A crise do coronavírus

Falta de oxigênio, crematórios superlotados e mercado clandestino: a devastação na Índia

Da noite para o dia, Bangalore se tornou a capital da covid-19 no sul do subcontinente

Piras funerárias para cremar a pessoas mortas de covid-19, neste domingo, em Bangalore.
Piras funerárias para cremar a pessoas mortas de covid-19, neste domingo, em Bangalore.SAMUEL RAJKUMAR / Reuters
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Bangalore (Índia) - 03 mai 2021 - 13:35 UTC

“Na sexta-feira recebemos 6.000 pedidos de oxigênio em nosso telefone de assistência, mas só tínhamos 1.000 botijões”, conta Taha Mateen, um dos coordenadores do Mercy Mission, o maior consórcio de ONGs atuantes contra a covid-19 na cidade mais populosa do sul da Índia, Bangalore.

Mais conhecida em todo o mundo como a capital indiana da tecnologia da informação e por suas casas noturnas, Bangalore, com 8,4 milhões de habitantes, tem atualmente a duvidosa honra de ser a cidade do sul do país com as cifras mais elevadas de mortes pela doença desde o início da segunda onda da pandemia. Karnataka, o Estado do qual Bangalore é a capital, é uma das quatro unidades federativas mais golpeadas pela covid-19 na Índia, e lá atualmente vigora um confinamento de 14 dias, até 12 de maio.

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Enquanto correm as notícias de que as cifras oficiais estão muito abaixo da realidade, uma nota de imprensa do Governo de Karnataka situou na quinta-feira o número de mortes em Bangalore em 6.139, com 710.347 casos confirmados de covid-19. Só a cidade de Pune (no Estado de Maharashtra, oeste) e a capital nacional, Délhi, superam a devastação. Em taxa de aumento diário de casos, entretanto, Bangalore ocupa o segundo lugar, atrás somente de Délhi.

A magnitude da crise que capital de Karnataka pode ser medida pelo fato de o Governo ter autorizado a conversão urgente de 93 hectares de terrenos na periferia de Bangalore em 23 cemitérios e crematórios. Para piorar as coisas, os moradores de muitos dos povoados onde ficam esses terrenos se manifestaram contra a proposta. Alegam que os crematórios projetados estão muito perto das moradias.

Na quinta-feira, durante uma visita ao crematório elétrico de Kalpalli, na zona leste de Bangalore, contavam-se 50 carros fúnebres fazendo fila. “Os cadáveres estão se decompondo. Não se aproximem”, gritou-nos um grupo de motoristas que conversavam apinhados enquanto esperavam sua vez. Em meio à desgraça, aqueles homens pareciam dar preferência à companhia humana em detrimento da necessidade de manter a distância. Há na cidade 13 crematórios como o de Kalpalli, e a situação é a mesma em todos eles.

Os empregados das instalações se queixavam de serem obrigados a trabalhar sob condições desumanas, sem que o Governo tenha esclarecido qual será sua remuneração. Os operários pertencem à casta dos dalits (antes chamados de intocáveis) da ordem social hindu. “A maioria de nós é de famílias que vêm há séculos e gerações realizando esta tarefa. O Governo nunca regularizou nosso trabalho, embora seus organismos utilizem constantemente nossos serviços”, denuncia A. Suresh, de 42 anos, um dos líderes dos funcionários dos crematórios. “Se continuamos trabalhando é por humanidade”, acrescenta.

As comunidades que costumam enterrar seus mortos em vez de cremá-los sofrem não só pela perda dos seus, mas também pela falta de dignidade no rito final. Nos cemitérios da cidade já não há mais lugar, e os novos terrenos propostos pelo Governo são aguardados com impaciência. “Preciso mandar o corpo do meu pai diretamente do hospital para o crematório elétrico. Nem sequer pudemos estar presentes quando o levaram”, lamenta-se um inconsolável Khalimulá Shaik, de 36 anos, durante nosso encontro no Hospital Victoria, onde trabalha como voluntário para ajudar idosos em questões como cadastro de vacinas e internações. Shaik se incorporou às tarefas de ajuda depois da morte do seu pai, na semana passada. “Decidi que não era momento de ficar em casa chorando. Rezamos as orações do namaz-e-janaza (oração fúnebre islâmica) por meu pai com o corpo ausente”, conta.

Operários preparam botijões de oxigênio em Bangalore (Índia).
Operários preparam botijões de oxigênio em Bangalore (Índia). JAGADEESH NV / EFE

Como em outras partes do país, a escassez de oxigênio parece ser a principal causa do elevado número de mortes. “Os pacientes têm que esperar entre 8 e 10 horas até o oxigênio deles chegar. A maioria não consegue esperar tanto”, observa o médico Bartool Fatima, que trabalha como coordenador na ONG LabourNet, prestadora de primeiros socorros a pacientes que esperam por um leito hospitalar. “A falta de leitos hospitalares poderia ter sido solucionada se tivéssemos oxigênio suficiente. Morre-se não por falta de medicamentos, mas sim de oxigênio.”

