Epicentro da luta antirracista nos EUA, Minneapolis vive crise de segurança sete meses após morte de George Floyd

Enquanto mais de cem policiais estão de licença por estresse pós-traumático e observa aumento dos crimes, a cidade aprova por unanimidade uma polêmica redução do orçamento do criticado Departamento de Polícia

Alondra Cano, vereadora de Minneapolis, que pede redução da verba do Departamento de Polícia, em 7 de junho.
Alondra Cano, vereadora de Minneapolis, que pede redução da verba do Departamento de Polícia, em 7 de junho.Jerry Holt (AP)
Antonia Laborde
Washington -

O terremoto provocado pela morte de George Floyd em uma prisão brutal continua sacudindo Minneapolis sete meses depois. A Câmara Municipal aprovou nesta quinta-feira uma polêmica redução no orçamento do Departamento de Polícia apesar do grave aumento de crimes na cidade, que desde 24 de maio se tornou origem e epicentro da grande onda de manifestações contra o racismo. O corte agrada os ativistas que defendem menos recursos e poder para a polícia. Até 120 policiais estão de licença desde o caso Floyd, muitos deles alegando estresse pós-traumático. O prefeito democrata Jacob Frey havia ameaçado vetar o orçamento se a Câmara Municipal levasse adiante sua proposta “irresponsável” de reduzir o efetivo policial.

Desde o começo do ano a polícia registrou 532 vítimas de tiros, mais que o dobro de 2019. O roubo de automóveis aumentou 331% em relação ao mesmo período do ano passado e os crimes violentos quase 26%. O corte de 7,7 milhões de dólares (cerca de 38,7 milhões de reais) é uma mordida nos 179 milhões de dólares do orçamento do Departamento de Polícia, que já era 14 milhões de dólares inferior ao do ano passado devido à redução das receitas da cidade por causa da pandemia do coronavírus. Os recursos cortados irão para equipes de trabalho voltadas para a saúde mental e para contratar mais pessoal na seção de prevenção à violência, entre outras iniciativas.

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Mais de 300 moradores da cidade se inscreveram para discutir a proposta nesta quarta-feira com os vereadores. Enquanto alguns exigiam o desmantelamento da polícia, classificando seus membros de “terroristas” e “supremacistas brancos”, outros alertavam que era irresponsável despedir os policiais. Inicialmente a Câmara havia aprovado uma proposta para reduzir o efetivo policial de 888 para 750 agentes. Por pressão da prefeitura, recuaram e decidiram não mudar o número atual de policiais. O departamento já tem cerca de 120 baixas, muitas delas de policiais que afirmam sofrer de transtorno de estresse pós-traumático depois do verão marcado por distúrbios. “Acredite em mim, esta não é uma votação fácil, mas creio que é o correto”, disse Andrea Jenkins, vereadora que representa uma região do sul de Minneapolis onde morreu Floyd, símbolo da maior onda de protestos raciais em meio século.

Duas semanas depois que o então policial Derek Chauvin cravou o joelho no pescoço de Floyd durante nove minutos, a Câmara Municipal de Minneapolis prometeu desmantelar a polícia e construir um novo modelo de segurança. A proposta ficou pelo caminho depois que uma comissão municipal separada votou contra sua inclusão na cédula eleitoral de novembro para que os moradores pudessem decidir a favor ou contra. O que as autoridades conseguiram foi um acordo com a polícia para proibir o uso de técnicas de imobilização no pescoço com o joelho ou o braço.

Os quatro policiais implicados na morte de Floyd estão em liberdade aguardando o julgamento em março de 2021. No início de outubro, Chauvin, acusado de homicídio e homicídio em segundo grau, saiu da prisão depois de pagar uma fiança de um milhão de dólares.

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