Queda de viaduto do metrô deixa 24 mortos na Cidade do México

Dois vagões desabaram sobre uma das principais avenidas da zona sudeste da capital, e há quase 80 feridos. Trata-se da maior tragédia na cidade desde o terremoto de 2017

Acidente na Linha 12 do Metrô da Cidade do México. Em vídeo, imagens do momento do acidente.

Pelo menos 24 pessoas morreram e cerca de 80 ficaram feridas por causa do desabamento de um viaduto do metrô na Cidade do México, na noite de segunda-feira. Trata-se da maior tragédia na cidade desde o terremoto de 2017. Por volta de 22h25 (hora local; 0h25 de terça-feira em Brasília) a estrutura que sustentava um dos trechos externos da linha 12 do metrô desabou sobre uma das principais artérias do sudeste da capital. “Uma trave [viga] cedeu no momento em que o trem ia passando”, informou a chefa de Governo da capital mexicana, Claudia Sheinbaum, por volta de meia-noite (hora mexicana), no local do acidente. Parte da linha do metrô e a ponte que o sustentava caíram sobre a via expressa, deixando alguns veículos retidos, com dezenas de ocupantes. É um acidente catastrófico em uma cidade que conta com um dos metrôs mais movimentados do mundo: mais de 5,5 milhões de pessoas o utilizam diariamente como única via de transporte para suas casas e trabalhos.

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O trem da linha 12 caiu entre as estações de Olivos e Tezonco. Os vagões se precipitaram sobre os veículos, que circulavam na avenida Tláhuac, sob o viaduto, como mostram as imagens das câmeras de segurança públicas. Os serviços de emergência e agentes da Defesa Civil, assim como membros do Exército, foram mobilizados em toda a área, que foi isolada com fitas, diante do espanto de centenas de moradores da região. Desde o sismo de 2017, em diversas ocasiões eles haviam denunciado a situação de deterioração de algumas das estruturas do metrô neste ponto da cidade.

“Entre as vítimas há também menores de idade”, informou Sheinbaum à imprensa no local do acidente. “Infelizmente há 65 pessoas hospitalizadas, sete estão sendo operadas”, acrescentou por volta de 3h desta terça. Os hospitais do sul e sudeste da cidade se encheram de familiares à procura de seus filhos, maridos e irmãos nas listas que iam sendo penduradas na porta de alguns centros e compartilhadas pelas redes sociais. Nem todos os feridos foram identificados. “No momento, nossa tarefa principal é atender às pessoas que estão nos hospitais e aos familiares das vítimas que infelizmente faleceram, e o Ministério Público iniciou todas as investigações para poder saber o que aconteceu neste incidente”, afirmou a chefa de Governo. Até 3h desta terça-feira (5h em Brasília), o presidente Andrés Manuel López Obrador não havia se manifestado sobre a pior tragédia da cidade em anos.

A Cidade do México, uma das capitais com mais tráfego urbano da América Latina, se prepara para um dia com muitas interrupções do transporte público e restrições de tráfego. “A linha 12 do metrô permanece fechada, e 490 ônibus operarão para cobrir o serviço”, afirmou Sheinmbaum. O esquema especial seria implantado a partir das 5h desta terça.

Um dos momentos mais angustiantes da noite foi o vídeo em que um homem aparecia preso em um carro vermelho sob os escombros da ponte, poucos minutos depois do acidente. As autoridades disseram que conseguiram resgatá-lo com vida e encaminhá-lo para um hospital. Por volta das 2h, a informação oficial era de que não havia mais pessoas com vida sob os escombros, embora os serviços de emergência, apoiados pela Marinha, ainda estivessem assegurando que não havia ninguém nos escombros. As autoridades instalaram um guindaste para suspender o trem que ficou pendurado na ponte, para permitir o trabalho das equipes de resgate.

Os feridos foram levados para os principais hospitais da região, em Tláhuac e Iztapalapa, na zona sul da cidade. A rua de acesso ao hospital Belisario Roldán estava completamente bloqueada por 50 ambulâncias que chegaram com vítimas do acidente e dezenas de familiares procurando os feridos. María esperava às portas do hospital novidades do seu marido Víctor, que voltava do trabalho de metrô. Viu quando ele deu entrada no hospital numa maca, com as calças rasgadas: “Faz uma hora que não me dizem como ele está”, conta a mulher, chorando. A crise às portas do hospital recordou outras tragédias, como o tremor de quatro anos atrás.

