Donald Trump diz adeus a quatro anos de caos: “Tenham uma ótima vida, vamos nos ver em breve!”

Republicano se despede com tapete vermelho e salvas de honra em uma base militar repleta de seguidores

Donald Trump se despede da presidência na escada do helicóptero Marine One.
Donald Trump se despede da presidência na escada do helicóptero Marine One.Alex Brandon (AP)

Donald Trump é história. O 45º presidente dos Estados Unidos deixou a Casa Branca às 8h16 de Washington (10h16 de Brasília). Decolou dos jardins da residência no helicóptero Marine One e deu uma última volta como mandatário pela capital, que ele virou de ponta cabeça durante 1.460 dias com seus tuítes, a caminho da base militar de Andrews, onde embarcou pela última vez no Air Force One com sua mulher, Melania, e seus filhos. O republicano abandonou Washington, epicentro do poder ao qual chegou com halo de intruso com a promessa de drenar o pântano. Nesta quarta-feira, disse adeus diante de um futuro repleto de incertezas. Se seus predecessores passavam os últimos dias no Salão Oval meditando sobre o legado que deixavam, Trump ficou sozinho e de mau humor, com a cabeça cheia de fantasmas por uma fraude eleitoral inexistente. O agora ex-presidente carrega o estigma de ter sido o único mandatário americano submetido a dois processos de impeachment.

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President Donald Trump gestures at a campaign rally in support of U.S. Senate candidates Sen. Kelly Loeffler, R-Ga., and David Perdue in Dalton, Ga., Monday, Jan. 4, 2021. (AP Photo/Brynn Anderson)
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“Muito obrigado, foi uma honra”, disse Trump, usando sua emblemática gravata vermelha, aos repórteres enquanto se dirigia ao helicóptero. “Não será um longo adeus”, acrescentou aquele que não conseguiu superar a derrota eleitoral e preferiu abandonar a cidade antes de se tornar ex-presidente. Antes de pôr os pés no Marine One, Trump se virou e se despediu em um gesto que lembrou o dia 9 de agosto de 1974, quando Richard Nixon renunciou à presidência. Com uma diferença: Nixon não se atreveu a passar suas últimas horas no poder concedendo perdões a seus sócios e amigos.

Trump teve na base militar de Andrews a despedida que queria. Caminhou pelo tapete vermelho com Melania, vestida completamente de preto, com uma trilha sonora de salvas militares de honra e aplausos de um grupo de simpatizantes. “Nós te amamos!”, gritava um punhado de espectadores usando o boné vermelho com o sloganMake America Great Again”, símbolo de sua presidência.

“E nós amamos a vocês!”, respondeu Trump, em um adeus com sabor de último comício. Melania disse poucas palavras que não saíram do roteiro a que se ateve durante os quatro anos. Trump, o principal rosto da era da pós-verdade e das fake news − ultrapassou 25.000 mentiras ou afirmações enganosas enquanto ocupou a presidência, com média de 600 a 700 semanais durante a campanha, segundo o The Washington Post − disse que reconstruiu o Exército, afirmou ter níveis de aprovação incomparáveis entre os veteranos e falou no passado sobre a pandemia, que já deixou 400.000 mortos nos Estados Unidos. “Muito amor para as famílias que sofreram com o vírus da China”, disse o republicano.

O Air Force One decolou com Trump pela última vez como passageiro às 9h locais, rumo à Flórida. Nos alto-falantes da base militar tocava My Way, de Frank Sinatra. O 45º presidente não mencionou Joe Biden pelo nome, mas desejou-lhe boa sorte. “O futuro nunca foi melhor para este país. Desejo muito sucesso à nova Administração. E eles terão, porque lançamos as bases para isso”, acrescentou, antes de agradecer à sua família, ao chefe de Gabinete Mark Meadows, a “alguns membros” do Congresso e ao vice-presidente Mike Pence, que não o acompanhou para estar presente na cerimônia de posse de Biden e Kamala Harris no Capitólio. “Tenham uma ótima vida, vamos nos ver em breve!”, foram as últimas palavras do homem que recebeu 74,2 milhões de votos em novembro.

Washington volta a respirar. A cidade que deu apenas 18.500 votos a Trump em novembro parecia estar prendendo a respiração desde a invasão do Congresso, no dia 6. O episódio deixou cinco mortos e se tornou mais um fardo para o agora ex-presidente, que quando estava no poder alimentou supremacistas brancos e grupos extremistas, sem nunca condená-los duramente. O monstro já havia batido à porta antes. Foi em agosto de 2017, quando neonazistas realizaram uma manifestação em Charlottesville (Virgínia), onde entraram em confronto com antifascistas. “Existem boas pessoas nos dois lados”, disse Trump depois do incidente. Sua partida deixa um país dividido por um abismo entre a América branca e as minorias.

Nada menos que 74% dos americanos acreditam que os Estados Unidos estão mal encaminhados. Joe Biden começará a corrigir, a partir desta quarta-feira, 20 de janeiro, mesmo, algumas decisões de Trump que considera nocivas, como a saída do acordo de Paris contra a mudança climática. O presidente democrata também reverterá partes da política migratória implementada na fronteira com o México, que separou 3.000 menores migrantes de suas famílias no mínimo até o verão de 2018.

O ex-presidente republicano, empresário e ex-apresentador de reality shows na TV deixa a reputação internacional dos Estados Unidos no chão. Durante seu Governo, erodiu o peso da diplomacia americana com sua política de America First e sua tensa relação com os secretários de Estado − com quem, assim como com o restante do Gabinete, travava disputas públicas e a quem despedia de seus cargos, ao estilo de seu programa O Aprendiz, quando não se curvavam aos seus caprichos.

O estilo pessoal de Trump, que lançou sua candidatura à presidência com um comício em 2015 no qual chamou os mexicanos estupradores e criminosos, provocou a publicação de centenas de livros que tentaram explicar sua ascensão. Os ensaios logo levaram a estudos sobre a personalidade narcisista de um presidente que dava sinais de autocrata. Sua primeira viagem ao exterior foi para Riad, onde se reuniu com o rei Salman e outras autoridades da Arábia Saudita. Posteriormente, Trump se tornou o primeiro líder americano a se reunir com o ditador norte-coreano Kim Jong-un, a quem meses antes tinha incluído em sua longa lista de ofendidos ao chamá-lo de “pequeno homem-foguete”.

O homem que chegou a Washington prometendo acabar com a “carnificina americana” deixa o poder após quatro anos tumultuados. “O que mais há para dizer?”, perguntou-se Trump antes de entrar no avião que o levou para sua aposentadoria na Flórida.

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