Juízo George Floyd

Minneapolis celebra o veredicto com uma pergunta: quantas mortes não foram gravadas?

Cidades como Los Angeles e Nova York recebem com alívio a condenação do ex-policial que matou George Floyd

Um grupo de manifestantes no Brooklyn (Nova York) depois do veredicto do caso George Floyd.
Um grupo de manifestantes no Brooklyn (Nova York) depois do veredicto do caso George Floyd.JEENAH MOON / Reuters

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Assim que o juiz Peter Cahill leu o veredicto que condenou o ex-policial Derek Chauvin pela morte de George Floyd, a alegria explodiu em Minneapolis, uma cidade que estava preparada para tudo. Lojas e restaurantes do centro puseram tapumes nas fachadas, os colégios públicos suspenderam as aulas presenciais, e militares da Guarda Nacional patrulhavam cada esquina. Mas, no final, a tarde desta terça-feira foi marcada por abraços e punhos erguidos; pela esperança de alguns e o ceticismo de outros, e também por uma constatação: nada disto teria sido possível sem a prova mais poderosa do julgamento, um vídeo de nove minutos que mostrava a agonia de Floyd sob o joelho do então agente da polícia de Minneapolis. Terrence Floyd, irmão da vítima, disse: “Terei muita saudade dele. Mas sei que agora entrou para a história. É um grande dia para ser um Floyd”.

“Quantos outros antes dele não foram gravados?”, questionava um cartaz nas mãos de Hodan B., uma psicóloga negra de 30 anos. Na opinião dele, o veredicto não seria possível sem aquelas imagens. “Foi o que ajudou a desmontar a versão policial”, alega. Mesmo assim, recordou que “outras vezes, com as imagens das próprias câmeras dos policiais, tampouco houve condenações”. “O que vimos ia além da crueldade”, prossegue a psicóloga.

Hodan acredita, como muitos outros, que este julgamento marcará um precedente para futuros casos de brutalidade policial. Os norte-americanos presenciaram durante as audiências como o chefe da polícia local, Medaria Arredondo, também negro, se punha ao lado da acusação e recriminava os métodos utilizados por Chauvin, que foi demitido depois do assassinato e receberá a sentença dentro de aproximadamente oito semanas.

Emma Luten, uma jovem branca de 24 anos, esperava que Chauvin fosse declarado culpado por alguma das três acusações pelas quais respondia, mas se surpreendeu ao ver foi condenado por todas elas: homicídio em segundo grau (com dolo momentâneo, mas não premeditado), homicídio em terceiro grau (por negligência, conforme a definição adotada em Minnesota) e homicídio culposo em segundo grau. Ela acredita que este caso “significou uma verdadeira prestação de contas e também um passo adiante no caminho para a justiça racial íntegra”. Considera que o veredicto se baseou em provas inegáveis, depois de muitos casos de violência policial nos quais agentes foram absolvidos apesar da existência de imagens contundentes. Para Luten, se Floyd fosse branco, Chauvin não só teria retirado seu joelho do pescoço muito antes: “Acho que nem teríamos chegado a ver aquele joelho no pescoço”.

A morte de Floyd, em 25 de maio de 2020, detonou várias concentrações e protestos nos meses subsequentes. Neles havia jovens brancos e negros gritando que “vidas negras importam”, lema que acabou batizando um grande movimento contra o racismo policial, o Black Lives Matter. Depois do veredicto, a comemoração junto ao tribunal se transferiu para a agora chamada “praça George Floyd”, no cruzamento onde ele morreu, em frente à mercearia Cup Foods.

