Pandemia de coronavírus

Europa recorre às velhas armas diante da segunda onda

Pandemia assola novamente os países europeus e força novas restrições. Boris Johnson impõe confinamento na Inglaterra depois de resistir vários dias às pressões

Clientes de um café em Bordeaux conversam ao ar livre na quarta-feira, durante o anúncio de um novo confinamento por Macron.
Clientes de um café em Bordeaux conversam ao ar livre na quarta-feira, durante o anúncio de um novo confinamento por Macron.PHILIPPE LOPEZ / AFP

Ela já chegou. A segunda onda − a temida volta com força da pandemia que apareceu em dezembro na China, forçou o confinamento de metade da humanidade, paralisou a economia e deixou mais de um milhão de mortos − se instalou na Europa, epicentro global do coronavírus no outono boreal deste longo 2020. Tudo parece um pesadelo, uma repetição do que se viveu entre março e maio, quando a primeira onda da covid-19 atingiu o continente.

Chegaram, mais uma vez, os confinamentos, as medidas mais eficientes disponíveis enquanto se espera pelas vacinas, mas com consideráveis custos sociais, psicológicos e democráticos. Mais uma vez, o risco de saturação dos hospitais e de mais morte e doença, embora − e a diferença não é pequena −, desta vez, com a experiência da onda anterior, maior capacidade de fazer testes e melhor conhecimento científico sobre o vírus e os tratamentos.

Aviso aos leitores: o EL PAÍS mantém abertas as informações essenciais sobre o coronavírus durante a crise. Se você quer apoiar nosso jornalismo, clique aqui para assinar.

Mais uma vez, a impressão de que teria sido possível prever o que se aproximava, de que os governantes voltaram a ser superados pelos acontecimentos e, finalmente, forçados a impor no último minuto as restrições arcaicas usadas desde tempos imemoriais, quando não existiam remédios médicos.

“Devemos ser humildes diante da força da natureza”, disse no sábado o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, ao anunciar um novo confinamento nacional na Inglaterra − Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte têm autonomia nesta crise sanitária −, depois de resistir vários dias às pressões de seus próprios cientistas. “Neste país, assim como no resto da Europa, o vírus está se propagando mais rápido até mesmo do que o previsto nos piores cenários”, acrescentou.

Johnson é o líder mais recente a se somar aos confinamentos e a outras medidas adotadas para restringir a liberdade de movimento diante do avanço incontrolável de uma segunda onda que, segundo o presidente francês, Emmanuel Macron, “será sem dúvida mais dura e letal do que a primeira” e deixa os europeus “sobrecarregados”. Sobrecarregados e exaustos, como disse a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao falar de um “duplo inimigo”: o coronavírus e o cansaço devido ao vírus e às medidas preventivas.

A segunda onda evidencia as falhas na desescalada após a primeira onda: a estratégia de testes, rastreamento e isolamento visivelmente não funcionou em todos os países. Isso desperta dúvidas sobre a capacidade das democracias ocidentais para administrar uma crise destas dimensões. O golpe econômico e moral: uma volta ao ponto de partida. Se na primeira onda o livro da moda foi o romance A Peste, de Albert Camus, nesta poderia ser um ensaio do mesmo autor, O Mito de Sísifo, personagem da mitologia grega condenado a empurrar uma rocha até o alto de uma montanha e a ver como, ao se aproximar do topo, a rocha cai e ele precisa voltar a empurrá-la eternamente.

Macron anunciou na quarta-feira um novo confinamento, um pouco menos rígido que o do primeiro semestre, já que, como o de Johnson, permite a abertura das escolas. No sábado, Áustria e Portugal também anunciaram restrições. O objetivo dessas medidas é frear a expansão acelerada do vírus no continente, que responde por quase metade dos novos casos confirmados no mundo e por um terço das novas mortes.

“Se deixarmos que as coisas avancem sem freio, caminharemos para a catástrofe, para uma saturação insustentável dos sistemas de saúde”, diz o epidemiologista Antoine Flahault, diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Genebra, na Suíça. “Não há alternativa. É preciso tomar medidas contundentes, medidas que toda a Europa está tomando neste momento.”

Na Alemanha, no mesmo dia em que Macron anunciava o novo confinamento, a chanceler (chefa de Governo) Angela Merkel pactuava com os Estados federados o fechamento parcial da vida pública a partir desta segunda-feira. Os bares e restaurantes fecharão, exceto para vender comida para viagem. Os eventos culturais serão cancelados e os esportistas profissionais jogarão a portas fechadas. As escolas continuarão abertas, assim como as lojas, desde que os clientes respeitem o distanciamento físico.

A Alemanha informou no sábado que foram registradas 19.059 infecções e 100 mortes nas 24 horas anteriores, um novo recorde nesse país de 83 milhões de habitantes que despertou a admiração internacional por sua gestão da pandemia. “É preciso agir agora”, disse Merkel.

