Pandemia de coronavírus

União Europeia corre para driblar falhas e acelerar vacinação ante nova onda de contágios

Bruxelas adquiriu 100 milhões de doses adicionais da Pfizer-BioNTech após pressão da Alemanha, enquanto França garante que não haverá mais demoras “injustificáveis” na vacinação

Funcionária do condado de Chester (Pensilvânia) enche uma seringa com uma dose da vacina da Moderna para aplicar em profissionais da saúde.
Funcionária do condado de Chester (Pensilvânia) enche uma seringa com uma dose da vacina da Moderna para aplicar em profissionais da saúde.Matt Slocum / AP

A Europa começou a inocular em suas sociedades a volta à normalidade através da vacina. A dureza da segunda onda de contágios, no entanto, coloca maior pressão sobre Bruxelas e as capitais para que mobilizem a campanha de imunização com maior rapidez. A Comissão Europeia, que aumentou em 100 milhões de doses (passando para 300 milhões) seu pedido à Pfizer-BioNTech, afirmou neste sábado estar “preparada para ampliar sua capacidade produtiva” e lembrou que, nas próximas semanas, serão aprovadas novas vacinas que já figuram em seu portfólio.

2021 será o ano das vacinas. Os cientistas nunca haviam iniciado uma corrida dessa magnitude. Apenas 10 meses após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar a pandemia, mais de 60 projetos aspiram a se tornar o próximo imunizante e outros 172 estão em fases pré-clínicas. E desta vez têm referências. Vários ensaios atingiram a linha de chegada: Estados Unidos e Canadá deram sinal verde para as vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna, a União Europeia (UE) aprovou a primeira e prevê fazer o mesmo com a segunda na semana que vem; o Reino Unido já deu seu beneplácito à da AstraZeneca; a Rússia aplica a Sputnik V; e a China, a da Sinopharm.

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Segundo a Aliança Global para a Vacinação e a Imunização (Gavi, na sigla em inglês), outras 13 vacinas já estão nas etapas finais. “Nunca foram empregados tantos recursos para o desenvolvimento de uma vacina. Não há centro de pesquisa, academia ou laboratório que não esteja trabalhando sobre a covid-19. E a produção industrial se multiplicou graças ao dinheiro público investido”, explica Rafael Vilasanjuan, analista do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e membro do conselho de administração da Gavi.

Cientistas, laboratórios e reguladores pulverizaram todos os tempos de desenvolvimento das vacinas, que tradicionalmente requerem anos. Agora começa sua aplicação, que impõe um planejamento e uma logística sem precedentes. “É um feito histórico. Nunca havia sido realizada uma campanha de vacinação universal, em âmbito mundial”, afirma Vilasanjuan.

Israel pisou no acelerador e injetou a primeira dose da vacina em 10% de sua população em apenas duas semanas. Essa, no entanto, não é a tônica. Nos Estados Unidos e em alguns países da UE, o processo está sendo mais lento que o esperado: alguns, como a Alemanha, dizem que o abastecimento é insuficiente; outros, como a França e a Espanha, sofrem de problemas logísticos ou de organização. Mas as sociedades começam a ficar impacientes depois dos assustadores números que a pandemia continua deixando: 15 milhões de contágios e mais de 350.000 mortos em toda UE. Nos EUA, país mais afetado no mundo, já sao mais de 350.000 óbitos e 20 milhões de infecções.

Os Governos temem que qualquer contratempo desencadeie uma crise. O presidente da França, Emmanuel Macron, prometeu em seu discurso de fim de ano que não haveria mais demoras “injustificadas”, após uma semana em que apenas 322 pessoas foram vacinadas. “Todo francês que quiser deve poder se vacinar”, afirmou Macron, ante as acusações de estar atrasando a vacinação para convencer o potente coletivo antivacina francês.

Atingida pela segunda onda, a Alemanha também vive o mal-estar, apesar de ter aplicado 78.000 doses em uma semana. Ante as queixas de alguns Estados, que denunciam não ter recebido os lotes esperados, o ministro da Saúde alemão, Jens Spahn, precisou pedir paciência. Spahn afirmou que a situação vai melhorar à medida que forem aprovadas as vacinas que estão nas últimas fases. Na próxima sexta-feira, de fato, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) prevê a aprovação da segunda vacina, a da Moderna. Bruxelas tem uma lista de pedidos de 1,3 bilhão de doses de seis empresas farmacêuticas (Pfizer-Biontech, AstraZeneca, Sanofi-GSK, Johnson & Johnson, CureVac e Moderna).