Equipes de resgate, da Defesa Civil e do Exército foram mobilizadas por toda a região.
Equipes de resgate, da Defesa Civil e do Exército foram mobilizadas por toda a região.Hector Guerrero

“Quebra com alguma coisa, cara”

E, assim como há quatro anos, os primeiros a arrastarem os escombros da ponte de concreto para ajudar os que estavam presos nos vagões foram os moradores da área. As imagens de um grupo de homens abrindo com suas mãos as portas do metrô recordaram o enorme exemplo de solidariedade dado ao mundo pelo México depois da tragédia do tremor. “Quebra com alguma coisa, cara”, gritava um homem que gravava outros, enquanto forçavam a porta para tratar de retirar os feridos, minutos antes da chegada das equipes de resgate da capital.

A alguns metros do desabamento, três jovens da Brigada Rotario, uma organização especializada em resgates há mais de 10 anos, aguardavam em frente às cercas que delimitavam o local do acidente, onde haviam sido barrados pelas autoridades já presentes. “O que dizem é que já há risco de desabamento em outra parte da ponte”, disseram. Também esteve lá um grupo de topógrafos forenses para avaliar os riscos na zona.

Entre os feridos se encontrava Esmeralda Serrano, de 21 anos, moradora do bairro, que saía mancando do perímetro policial, com calça curta, uma atadura na coxa direita e, por baixo, uma ferida sangrando. “Eu estava passando a pé por lá, estava saindo da casa de uns amigos e ia para a casa da minha mãe, e aí uma pedra bem grande caiu em cima de mim”, contava. Serrano recordava que havia muita poeira. “Não ouvi nada, estava andando com meus amigos. Não sei quanta gente está aí dentro. Ouvi dizer que havia dois bebês quando ainda estive lá”, acrescentava, assustada.

Claudia Sheinbaum informou que já foi aberta uma investigação para apurar o fato e prometeu cobrar responsabilidades. O secretário de Relações Exteriores do Governo, Marcelo Ebrard, um dos artífices da linha 12 do metrô na sua época como chefe de Governo da capital (de 2006 a 2012), lamentou o acidente através de uma mensagem do Twitter: “O ocorrido hoje é uma terrível tragédia. Minha solidariedade às vítimas e às suas famílias”.

A linha 12, envolta em escândalos

A linha 12 do metrô, inaugurada em outubro de 2012, foi durante muitos meses motivo de orgulho para a esquerda mexicana, que se gabava do histórico investimento de 1,8 bilhão de dólares (9,8 bilhões de reais) e de atender diariamente a quase meio milhão de pessoas que antes não podiam cruzar rapidamente uma parte do sudeste da capital. Entretanto, já em 2014 foi preciso suspender o serviço em 11 das suas 20 estações por “oscilações detectadas nas vias”, que podiam ocasionar um descarrilamento.

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Durante a gestão do atual chanceler Ebrard, então dirigente do Partido da Revolução Democrática (PRD), a construção desta linha foi parte de um escândalo de corrupção que envolveu mais de 30 funcionários. A linha foi inaugurada em 2012, no final do seu mandato como prefeito, e pouco mais de um ano depois o funcionamento foi suspenso pelo seu sucessor, Miguel Ángel Mancera, alegando uma série de irregularidades e defeitos que punham os passageiros em perigo.

A polêmica representou um duro golpe à carreira de Ebrard. Sua trajetória ascendente se truncou a partir daquilo. Em 2015, irrompeu na Câmara dos Deputados portando um megafone. Queria se fazer ouvir numa sessão da CPI que investigava o uso de 26 bilhões de pesos (sete bilhões de reais) de orçamento, quase 50% a mais que o montante previsto, em uma operação que envolvia grandes empreiteiras como a mexicana ICA e a espanhola CAF.

Dois anos depois, a Linha 12 continuou sendo uma dor de cabeça para os mandatários até o Governo de Claudia Sheinbaum. Os moradores deste bairro já haviam alertado às autoridades que o tremor de 19 de setembro de 2017 havia abalado a estrutura do metrô de forma visível, concretamente no trecho de via elevada sobre a avenida Tláhuac ―o lugar que desabou nesta segunda. As autoridades detectaram um dano no coração da ponte: a coluna 69, que sustentava um dos trechos da linha, ficou danificada na base, e a empresa de transporte coletivo da capital ordenou sua reparação, uma obra que consumiu três meses de trabalho e 15 milhões de pesos (quatro milhões de reais), segundo informaram as autoridades em janeiro de 2018.

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