Planeta Futuro

Menos concreto e mais água potável para a América Latina e o Caribe

Relatório do BID sugere investimentos em serviços de saneamento, energia e transporte para reduzir a desigualdade e garantir a prosperidade da região

Trabalhador do Unicef ​​verifica sistema de purificação de água reabilitado pela organização em Táchira (Venezuela) em junho de 2020.
Trabalhador do Unicef ​​verifica sistema de purificação de água reabilitado pela organização em Táchira (Venezuela) em junho de 2020.
Paracuellos de Jarama (Espanha) - 26 ago 2020 - 18:20 UTC

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Don’t think of an elephant [Não pense em um elefante] é um dos livros mais populares do linguista George Lakoff. Basta pronunciar o título para evocar inevitavelmente o animal, mesmo que ele peça para não o fazer. Algo semelhante acontece quando se fala em infraestrutura: aeroportos, pontes, barragens, túneis... Resumindo, concreto e aço vêm à mente. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) busca mudar esse vínculo e fazer com que os líderes latino-americanos e caribenhos falem sobre infraestrutura —e a importância de se investir nela— para pensar em melhorar os serviços de água e saneamento, eletricidade e transporte.

Em seu relatório Das estruturas aos serviços: o caminho para uma melhor infraestrutura na América Latina e no Caribe, divulgado em julho, a agência destaca que a alocação de mais recursos públicos e privados para garantir o acesso, a qualidade e a acessibilidade desses serviços essenciais é fundamental para reduzir a desigualdade e garantir a prosperidade da região nos próximos anos. Hoje, metade das famílias mais pobres gasta 14% de sua renda em água, energia e transporte público, o que é 30% a mais do que em outras regiões em desenvolvimento. “Na medida em que haja um aumento da eficiência nos serviços e uma queda nos preços, a renda dos setores mais pobres aumentaria 28% a mais em média do que a renda dos setores mais abastados em 10 anos”, afirma o estudo.

“A América Latina e o Caribe precisam investir mais em infraestrutura. Entre 2008 e 2017 destinou-se apenas 2,8% do PIB em média ao ano, metade de outras regiões emergentes como Leste Asiático e Pacífico, que investiram 5,7%”, diz Tomás Serebrisky, economista setorial consultor do Departamento de Infraestrutura do BID e um dos autores do relatório. “Precisamos de mais para sair da armadilha do baixo investimento”, ele continua em uma conversa por telefone. Segundo seu estudo, a região deve destinar entre 4% e 7% do PIB em infraestrutura a cada ano.

Só assim, diz o documento, o acesso à eletricidade ou ao sistema de água e saneamento pode ser universalizado. “Em 2019, 86% da população rural da América Latina e Caribe tinha acesso a uma fonte de água segura, segundo uma definição que entende que um domicílio tem acesso se tiver uma fonte de água localizada a até 15 minutos de distância a pé de casa. No entanto, quando se utilizam padrões mais exigentes, como ter água da rede em casa, a proporção da população rural com acesso é reduzida para 55%. Da mesma forma, se consideramos residências que possuem ligação de esgoto ou fossa séptica, ainda existem 45 milhões de pessoas na América Latina sem acesso”, descrevem os autores no documento.

O planejamento e a priorização de projetos são essenciais para construir o que é realmente necessário e o que gera os maiores benefícios sociais.

Mas injetar dinheiro não é suficiente, deve ser feito com “eficiência”, enfatiza Serebrisky. “Para cada dólar, 35 centavos se perdem em ineficiências como atrasos, sobre custos, falta de manutenção, má escolha de fornecedor... Dado que investimos pouco, vamos fazer direito”, afirma o especialista do BID. Novamente, o exemplo de água e saneamento é ilustrativo, explica Serebrisky. “Perdemos 40% da produção até o usuário. No processo de trazer da fonte, torná-la potável e distribuí-la. Devido a estragos, devido à má manutenção.” O mais eficiente, nesse caso, é investir em manutenção e reparo, e não tanto na construção de novas estruturas. E quando este último for essencial, a qualidade do investimento deve ser melhorada, observam os pesquisadores. “Desde o planejamento e desenho das obras, passando pela construção (contratação e fiscalização das obras), e chegando à manutenção das obras em operação”, destacam.

“O planejamento e a priorização de projetos são essenciais para construir o que é realmente necessário e o que gera os maiores benefícios sociais”, diz o relatório. Nesse sentido, Serebrisky reflete que é preciso focar “no que as pessoas precisam”, como o transporte, por dois motivos: porque a sociedade exige e pelas mudanças climáticas. Em relação ao primeiro, o especialista do BID lembra os protestos que vinham ocorrendo na região antes que a nova pandemia do coronavírus chamasse a atenção do público. “No Chile, o gatilho foi o aumento da tarifa do metrô; no Brasil, o aumento do preço do ônibus; e no Equador, o aumento do preço do combustível”, resume. Quanto ao segundo, o especialista é contundente: “A infraestrutura tem a obrigação de mitigar e se adaptar às mudanças climáticas”. E é melhor fazer desde a fase de planejamento, esclarece. A infraestrutura será mais cara de construir, mas mais barata a longo prazo, pois não terá mais que se adaptar aos impactos do aquecimento global no futuro.

Um investimento de qualidade servirá para ampliar os serviços, que também serão melhores. “As expectativas das pessoas não são mais as mesmas. Em 2020, América Latina e Caribe não basta ter acesso a um ônibus moderno se chega atrasado e se viaja superlotado e se o custo da passagem para o mês é equivalente a 10% do salário mínimo. Não basta ter torneira na cozinha se a qualidade da água é tão duvidosa que é necessário comprar água engarrafada para beber e cozinhar. Não basta estar ligado à rede elétrica se forem produzidas todas as semanas apagões que danificam eletrodomésticos”, mostram os autores. Aqui eles já apontam, além disso, a importância de tornar os serviços acessíveis. Segundo dados coletados pelo BID, 40% dos decis mais pobres fazem seu trajeto principal a pé. Esse percentual cai para 10% no decil mais rico da população. “Não é que os pobres gostem de caminhar, é que eles não podem pagar pelo transporte”, lamenta Serebrisky.

Embora os desafios da região sejam importantes, principalmente no que se refere ao acesso à água e ao saneamento, “nem tudo são más notícias”, afirma o especialista. Existem muitos exemplos de bons investimentos. De acordo com o estudo do BID, alguns deles estão na área de transporte, como ônibus de transporte rápido —uma invenção brasileira— ou teleféricos para conectar áreas altas das cidades —normalmente onde vive a população mais pobre— com o resto da cidade. Mas também o acesso à eletricidade “é uma história que pode ser considerada um sucesso na América Latina”, acrescenta o relatório. “A combinação de investimentos para expansão da rede e soluções off-grid que chegam às localidades mais remotas, aproximaram a região da universalização do acesso à eletricidade”, afirmou. Apontam os pesquisadores. “A região pode inovar com sucesso para melhorar os serviços. Melhorar o acesso, a qualidade e a acessibilidade dos serviços não é apenas uma aspiração dos especialistas”, enfatizam. “E agora é a hora”, finaliza Serebrisky.

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