Tabaré Vázquez

Morre Tabaré Vázquez, o primeiro presidente de esquerda da história do Uruguai

Ex-mandatário que chegou ao poder em 2005 com a Frente Ampla governou o país vizinho por dois mandatos. Ele lutava contra um câncer

Tabaré Vázquez e Mujica em feveireiro de 2020.
Tabaré Vázquez e Mujica em feveireiro de 2020.Matilde Campodonico / AP

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O ex-presidente do Uruguai Tabaré Vázquez, referência da esquerda latino-americana, morreu neste domingo aos 80 anos, de câncer de pulmão. “Hoje, às 3 horas (hora local), enquanto descansava em casa, acompanhado de alguns familiares e amigos, por causa da doença, Tabaré morreu”, escreveu esta madrugada no Twitter seu filho, Álvaro Vázquez, médico oncologista, como o pai. Segundo a família, não haverá velório, mas sim uma cerimônia íntima e um cortejo fúnebre que a partir deste meio-dia percorrerá parte da cidade de Montevidéu até o cemitério de La Teja, na zona oeste da capital.

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Tabaré Vázquez se tornou em 2005 o primeiro presidente de esquerda de seu país. Como líder da Frente Ampla, seu triunfo eleitoral pôs fim a décadas de hegemonia bipartidária de Blancos e Colorados, os dois grupos de centro-direita que dominaram a política uruguaia desde o retorno à democracia em 1985. Contra todas as probabilidades, a Frente Ampla permaneceu no poder por 15 anos, até março passado, com duas presidências de Tabaré Vázquez e uma de José Pepe Mujica, outra referência regional do progressismo latino-americano.

Em agosto de 2019, quando se aproximava do final do segundo mandato, Tabaré Vázquez anunciou que lhe haviam detectado um nódulo pulmonar com “características muito firmes” e que poderia ser “um processo maligno”. Cinco dias depois, foi submetido a uma intervenção que confirmou que o tumor era canceroso. Em dezembro, o Governo informou sobre a remissão do tumor e considerou o presidente curado. No mesmo mês, Vázquez chegou a viajar para a Argentina para participar da posse presidencial de Alberto Fernández. Em março, entregou a faixa presidencial ao seu sucessor, o conservador Luis Lacalle Pou. Na semana passada, os uruguaios souberam que a saúde de Vázquez se deteriorara rapidamente, resultado de uma “trombose profunda do membro inferior esquerdo” relacionada ao câncer, conforme explicou seu filho Álvaro.

Vázquez ocupou a presidência entre 2005 e 2010 e depois entre 2015 e 2020. Ele nasceu em uma família de classe média. Médico por formação, ele se tornou oncologista depois que seus pais e sua irmã morreram de câncer. Em 2005, quando iniciou seu primeiro mandato, já era referência médica no Uruguai. Uma de suas batalhas políticas mais relevantes foi a luta contra o fumo, a ponto de promover uma legislação contra o consumo de cigarros no Uruguai que lhe rendeu um processo milionário da Philip Morris no Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos (CIADI). Em 2016, o centro pronunciou-se a favor do país e obrigou a indústria a arcar com as despesas do processo.

Discreto e reservado, Tabaré Vázquez foi um presidente singular: sempre era comedido em suas aparições públicas, falava pouco e não usava as redes sociais. “Quando um presidente fala, um país fala, e o presidente não pode ir além de dizer as coisas que interessam às pessoas”, costumava dizer o ex-presidente uruguaio, parafraseando o francês François Mitterrand (presidente entre 1981 e 1995), de quem se confessava um admirador. Como governante, não teve a popularidade internacional de José Pepe Mujica, com quem compartilhou a Frente Ampla. Em seu país, entretanto, era muito respeitado e admirado até mesmo entre detratores. Mais moderado que o ex-guerrilheiro e sem seu carisma, Tabaré, como o chamavam no Uruguai, cultivou a ala mais ao centro da Frente.

Um mês antes de entregar o poder, Tabaré Vázquez foi ovacionado por uma multidão no bairro de La Teja, em Montevidéu, onde nasceu em janeiro de 1940. “Nada se conquista sozinho, o que foi conquistado nós fizemos juntos, com todos participando, trabalhando com a gente, convencendo, ganhando consciência “, disse então, sabendo que se despedia da presidência para sempre. Seu último comício também foi o ponto final de uma era política no Uruguai, com líderes octogenários agora em busca de renovação. “O legado que nossa Frente Ampla vai deixar ao povo uruguaio é um legado que temos que defender, apoiar, estar convencidos da importância que tem e que é acima de tudo isto que temos feito juntos”, disse, antes de se despedir com os olhos marejados. Tabaré Vázquez não quis ser hospitalizado e preferiu morrer em casa, com a família.

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