Itália confia a solução da crise ao ex-presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi

Partidos fracassam na tentativa de formar um novo Executivo e o chefe de Estado convoca o ex-presidente do BCE para liderar um Governo de unidade

O ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, sai de sua casa em Roma nesta terça-feira.
O ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, sai de sua casa em Roma nesta terça-feira.FABIO FRUSTACI (EFE)
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O presidente da República da Itália, Sergio Mattarella, em um tom extremamente dramático, anunciou nesta terça-feira que só existem dois caminhos: eleições imediatas ou um Executivo institucional apoiado por todas as forças políticas até sair da crise. E o escolhido para a tarefa é a figura que mais apoio e prestígio tem hoje na Itália: o ex-presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi. É uma proposta que surgiu depois que a Itália voltou a se aproximar do abismo institucional e político após uma crise longa e inútil. Os partidos que formavam a antiga maioria do Governo constataram na tarde desta terça-feira a impossibilidade de reeditar um Executivo. E muito menos de fazê-lo sob as ordens do até o momento primeiro-ministro, Giuseppe Conte. O líder do Itália Viva, Matteo Renzi, colocou Conte contra as cordas e não deixou nenhuma brecha.

Mattarella se pronunciou depois das 21h para constatar que não existe mais a possibilidade de formar um Governo político na Itália. Os quatro partidos que integraram o anterior não chegaram a um acordo durante as negociações que duraram quase 72 horas. Renzi aumentou a aposta e rompeu o acordo. Uma estratégia que todos os partidos esperavam. E também o Palácio do Quirinal [residência oficial do presidente da República], que conversou com Mario Draghi durante vários dias para sondar a possibilidade de que participasse de um Executivo de emergência. Ninguém pensava que o banqueiro pudesse aceitar, mas a situação é extremamente crítica. “Peço a todas as forças que apoiem um Governo de alto perfil. Tentarei encarregar [Draghi] de formar um Governo o antes possível”.

Mattarella dedicou todo o seu discurso a enumerar as razões pelas quais seria absurdo convocar eleições agora. “O longo período de campanha eleitoral e a redução da atividade do Governo coincidiriam com um momento crucial para a Itália. Precisamos de um Governo forte que ative iniciativas e não um Governo em campanha eleitoral”, destacou.

O chefe de Estado lembrou que o plano de utilização dos fundos europeus deve ser apresentado à Comissão Europeia em abril. “E deve ser antes da data limite para que o dinheiro possa ser usado em breve e possa haver um debate sobre o plano com o nosso Governo, que não poderia fazê-lo se tivesse sua autoridade reduzida. Não podemos nos permitir perder esta oportunidade fundamental para o nosso futuro”.

Draghi é uma das poucas figuras que suscita um consenso unânime entre os partidos políticos. Mesmo a direita, como declarou em outras ocasiões, estaria disposta a apoiar um Executivo liderado pelo ex-banqueiro (embora na terça-feira à noite o líder da Liga, Matteo Salvini, e a dos Irmãos da Itália, Giorgia Meloni, tenham defendido uma eleição). Draghi é o nome que Renzi foi o responsável por veicular cada vez que lhe perguntavam sobre a irresponsabilidade de querer abrir uma crise em um momento tão delicado: “E se o primeiro-ministro acabar sendo Mario Draghi? Você não acha que ele é melhor do que Conte neste momento?“, respondeu. E em torno dele houve silêncio. Se este Executivo se concretizar, o florentino reclamará a paternidade e poderá obter o aval moral e político de uma crise que ameaçava liquidar definitivamente a sua carreira.

O ex-presidente do BCE será presumivelmente contratado por Mattarella para tentar formar um “governo institucional”. Se for aceito, deverá estabelecer uma lista de homens e mulheres de alto prestígio e nível profissional para liderar a Itália por pelo menos um ano. As nomeações, em meio à campanha de vacinação e à espera da concepção do plano definitivo dos fundos europeus, são muitas. E começa em julho o denominado “semestre branco”, seis meses em que as Câmaras não podem ser dissolvidas por estarem próximas da eleição do novo Presidente da República (no final de janeiro). Draghi, portanto, deve pilotar o país até essa data.

A eleição de Draghi traria enorme alívio para o setor financeiro e empresarial do país. Poderá reunir uma parte importante do arco parlamentar. Mas também causará fissuras dentro de alguns partidos políticos, como o Movimento 5 Estrelas. Os grillinos, mergulhados em longa agonia desde que venceram as últimas eleições, verão como a experiência populista e os resultados dos últimos anos serão submetidos ao rigor de um governo técnico.

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