Um homem comemora o veredicto do caso Floyd numa rua de Los Angeles, na Califórnia, nesta terça-feira.
Um homem comemora o veredicto do caso Floyd numa rua de Los Angeles, na Califórnia, nesta terça-feira. DAVID SWANSON / Reuters

Los Angeles: o fantasma do caso Rodney King

Em Los Angeles, o fantasma do caso de Rodney King, um afro-americano espancado sem piedade em 1991 por quatro policiais ―três deles brancos―, fez a cidade recordar uma de suas piores experiências com a brutalidade policial. Os policiais, que tinham detido King por excesso de velocidade, foram absolvidos em 1992 por um júri no qual não havia um só negro. Foi a fagulha que incendiou o centro da cidade com vários atos de vandalismo. Quem se lembra daqueles dias reconhece o avanço visto nesta terça-feira.

“Alívio” é a palavra que Taylor, um afro-americano de 52 anos, usa para definir o que sentiu depois do veredicto. “Já era hora de que os policiais pagassem por seus erros”, opina, enquanto espera o ônibus no centro da maior cidade californiana. Em seu celular, acompanha pela CNN a festa em todo o país por causa da decisão judicial. “Espero que de agora em diante os policiais tratem com respeito e dignidade às pessoas detidas por eles”, acrescenta.

O veredicto permitiu que Los Angeles relaxasse após semanas de tensão. O movimento Black Lives Matter e outras organizações que pedem a retirada de verbas dos órgãos policiais tinham intensificado suas vigílias em frente a gabinetes policiais e à prefeitura, a mais recente na manhã de terça.

Duas pessoas comemoram o veredicto contra o ex-policial Dereck Chauvin em Minnaepolis.
Duas pessoas comemoram o veredicto contra o ex-policial Dereck Chauvin em Minnaepolis. Morry Gash / AP

“Este foi o julgamento mais importante das nossas vidas”, admite o pastor Shep Crawford, que comanda uma igreja evangélica no centro de Los Angeles. “Depois de muitos anos, a sociedade entendeu que as vidas negras importam. E agora parece que o sistema finalmente aprendeu isso”, diz, após rezar no Grand Park diante de um grupo que comemorava a decisão do júri. “É preciso continuar trabalhando. Quero um país onde meus filhos não se surpreendam cada vez que se faz justiça.”

Nova York: diálogo da polícia com líderes comunitários

Os órgãos policiais dos EUA adotaram nos últimos meses novas políticas destinadas a reduzir o uso da força, numa resposta às críticas pela forma como lidou com os protestos que se seguiram à morte de Floyd. Foi uma transformação operacional que exigiu colaborar e dialogar com líderes locais, representantes religiosos e associações comunitárias. O chefe do Departamento de Polícia de Nova York, Dermot Shea, diz ter “trabalhado muito” com esses agentes sociais.

Em Nova York, apesar da convocação de meia dúzia de protestos na cidade ―programadas com antecedência, independentemente do resultado do julgamento―, a mobilização policial no final da tarde era muito mais visível que a presença de manifestantes. Uma cerca móvel rodeava a movimentada delegacia da Times Square, mas junto a ela havia apenas câmeras de televisão, enquanto o ritmo habitual no marco zero de Manhattan prosseguia sem sobressaltos nem interrupção do tráfego.

Pelas redes sociais, ativistas tinham marcado uma concentração ali às 18h (hora local), mas o único sinal disso era o dispositivo policial. Várias centenas de agentes foram mobilizados em Manhattan, e outros 300 ao redor do Centro Barclays, no Brooklyn, onde um pequeno grupo acompanhou ao vivo a leitura do veredicto, irrompendo em gritos de raiva e alívio ao ouvir a tripla condenação de Chauvin. No Harlem, houve uma passeata espontânea de dezenas de pessoas com cartazes do movimento Black Lives Matter.

O jovem Joshua seguia pelo celular o julgamento enquanto esperava a sua namorada. “Só faltava que [Chauvin] se safasse, mas ainda resta muita injustiça, de séculos atrás. Isto é só a ponta do iceberg”, dizia o afro-americano, que não participou de nenhuma manifestação contra a violência policial, apesar de compartilhar da indignação.

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