Não há país que resista

Na segunda onda, não há país que resista. Nem os da Europa Central e Oriental, região menos afetada pela primeira onda. Na República Checa, um de cada três testes de covid-19 dá positivo. É o país europeu com mais pacientes hospitalizados por 100.000 pessoas.

Na Itália, que atravessou o verão boreal (inverno no Hemisfério Sul) sem sobressaltos, a epidemia está disparando. Em algumas áreas, a ocupação de leitos hospitalares passou de 40%. Os cinemas, teatros e academias em todo o país estão fechados há uma semana, e os bares e restaurantes têm de fechar as portas às 18h. Em várias cidades, essas restrições provocaram protestos que, em alguns casos, acabaram em distúrbios. Regiões como Lácio, Campânia, Lombardia, Calábria e Sicília decretaram toque de recolher noturno.

No Reino Unido, o número de mortes diárias por covid-19 é de cerca de 300. Mais de 60.000 pessoas já morreram devido à doença. Pelas restrições anunciadas no sábado, que entram em vigor na quinta-feira e se estenderão até 2 de dezembro, os pubs, bares e restaurantes permanecerão fechados. As lojas e outros estabelecimentos comerciais, exceto os que vendem bens de consumo necessários, suspenderão sua atividade. A recomendação é de que as pessoas fiquem em casa e optem pelo teletrabalho. O Governo quer manter abertas, a todo custo, as escolas e universidades.

“Estamos correndo atrás do vírus e, por enquanto, o vírus corre mais rápido que nós”, constata François Heisbourg, conselheiro do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. “No que diz respeito aos Governos francês, espanhol e britânico, fica claro que estão adotando as medidas adequadas com uma ou duas semanas de atraso, e costumam ser as semanas cruciais. Em grande parte, isso explica por que os números de mortos são mais altos do que em outros lugares. Mas mesmo países sem esse atraso, como Alemanha, Polônia e República Tcheca, sofrem uma segunda onda mais forte que a primeira. E o fim não está à vista.”

Tudo está indo rápido. Há poucas semanas, expressões como toque de recolher e confinamento eram tabu. Há seis meses, ao final do primeiro confinamento domiciliar, foi anunciada uma “nova normalidade”. “O mais duro passou, o mais difícil ficou para trás”, dizia em maio o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez. Um mês depois, no fim da desescalada francesa, Macron comemorou “esta primeira vitória contra o vírus”. Mas chegou o verão europeu. E muitos baixaram a guarda. Os cidadãos? Os Governos?

“Custo a aceitar a noção de erro em relação à gestão das epidemias. Em uma democracia, a política é o reflexo da opinião pública”, diz Flahault. “Quando uma grande parte da população decide ir à praia, aos bares e restaurantes e celebrar um pouco a liberdade reencontrada, é difícil impor a ela algo mais do que colocar a máscara no trem e no ônibus.”

Chegam as medidas

As medidas restritivas acabaram chegando, mas a Europa aprendeu alguma coisa: uma característica comum nos novos confinamentos é a vontade de manter abertas, na medida do possível, as atividades educacionais e econômicas. Em meio a uma pandemia que nunca termina, é arriscado tirar conclusões sobre o impacto geopolítico, sobre os efeitos na credibilidade do modelo europeu após uma gestão desigual.

“Em abril, durante a primeira onda, eu teria dito que a Europa não estava reagindo de forma solidária. Agora acho que não temos esse problema. É o que demonstra a resposta europeia, com o plano de recuperação no valor de 750 bilhões de euros [5 trilhões de reais] adotado em julho. Os avanços destes meses são históricos”, afirma Nathalie Tocci, diretora do Instituto de Assuntos Internacionais em Roma. “Talvez no verão devêssemos ter nos coordenado quanto aos confinamentos da segunda onda. A responsabilidade não é tanto das instituições europeias, mas sim dos Estados membros.”

“Por enquanto, podemos dizer que a China não está tão mal quanto outros países, mas não sabemos onde estaremos daqui a um ano”, aponta Heisbourg. “Os chineses também não sabem, o que explica por que a China está muito nervosa com este assunto. A partir do momento em que são detectados alguns casos em uma cidade, como em Qingdao há alguns dias, todos os habitantes são testados para tentar esmagar o vírus antes que ele se espalhe de novo. Os chineses têm consciência da fragilidade da situação, e isso é realmente uma vantagem. Talvez nós não tenhamos medo suficiente.”

Com informações de Ana Carbajosa (Berlim), Rafa de Miguel (Londres) e Lorena Pacho (Roma).

Siga a cobertura em tempo real da crise da covid-19 e acompanhe a evolução da pandemia no Brasil. Assine nossa newsletter diária para receber as últimas notícias e análises no e-mail.

Mais informações

O mais visto em ...

Top 50