Itália mergulha em nova crise institucional após renúncia de Conte

Primeiro-ministro tentará encabeçar um novo gabinete, mas outras opções também despontam

Giuseppe Conte na saída para o Palácio Quirinale, sede do Executivo, após apresentar sua renúncia ao cargo de premiê, nesta quarta.
Giuseppe Conte na saída para o Palácio Quirinale, sede do Executivo, após apresentar sua renúncia ao cargo de premiê, nesta quarta.Riccardo Antimiani (EFE)
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A Itália se aproxima mais uma vez da vertigem institucional e se encaminha para formar seu quarto Governo em quatro anos, o terceiro desta legislatura. O primeiro-ministro Giuseppe Conte apresentou na terça-feira seu pedido de demissão ao presidente da República, Sergio Mattarella, alegando falta de apoio parlamentar e abrindo assim cenário incerto, no qual ele próprio parte como favorito para encabeçar um novo gabinete. Mas nada está garantido, e o chefe do Estado começará nesta quarta-feira uma rodada de consultas com os presidentes da Câmara e Senado, e na quinta com os partidos, para sondar as diferentes opções —incluindo eleições antecipadas.

Mattarella pôs a baliza alta demais há um mês e meio, quando Matteo Renzi ameaçou derrubar o Governo. Se houvesse uma crise, ameaçou, o país faria eleições. Mas não há ninguém melhor —nem mais temerário— que Renzi no xadrez político, e o florentino farejou o blefe do chefe de Estado, que precisou ir atenuando as exigências aos partidos e ao próprio Conte para evitar uma convocação eleitoral em plena pandemia.

A realidade é que a Itália acaba de entrar numa crise da qual não há saída clara. É justamente o cenário que Mattarella queria evitar a todo custo. A convocação de eleições não convém a quase ninguém, nem sequer ao próprio Matteo Salvini, que encabeça as pesquisas, mas observa preocupado a perigosa aproximação da sua sócia Giorgia Meloni (do partido ultradireitista Irmãos da Itália). No entanto, nenhum dos cenários que se abrem agora tem uma viabilidade assegurada.

O terceiro Conte

A primeira opção a ser explorada é o chamado Conte Ter, seu terceiro mandato em três anos. O primeiro-ministro demissionário —que tem maioria entre os deputados— precisa que 15 senadores constituam um grupo parlamentário autônomo e entrem para a futura coalizão. Se conseguir, os desertores —Conte prefere chama-los de “construtores”— se somariam ao apoio do Movimento 5 Estrelas, do Partido Democrático e do Livres e Iguais. Mas não está claro nem sequer que Mattarella aceitará dar a Conte o chamado encargo “exploratório” para essa nova coalizão. É possível que peça novamente o envolvimento do Itália Viva, o partido de Renzi, que abriu esta crise ao retirar suas duas ministras do Executivo. Os números, se Conte encabeçasse um novo projeto, deveriam ser folgados. Assim deseja o palácio Quirinale, sede da presidência. O próprio ex-premiê manifestou-se dessa forma no Facebook: “Minha demissão está a serviço da possibilidade de formar um novo Governo que ofereça uma prospectiva de salvação nacional. Necessitamos de uma aliança, na forma que for possível, de clara lealdade europeísta”.

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A volta do Renzi ao jogo para formar um novo Governo poderia parecer estranha depois da contundência dos últimos acontecimentos. Mas a política italiana tem memória curta, e seu partido já antecipou que está disposto a dialogar e a não impor vetos sobre nenhum nome. Nem mesmo sobre Conte. Ou seja, a situação poderia roçar o absurdo de que se constitua um Governo com os mesmos aliados um mês e meio depois de aberta uma crise que paralisou o país durante todo esse tempo, no momento mais delicado de sua história recente.

Um novo primeiro-ministro

Conte sabia que, se aceitasse apresentar sua renúncia, estaria exposto à intempérie dos jogos palacianos de Renzi, que pode teimar em só dar seu apoio ao novo Executivo se o candidato a liderá-lo for outra pessoa. Mattarella saberá a resposta nas próximas horas e terá que movimentar o aparato do Estado para buscar uma solução.

Não há nomes claros no momento. E o escolhido deveria ser capaz de contentar as correntes internas de dois partidos como o Movimento 5 Estrelas e o Democrático. Por enquanto, há poucos nomes sendo cogitados: o chanceler Luigi Di Maio, do M5S, e o social-democrata Dario Franceschini. Mas ambos os nomes, por motivos diferentes, parecem bastante exóticos neste momento, mesmo para os padrões da atual legislatura. Renzi nesta terça vazou também o nome do presidente da Câmara de Deputados, Roberto Fico, do 5 Estrelas.

Governo com Berlusconi

O Força Itália, do ex-premiê Silvio Berlusconi, quer um Governo de “unidade nacional” que tire o país do atual buraco. Mais adiante se poderia falar em eleições, dizem seus dirigentes. Antonio Tajani, o líder visível do partido —Berlusconi está afastado após enfrentar problemas cardíacos— observou que o novo gabinete deveria incluir todo o espectro, não só a centro-esquerda, sob a liderança do Itália Viva. Parece uma opção complicada, a menos que se opte por uma fórmula europeísta e liberal, chamada na Itália de “Governo Ursula —em alusão a Ursula von der Leyen, presidenta da Comissão Europeia que foi eleita com o apoio do Força Itália, que para isso rompeu fileiras com seus aliados da direita. “Essa opção seria a mais sensata. A Itália não pode se dar ao luxo de perder mais o tempo, e o Força Itália deve recuperar um espaço central”, afirma um deputado e membro histórico do partido de Berlusconi.

O Força Itália se reunirá com Mattarella junto com seus aliados e promete não romper esse bloco. Mas o partido de Berlusconi pode ser o curinga que irá mudar a dinâmica do jogo, desde que Il Cavaliere receba algo em troca. Em seus desejos mais íntimos, e apesar de sua avançada idade (84 anos), ele gostaria de ser presidente da República. Mas seus interesses empresariais sempre são uma moeda de troca. Apesar de Berlusconi, com a saúde delicada, ter mandado Tajani falar com o presidente Mattarella, o melhor interlocutor do Força Itália no Palácio Quirinale é Gianni Letta, histórico chefe de Gabinete nos Governos exercidos pelo dono do conglomerado Mediaset.

Eleições antecipadas

Se Mattarella não enxergar nenhum cenário claro, não restaria opção senão convocar eleições. E esse é o pedido que a direita tem feito e que transmitirá ao próprio presidente durante as consultas desta quarta e quinta-feira.

Em caso de eleições, haveria a busca por um Executivo de transição que pilotasse as questões-chaves que a Itália terá que enfrentar nas próximas semanas —como a gestão dos mais de 200 bilhões de euros do plano de recuperação—, e a votação deve ser marcada para junho. Mas esse é um cenário que se tentará evitar a todo custo.

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