Mercado clandestino, estoque irracional

A situação se agravou porque pessoas ricas, tomadas pelo pânico, fizeram compras irracionais, o que provocou a escassez e o surgimento de um mercado clandestino. Os jornais da cidade estão repletos de notícias sobre ações policiais contra vendedores clandestinos. Só na última semana, a polícia desarticulou 16 quadrilhas que tentavam revender produtos falsos ou a preços abusivos.

Sendo assim, basta uma busca superficial nas redes sociais para descobrir uma estrutura de distribuidores ilegais que oferecem não só botijões e concentradores de oxigênio, mas também medicamentos vitais e leitos hospitalares a quem pagar mais. Um cilindro de oxigênio que se pode ser alugado normalmente por 2.000 rupias [cerca de 150 reais) está sendo oferecido no mercado clandestino por nada menos que 40.000 [3.000 reais].

Nandish Kumar, distribuidor de equipamentos médicos, diz que os estoques de concentradores de oxigênio para uso doméstico se esgotaram na cidade. “Se alguém reserva um agora, poderei entregar só em 25 de maio, e sairá por 70.000 rupias [5.150 reais]”, diz. “Essa é a tarifa oficial com fatura. As do mercado clandestino são mais altas.” Segundo Kumar, em março os concentradores ainda podiam ser obtidos na cidade por 25.000 rupias [1.840 reais].

Taha Mateen calcula que, juntando todos os recursos médicos da cidade, só seria possível atender um décimo da população necessitada de cuidados urgentes. Ele acrescenta que a maioria dos apelos por internação e equipamento lhe chegam pelas redes sociais.

“As pessoas ricas e influentes não precisam da nossa ajuda, e os pobres não sabem como ter acesso a ela. Eu me pergunto o que estamos fazendo”, reflete Padmini Ray, especialista em Humanidades Digitais e fundadora da oxygenblr.in, um site usado por ONGs da cidade para arrecadar recursos e coordenar a ajuda. Para se ter uma ideia de como é caótica a situação, Ray conta que as pessoas não devolvem os botijões depois de utilizá-los. “Não temos pessoal suficiente para distribuí-los e depois os recolher. As entregas são prioritárias”, esclarece, e acrescenta: “Também nos faltam umidificadores e reguladores”.

Escassez de exames e vacinas

Enquanto isso, o ritmo da vacinação ficou reduzido a um gotejo, e o Estado informou que há uma grave escassez de doses. O Governo de Karnataka também revogou precipitadamente seu anunciado plano de começar a vacinar as pessoas de 18 a 44 anos a partir de 1º de maio, embora os especialistas insistam em que a segunda onda só poderá ser contida imunizando 80% da população.

O aplicativo através do qual os cidadãos mais jovens do Estado podiam se registrar para a vacinação também travou poucas horas depois de ser reaberto na quinta-feira, o que deu lugar a irados protestos contra o Governo nas redes sociais. A campanha de vacinação começará depois de 12 de maio.

Cremação de uma pessoa que morreu de covid-19 em Bangalore.
Cremação de uma pessoa que morreu de covid-19 em Bangalore.MANJUNATH KIRAN / AFP

“Estou esperando aqui desde as 8h30 e agora me dizem que não tem mais vacina”, queixava-se Jayprakash Narayan, de 65 anos, na sexta-feira à tarde no Hospital Bowring, no centro de Bangalore. Narayan e sua mulher, de 64 anos, se instalaram na cidade depois de 30 anos no Kuwait, enquanto seus filhos ficaram no país árabe por motivos de trabalho. “Minha mulher tem artrite, estamos sozinhos, não sei como vamos nos virar para voltar à fila amanhã.” Ele conta que tentou comprar uma dose no mercado clandestino, mas não conseguiu. Entretanto, para dissipar os temores, o secretário-geral de Karnataka, P. Ravikumar, informou que “não haverá escassez de vacinas para os idosos. Houve um pequeno erro de cálculo que obrigou a adiar a vacinação dos jovens”.

Manohar Elavarthi, da Fundação Azim Premji, que financia a ajuda em 40 bairros da cidade, denuncia que “o Governo só faz exames nas pessoas com sintomas. Não há varredura comunitária. A consequência é que há casos que não são detectados e contribuem para a propagação”. Elavarthi adverte também de que muitos centros de atendimento primário da cidade ficaram sem material para fazer os exames.

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