juan Manuel Galán, entre outros, chegaram à reunião com camisetas em que exibiam os nomes dos mortos nos protestos.

Mesmo que não tenham feito acordos, o encontro girou em torno de vários pedidos que se resumem em que o presidente deve se reunir com o Comitê Nacional de Paralisação, que reúne as centrais sindicais e o movimento estudantil que convocaram as mobilizações, deter a violência das forças de segurança e retirar os militares das ruas e abrir a conversa também nas outras regiões, não somente em Bogotá. “É preciso escutar muitas vozes que não puderam vir aqui... Colocaremos ao presidente que a primeira tarefa é ir a Cali, a Siloé, se reunir com as comunidades, convocar jovens sem nenhum tipo de esperança”, disse Fajardo, o concorrente da aliança melhor posicionado nas pesquisas, em alusão ao bairro da terceira maior cidade do país onde ocorreram os piores episódios de violência. Ao ir à Casa de Nariño, a coalizão se distanciou do Pacto Histórico promovido por Gustavo Petro, de viés mais esquerdista.

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Petro, o candidato derrotado por Duque no segundo turno de 2018, procurou se dar protagonismo na mobilização social, e é o rival a ser batido no incipiente partido visando as eleições presidenciais de 2022. Embarcado em uma guinada ao pragmatismo, o ex-prefeito de Bogotá apoiou os protestos, mas também pediu moderação. Apostou em projetar uma imagem presidenciável com “discursos” em suas redes sociais. Durante o dia foi divulgada uma série de áudios nos quais Petros declara que a mobilização deveria ter acabado quando foi retirada a reforma tributária que foi a faísca dos protestos.

“No momento em que o Governo decidiu retirá-la deveria ter sido declarada a vitória popular, e parar aí. Se querem, em outros termos, acumular forças para o que vinha na sequência”, se ouve Petro afirmar nas gravações divulgadas na sexta-feira. O político foi gravado sem seu consentimento e essas palavras, fora de contexto, ocorreram nesta semana em uma reunião convocada pelo movimento Defendamos a Paz, que também contou com a participação de representantes do Comitê de Paralisação, disseram ao EL PAÍS porta-vozes do candidato. O líder de esquerda que lidera a pesquisa diz que há uma distância entre o Comitê de Paralisação e os manifestantes. “As pessoas que estão hoje nas ruas são a juventude popular, a juventude dos bairros”, diz. “E esses jovens de bairro que lutam contra a reforma tributária querem continuar lutando, mas neste momento já não existem objetivos claros”, apesar da indignação pelos atos de violência, se lamenta.

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