Com as capitais pressionando, Bruxelas decidiu esta semana comprar mais 100 milhões de doses da vacina da Pfizer e BioNTech. A segunda dessas empresas, cuja sede fica em Mainz (Alemanha), indicou a Bruxelas que se afaste da polêmica em seu país. Seu fundador, Ugur Sahin, criticou em entrevista a Der Spiegel a lentidão da Comissão Europeia e sua confiança de que todas as vacinas estariam disponíveis ao mesmo tempo. “Me surpreendeu”, afirmou. Sahin disse que a corrida entre a Europa e os EUA agora está criando um “gargalo” na produção.

A estratégia de Bruxelas foi selar acordos com seis das firmas cujos ensaios estavam mais avançados, para que todos os Estados membros tivessem a vacina ao mesmo tempo. No total, a UE assegurou 1,3 bilhão de doses, das quais a Espanha deve receber 10%. Inicialmente parecem mais do que o necessário, mas nem todas sairão ao mesmo tempo. A Johnson & Johnson prevê que seu produto esteja disponível em março, enquanto a Sanofi-GSK anunciou que sua vacina vai demorar e a CureVac poderia ter a dela no verão europeu.

Segundo a Reuters, Berlim agora espera que a EMA aprove com rapidez a vacina Oxford-AstraZeneca, que já tem sinal verde no Reino Unido. Somada às da Pfizer e da Moderna, totalizaria 680 milhões de doses, que chegariam de forma contínua. Mas o subdiretor da agência, Noël Wathion, esfriou essa expectativa numa entrevista ao jornal belga Het Nieuwsblad, ao considerar que os dados de que a EMA dispõe ainda não são suficientes para conceder uma autorização condicional.

Problemas de produção

A vacinação também não decolou nos EUA (na verdade, ocorreu o contrário), que encomendou em julho 600 milhões de doses da vacina da Pfizer-BioNTech. A comissária (ministra europeia) da Saúde, Stella Kyriakides, lembrou neste sábado à agência DPA que o “gargalo” não é um problema de falta de pedidos, e sim de falta mundial de “capacidade de produção”, o que inclui a BioNTech. De fato, os problemas na França e os primeiros dados que chegam da Espanha (a Catalunha só aplicou 10% das doses previstas e a Comunidade de Madri, 6%) sugerem que ali os problemas são de logística, não de abastecimento.

Kyriakides defendeu a opção europeia de “não colocar todos os ovos na mesma cesta” para não correr o risco de ficar sem vacina. Em qualquer caso, informou que a UE está disposta a acelerar o ritmo se for preciso. “Estamos negociando para obtermos mais doses de vacinas da BioNTech durante muito tempo, e novamente estamos preparados para ajudar a aumentar a capacidade de produção”, afirmou.

Rafael Vilasanjuan defende a estratégia de Bruxelas. “Normalmente, apenas 50% das vacinas que entram em fase 3 acabam sendo reguladas. Daí a diversificação”, diz o pesquisador. Segundo ele, quando foram assinados os contratos da AstraZeneca e da Johnson & Johnson, as possibilidades de que seus produtos tivessem êxito eram similares ― em relação ao tempo ― às da Pfizer e da Moderna.

“A UE está moldando seu arsenal de vacinas. Quanto mais vacinas e mais doses vierem para proteger mais cidadãos durante mais tempo, melhor. E cada uma deverá ir a um grupo específico”, afirma Amós García Rojas, presidente da Associação Espanhola de Vacinologia.

A dureza da segunda onda de contágios e o início da terceira fase que se anuncia no sul da Europa pressionam Governos e instituições comunitárias. Mas a academia insiste sobre o tempo recorde em que a ciência se prontificou, dando à sociedade produtos com elevada eficácia, acima inclusive de 90%.

Além disso, os cientistas pedem que não se percam de vista os objetivos por etapas das vacinas, que ainda devem demonstrar se são duradouras ou se exigirão outras doses periódicas para manter a imunização. “O primeiro [objetivo] deve ser acabar com a cara mais amarga da pandemia: as internações nas UTIs e as mortes”, diz García Rojas. Para Vilasanjuan, essas fases são claras: “O primeiro passo deve ser salvar a população de risco e reduzir mortes num período de três meses. O segundo, reduzir a sobrecarga do sistema de saúde. E o terceiro, já pensando em 2022, a imunidade necessária para voltarmos à normalidade.”

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