Argentina retira candidato para o BID e abre caminho para avanço de Trump sobre o órgão

Buenos Aires propõe abstenção, o que não deve impedir a eleição do norte-americano Mauricio Claver-Carone para a chefia da entidade na assembleia deste sábado

Alberto Fernández e Gustavo Béliz, em 2019.
Alberto Fernández e Gustavo Béliz, em 2019.Tomás Cuesta (GETTY)
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Mauricio Claver-Carone (1-09-2020). Foto Xavier Dussaq
Entrevista a Mauricio Claver Carone, candidato de EEUU al BID. Me dicen que hay foto de  Xavier Dussaq,
“A eleição tem que acontecer. O BID precisa preencher vazio que está sendo ocupado pela China”
FILE PHOTO: A man stands next to a screen with the logo of Banco Interamericano de Desarrollo (BID) at the Atlapa Convention Center in Panama City March 13, 2013. Panama held the 2013 annual meeting for Boards of Governors of BID, also known as the Inter-American Development Bank (IDB).. REUTERS/Carlos Jasso (PANAMA - Tags: BUSINESS LOGO)/File Photo
Candidato de Trump à chefia do BID acusa Argentina de tentar “sequestrar a eleição” do novo presidente
Washington (United States), 14/08/2020.- Mauricio Claver-Carone, senior advisor to US President Donald J. Trump on Latin America, prepares to speak at an interview on the North Lawn of the White House in Washington, DC, USA 14 August 2020 (made available 15 August 2020). President Trump has nominated Claver-Calone to lead the Inter-American Development Bank. (Estados Unidos) EFE/EPA/JIM LO SCALZO
Mais 22 ex-presidentes e premiês aderem à petição pelo adiamento da escolha do novo chefe do BID

A dois dias da eleição do novo presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Governo de Alberto Fernández decidiu que não apresentará candidato, assumindo a derrota da Argentina na tensa disputa no órgão. Gustavo Béliz, que foi funcionário do banco até 2019, desistiu na quinta-feira à noite da corrida solitária que travava contra Mauricio Claver-Carone, o homem escolhido por Donald Trump para esse cargo. Se não houver reviravoltas de última hora, os países membros elegerão Claver-Carone neste sábado, pondo fim a uma tradição de 60 anos que reserva esse posto a um latino-americano.

Buenos Aires tentou até a última hora bloquear o triunfo de Claver-Carone. Durante semanas procurou aliados para evitar que a assembleia tivesse quórum, única forma possível de adiar a eleição até março, numa aposta de que até lá Trump não estará mais na Casa Branca. Mas jogou a toalha nesta semana, quando ficou evidente que não conseguiria somar 25% de ausências, percentual estabelecido para o adiamento. Em um comunicado divulgado pelo Twitter, o Executivo argentino anunciou sua decisão de “se abster na votação que ocorrerá no próximo sábado para eleger o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento”. Não dará seu voto ao candidato de Trump, mas estará presente na assembleia em Washington.

Perdida a esperança do bloqueio, a Argentina conclamou os demais países a também seguirem o caminho da abstenção, numa tentativa de reduzir a legitimidade de Claver-Carone como novo presidente. “Também ecoamos o caráter inoportuno da realização [da assembleia], em meio a uma pandemia que não permitiu um debate adequado e tranquilo sobre o futuro do BID e, muito pelo contrário, corre o risco de aprofundar a divisão em nossa região”, acrescentou o Governo argentino.

Uma longa batalha diplomática

A eleição do presidente do BID sempre foi motivo de disputas, mas nunca tão intensas como agora. A Argentina promoveu a candidatura de Gustavo Béliz, e a Costa Rica apresentou a da ex-presidenta Laura Chinchila. Então se interpôs Trump, que dinamitou seis décadas de jurisprudência diplomática e propôs Claver-Carone. O homem de Washington conseguiu imediatamente os votos necessários para ganhar. A Argentina impulsionou então uma tática de bloqueio que pareceu improvável, até que o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, enviou uma carta aos países da UE manifestando apoio ao adiamento da votação como a melhor saída para evitar o candidato de Trump. A possibilidade de que a Europa acompanhasse a Argentina terminou por convencer o Chile e depois o México, sempre sob o argumento de que a eleição de um novo presidente do BID merecia uma reunião presencial, e não remota, como impõem as restrições da pandemia.

 Mauricio Claver-Carone, indicado por Donald Trump para a chefia do BID.
Mauricio Claver-Carone, indicado por Donald Trump para a chefia do BID. JIM LO SCALZO (EFE)

Os votos no BID são nominais, mas seu peso vale pela percentagem que cada país representa dentro da instituição. Claver-Carone tem a vitória assegurada graças aos apoios dos Estados Unidos (30% dos votos), Brasil (11,3%), Colômbia (3,1%) e outros países latino-americanos já comprometidos com a proposta de Washington. A chave da manobra argentina consistia em evitar que se reúna o quórum mínimo de 75% necessário para validar a votação. Se todos os países da União Europeia (9,3%) não participassem, junto com os votos da Argentina (11,3%) e Chile (3,1%), a falta de quórum ficaria ao alcance. Faltava definir a posição do México, que tem 7,2% de participação.

Laura Chinchila, que se apresentava como nome de consenso, retirou sua candidatura na quinta-feira da semana passada. Vista em perspectiva, foi o primeiro sinal de que a posição comum contra Claver-Carone se rachava, deixando o argentino Béliz como única alternativa possível frente ao homem de Trump. A disputa se reduziu então a um jogo entre duas partes. O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, prometeu ao seu colega argentino, Alberto Fernández, que daria seu voto a Béliz. Apoiou também a ideia de adiar a votação, mas não ficava claro se isso incluía a estratégia de não garantir quórum.

A confirmação de que o México estará presente na assembleia foi anunciada na quinta-feira pelo subsecretário de Fazenda, Gabriel Yorio, que informou à Reuters que o esforço para adiar a eleição não prosperou. “A posição do México era dar um tempo para discutir [a nomeação no BID], mas parece que isso não vai acontecer. Aparentemente a votação acontecerá no fim de semana”, disse Yorio, conforme relata Sonia Corona. Sem uma frente comum latino-americana, a Europa tampouco se mobilizou, porque nunca foi sua intenção agir como árbitro na disputa latino-americana. Na noite de quinta-feira, a Argentina assumiu a derrota e desistiu do seu candidato.

“Não houve uma posição franca e comum dos países contrários à nomeação de Claver-Carone”, aponta uma fonte envolvida no processo desde o primeiro minuto, informa Ignacio Fariza. “A sensação é de que ficamos andando em círculos. Desde que os EUA apresentaram um candidato, sabíamos que seria muito difícil, mas a decepção é enorme: merecemos o que vai acontecer. A região é a única responsável: nós procuramos.” Claver-Carone já não tem mais obstáculos para a presidência. O avanço de Trump sobre o BID logo estará consumado.

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