A posse de Joe Biden e Kamala HarrisAnálise
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Chegada de Kamala Harris à Casa Branca é também uma vitória para as mães cientistas

Shyamala Gopalan Harris, mãe da vice-presidenta dos EUA, é um modelo a seguir para as profissionais da ciência que exercem a maternidade

Kamala Harris (à esquerda), sua irmã mais nova, Maya, e a mãe delas, Shyamala Gopalan, em 1970.
Kamala Harris (à esquerda), sua irmã mais nova, Maya, e a mãe delas, Shyamala Gopalan, em 1970. Oficina de campaña de Kamala Harris / AP

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Para as mães como eu, nada levanta mais o ânimo do que ver os olhos dos meus filhos se encherem de assombro. Há coisas corriqueiras que os adultos dão como fatos da vida: um peixe que nada ao redor dos dedos da mão, um arco-íris aparecendo, chapinhar em poças de lama, ouvir o rugido de um avião, fazer a primeira cesta no basquete. Adoro ouvir meus três filhos pequenos ofegantes diante da magia do mundo e de todas as possibilidades que ele apresenta. Nunca esperei que a fonte inesgotável de maravilhas deste ano fossem as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2020, sobre as quais meus filhos, que frequentam a escola primária, não paravam de perguntar, inclusive antes de irem para a escola.

Foi agradável ver as crianças fazerem mais matemática em casa, calculando as diferenças entre os votos e somando os números eleitorais. Mas o momento que nunca esquecerei foi quando minha filha reagiu ao discurso de Joe Biden e Kamala Harris, sabendo que Kamala seria a primeira mulher vice-presidenta na história dos EUA.

“Uau! Ela pode ser vice-presidenta?”, perguntou ela. Meu coração encolheu. Por que ela estava tão surpresa de que uma mulher pudesse alcançar essas alturas?

“Não só isso,” respondi. “A mãe dela também é cientista.”

“Não pode ser, não sabia!”, exclamou. “Isso significa que eu posso ser presidenta?”

É por esta reação que a vitória de Kamala Harris é também uma vitória para as mães cientistas como eu. Kamala atribui seu sucesso a Shyamala Gopalan Harris, sua brilhante mãe cientista que, por acaso, também trabalhava no mesmo campo que eu: o câncer de mama. Shyamala conseguiu criar duas filhas sendo mãe solo, enquanto obtinha um cargo de professora titular e fazia uma pesquisa pioneira sobre o câncer.

Shyamala é um modelo a seguir para as cientistas que exercem a maternidade, dando-nos esperança e tranquilidade quanto aos nossos sacrifícios e lutas diárias. Em meus momentos mais sombrios, invadem-me as dúvidas sobre minha carreira. A pesquisa é imprevisível, notoriamente instável e exigente tanto para mim como para minha família. Normalizei o fato de me levantar às cinco da manhã para poder trabalhar antes que as crianças acordem, podendo assim cumprir as exigências da minha pesquisa. Como muitas outras mães que trabalham à noite e nos finais de semana, perco momentos preciosos, como me despedir das crianças quando saem de excursão ou quando fazem uma apresentação do coral escolar.

Perco os aniversários de dois dos meus filhos a cada dois anos desde que nasceram, porque coincidem com a conferência de pesquisa mais importante da minha área. Meus filhos lembrarão que a mãe deles estava lá no seu aniversário? Que não foi buscá-los na escola? Ou recordarão que trabalhei duro e tive a coragem de perseguir minha paixão?

Embora as coisas tenham melhorado nas quatro décadas desde que Shyamala perseguiu sua carreira, não conheço nenhuma família monoparental que também tenha uma carreira ativa no meu campo de pesquisa. A atual pandemia acentuará ainda mais essa disparidade. A proporção de estudos científicos relacionados sobre a covid-19 que tenha uma mulher como autora principal é 19% menor que a de artigos publicados nas mesmas revistas em 2019. Uma das razões principais desta disparidade de gênero é que as mulheres cientistas cumprem uma quantidade desproporcional de deveres familiares, como cuidar das crianças. Se não tomarmos medidas para apoiar as pesquisadoras e as famílias monoparentais, corremos o risco de perder uma geração de mentes brilhantes.

Ainda me lembro da primeira pessoa que me inspirou a me dedicar à ciência, o Sr. Cassidy, meu professor de Química no ensino médio, no País de Gales. Só quando voltei à Escócia, minha terra natal, para começar a pós-graduação vim a ter um role model mulher. A então diretora do Instituto Beatson, em Glasgow, Karen Vousten, fez uma palestra tão apaixonada e impactante que saí do auditório com um sentimento de euforia. É essa paixão que ainda me sustenta hoje em dia, superando a carga adicional que carrego como mãe.

A inspiração é como uma fagulha que acende uma chama de imaginação nos outros. Espero transmitir esta tocha logo mais, quando falar com os atuais alunos do Sr. Cassidy, na esperança de inspirar futuras gerações ―e como forma de gratidão pelo que ele fez por mim há 25 anos. E embora Shyamala Gopalan Harris já não esteja conosco, seu legado é um ponto de inflexão histórico. Quando Kamala Harris tomar posse como vice-presidenta dos EUA, nesta quarta-feira, será em parte graças aos esforços e sacrifícios de sua mãe pesquisadora. E, quem sabe, um dia talvez inclusive chegue a se tornar presidenta.

Roni Wright é escocesa, pesquisadora e membro da comissão de igualdade de gênero no Centro de Regulação Genômica (CRG) e professora colaboradora da Universidade Internacional da Catalunha.

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