Entrevista | Prêmio Nobel de Literatura

Svetlana Aleksiévitch: “A qualquer momento, podem bater à porta e vir me prender”

A Nobel de Literatura, que aderiu ao movimento contra Lukashenko, fala sobre os protestos nesta entrevista de sua casa em Minsk. A autora foi convocada para depor na quarta-feira

A Prêmio Nobel de Literatura bielo-russa Svetlana Aleksiévitch, no Hay Festival, em 2016.
A Prêmio Nobel de Literatura bielo-russa Svetlana Aleksiévitch, no Hay Festival, em 2016.David Levenson / Getty Images

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“A qualquer momento podem bater na porta e vir me prender. Precisamos da ajuda do mundo civilizado”, declarou a escritora bielo-russa Svetlana Aleksiévitch nesta segunda-feira, por volta do meio-dia, de seu apartamento com uma vista magnífica do lago no centro de Minsk, em entrevista por telefone ao EL PAÍS. A conversa transcorre por WhatsApp no horário previsto, conforme combinado. 

Os problemas com telefones e a Internet na Belarus acabaram não sendo um obstáculo. Por várias semanas, Aleksiévitch, de 72 anos, não atendeu aos telefonemas nem respondeu e-mails ou mensagens nas redes sociais, nem mesmo de amigos. Poucas pessoas em Minsk conseguiram chegar até uma das mais conhecidas cidadãs bielo-russas no mundo, a Prêmio Nobel de Literatura, que soube transmitir as tragédias e derrocadas na agonia da URSS.

Agora, ela mesma está submersa em uma tempestade que é também um capítulo, e certamente não o último, daquele processo de desmoronamento imperial ainda inacabado. Belarus está enfrentando os maiores protestos contra o líder do país, Aleksandr Lukashenko, em seus 26 anos no poder. [Horas depois da conversa, a Reuters informou que a autora foi chamada para depor nesta quarta-feira no processo criminal aberto contra o órgão que coordena a oposição, do qual ela faz parte].

“A situação mudou muito desde este domingo. Mais de 200.000 pessoas foram às ruas, mas nesta segunda-feira de manhã já começaram coisas cruéis. Prenderam dois membros do Conselho de Coordenação da oposição e disseram que vão demitir todos os professores que não compartilham a visão do Estado, ou seja, de Lukashenko”, afirma a escritora. “O que está acontecendo é um pesadelo”, continua, e alerta que, como os membros do Conselho de Coordenação são alvo de uma investigação criminal, qualquer conversa com a imprensa pode ser enquadrada nessa investida.

Nunca antes tantas pessoas tinham saído às ruas de Minsk como neste domingo. “Essa é a impressão, mas depois o presidente apareceu com o fuzil automático e com seu filho, Kolia, que é um menino de 15 anos de quem não há o que falar porque os filhos são reféns dos pais. Quando o vi achei que mergulhamos juntos em um precipício de loucura. E o mais importante é que estamos indefesos. O que acontece é horrível”, acrescenta.

“Senti que estão chegando tempos longos e ruins”, continua Aleksiévitch, resumindo a impressão do dia de domingo. “Não sei como, mas com as forças internas e sem ajuda externa não podemos superar a situação”, afirma. Lukashenko indicou sua vontade de continuar lutando e manter o embate. “A qualquer momento podem bater na porta e vir me prender”, declara.

O que você espera do mundo civilizado? “Que nos ajudem. Não sei como. Talvez influenciar Putin. Não sei. Não podem nos deixar sozinhos”, reitera.

Ao lado da escritora, durante esta conversa, está uma amiga muito preocupada com o destino de Aleksiévitch. A amiga observa os perigos que corre a premiada autora por falar à imprensa internacional. Mas ela lhe pede que não nos interrompa. Não se acalma. Sua compreensível e crescente ansiedade é o pano de fundo que acompanha o diálogo. “Precisamos de alguma ajuda da sociedade intelectual avançada do mundo”, sugere.

“Tentaram se comunicar com Putin de alguma forma? Aleksiévitch considera a pergunta “ingênua”. “Como fazer isso? É ridículo. Os dois estão juntos (Putin e Lukashenko)”, diz. Lukashenko também se recusou a falar com o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel.

A autora teme que Lukashenko consiga sufocar o movimento. “Não sei o que vai acontecer no próximo domingo, se as pessoas vão poder sair assim, porque está em curso uma repressão total. Demitem os trabalhadores, demitem metade da força de trabalho. O país se dividiu e não importa que centenas de milhares de pessoas tenham se manifestado em Minsk. Também saíram às ruas em outras cidades, mas nelas são camicases, porque não são tantos. Nossa sociedade civil ainda não tem as forças necessárias para alcançar a democracia”, pondera.

Na cidade de Grodno, fuzileiros navais bielo-russos participaram dos protestos. “É verdade”, admite, “são imagens impressionantes, mas são casos isolados”, diz a Nobel, que avalia que os órgãos de força (militar, policial e de segurança) de Belarus não estão divididos.

“Só queremos eleições limpas, nas quais Lukashenko pode participar, mas ele não quer dialogar nem conosco nem com a sociedade. Não queremos lutar uns contra os outros. As autoridades entenderam que o fato de a manifestação ter retornado ao chegar diante das barreiras de segurança é um sintoma de nossa fraqueza. Não entenderam a nossa filosofia, que não queremos violência, que só queremos soluções pacíficas”, enfatiza.

Lukashenko aparentemente chegou a acusar os manifestantes de “fugir como ratos” em sua mobilização. “Tudo o que vemos é uma luta contra o próprio povo. Qualquer presidente comparecer diante da sociedade e anunciar eleições livres para que o povo escolha quem quiser”, afirma a autora.

A situação em Belarus é perigosa. “E não só para nós, mas também para o mundo porque, se é possível agir assim, muitos ditadores poderão imitá-lo”, ressalta.

Não restaria talvez alguma esperança procedente da Rússia? “Por acaso a Rússia precisa de uma Belarus livre? Por acaso a Rússia quer nossa vitória? Se isso acontecesse, os russos se perguntariam sobre si mesmos e (se perguntariam) por que estão assim, e então lá começaria o mesmo que aqui. Então, isso está excluído e não há nada a dizer. Por mais que o odeiem, Lukashenko, de todo modo, é seu. Nós também achávamos que haveria um consenso na sociedade e que encontraríamos um presidente de transição que pudesse administrar eleições livres, mas isso não aconteceu”, afirma. “Entendi isso neste domingo, quando vi a enorme fila de veículos militares em todas as ruas de Minsk e os fardados em seu interior. Os militares entraram na cidade, e o ministro do Interior já avisou que teríamos que nos ver com o Exército.”

Aleksiévitch não quer deixar Belarus, mas claramente corre perigo, apesar de muitas pessoas e organizações dispostas a sair em sua defesa. Hoje, a escritora vive o destino do seu povo e daquela sociedade que em maio passado ela qualificou como “adormecida”, que desperta e a deixa orgulhosa. “Estou apaixonado pelos bielo-russos. Acho que são gente magnífica, mas estão em uma situação duríssima. Tentam fazer algo, mas dificilmente podem fazer sozinhos. Precisam de ajuda, mas não sei qual”, sentencia.

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