EUA x China: cenários da nova guerra fria

As duas superpotências do século XXI avançam em um pulso pela hegemonia cada vez mais intenso e repleto de perigos

Pequim, Washington, Madri, Bruxelas, Cidade do México - 27 Jul 2020 - 21:53 -03

Três décadas depois da queda do muro de Berlim, as duas superpotências do século XXI parecem lançadas a uma nova guerra fria. Os Estados Unidos e a China avançam em uma espiral de ameaças, sanções e acusações de espionagem de consequências imprevisíveis, para eles mesmos e para o resto do mundo. Do confronto nos âmbitos comerciais e tecnológicos à competição armamentista e a luta pela influência nos diversos continentes, os dois gigantes protagonizam uma disputa pela hegemonia global repleta de perigos e de final incerto.

O duelo pela hegemonia global que deixa o mundo apreensivo

MACARENA VIDAL LIY (PEQUIM) / AMANDA MARS (WASHINGTON)

Um regime autocrático contra uma democracia. Um enorme leque de hostilidades em todos os âmbitos, geográficos e setoriais. Espionagem, propaganda, força militar, símbolos, a história, dizem, se repete; parece ser verdade. A Guerra Fria do século XX entre o Kremlin e a Casa Branca ameaça voltar no século XXI, dessa vez entre o antigo vencedor, os EUA, e a nova potência em ascensão, a China. Nas últimas duas semanas, os dois levaram ao paroxismo um frenético baile de disputas, choques, ameaças e sanções, fechamento de consulados, acusações de espionagem e vetos de viagens, em que o passo de um foi respondido pelo outro em uma simetria tão perfeita como inquietante. Um perigoso duelo a um ritmo cada vez mais intenso, de duração e final ainda imprevisíveis. E que, seja na hora de escolher a tecnologia 5G, decidir sistemas de defesa e votar resoluções internacionais, ameaça arrastar – como na primeira Guerra Fria – o restante dos países a um e ao outro lado da pista de dança.

Há, entretanto, uma diferença radical em relação à Guerra Fria que se desenvolveu durante a segunda metade do século XX. A antiga URSS nunca foi a potência econômica que é a China, e os dois países à época em disputa não estavam tão interconectados financeira e produtivamente como estão agora as duas maiores economias do mundo. “Para mim, isso significa que essa guerra vai durar pelo menos tanto como aquela ou até mais. Sei que não é uma perspectiva muito bonita, mas é a que vejo”, diz Gary Hufbauer, especialista do Instituto Peterson de Economia Internacional e, principalmente, um veterano da primeira linha de fogo daquela interminável contenda com Moscou. Hufbauer, alto escalão do Tesouro dos EUA no final dos anos setenta, considera que “como aconteceu na Guerra Fria, os dois lados procurarão aliados para se reforçar, mas a China tem mais habilidade para isso. A Rússia atraiu aliados com a ocupação militar. Pequim não precisa, [o presidente chinês] Xi Jinping está usando a economia para colocar os outros países em sua órbita”.

O calibre das fricções é tal que ninguém mais minimiza sua relevância. As relações “enfrentam seus maiores problemas”, desde que os dois países estabeleceram laços diplomáticos plenos em 1979, reconheceu recentemente o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Li. “A relação com a China está muito prejudicada”, declarou o presidente norte-americano, Donald Trump. O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, declarou o fim da política de aproximação, ao clamar que “o mundo livre deve triunfar contra essa tirania”.

Paradoxalmente, essa grave deterioração ocorre apenas seis meses após os dois países assinarem em 15 de janeiro, com toda a pompa e circunstância na sala Leste da Casa Branca, entre aplausos e alvoroço, o acordo que deveria acabar com todos os desentendimentos entre eles, a primeira fase de um pacto para colocar um fim na guerra comercial que combatiam desde 2018.

A pandemia de covid-19 fez esse projeto saltar pelos ares, e trouxe novamente à luz as tensões que a assinatura do acordo comercial havia escondido debaixo do tapete. Tensões baseadas em uma enorme desconfiança mútua, de raízes históricas e ideológicas e que as recriminações em torno da origem e da gestão do vírus colocavam de novo em primeiro plano. A rivalidade, ficou claro, é sistêmica e se estende a todos as áreas.

A competição é pela influência mundial – a China, com sua iniciativa da Nova Rota da Seda, os Estados Unidos com o peso de seus 75 anos como superpotência –; pela inovação em áreas como a inteligência artificial e os veículos elétricos; na corrida espacial – ambos estão enviando missões a Marte com dias de diferença – e no armamento ultramoderno, seja termonuclear, convencional e quântico. Agora, também, para conseguir a vacina que ajuda a resolver a mais grave crise deste século.

A primeira estratégia de Segurança Nacional da Administração de Trump, apresentada em dezembro de 2017, apontava a China e a Rússia como rivais que ameaçavam a prosperidade e os valores dos Estados Unidos. “Após ter sido descartada como um fenômeno do século passado, a competição entre grandes poderes voltou”, dizia o documento, recuperando a linguagem da corrida entre superpotências.

As bases da disputa atual que hoje parece estar fervendo estavam, em resumo, já explicitadas no diagnóstico do Governo de Trump quando ainda não havia completado um ano. A sintonia que o republicano gostava de mostrar em relação a Xi Jinping, por mais desconcertante que fosse (chegou a elogiar a reforma constitucional do líder chinês para se perpetuar no poder), nunca significou superar conflitos. Agora, os dois estimulam a guerra contra o outro e obtêm, em boa parte, créditos políticos em casa.

A lista de desencontros, invectivas e represálias recíprocas aumentou sem trégua nos últimos meses. Restrições mútuas de entradas a funcionários em torno ao Tibete e Hong Kong, onde uma nova lei de Segurança Nacional imposta pela China anula, de acordo com os Estados Unidos, a ampla autonomia do enclave. Sanções recíprocas pela situação da minoria muçulmana uigur na região de Xinjiang, onde Washington – e numerosos especialistas – denunciam terríveis abusos dos direitos humanos. Previamente, cada um também havia expulsado jornalistas e imposto limites aos vistos de correspondentes do outro.

Ambos se chocam no mar do Sul da China, onde Pequim pede a maior parte das águas e Washington declarou ilegais as alegações de soberania chinesas. Ganha nova vida o diálogo de Segurança Quadrilateral (Quad) – o foro informal de defesa entre o Japão, Austrália, EUA e a Índia na região Ásia-Pacífico – em meio às tensões fronteiriças da China com seus vizinhos. Discutem por seu armamento nuclear: a Casa Branca deseja que a China diminua seu arsenal, enquanto o gigante asiático responde que se sentará para negociar “se os Estados Unidos estiverem dispostos a reduzir [o seu]” a seu nível. Washington e Taipei se aproximam, para irritação do Governo de Xi Jinping, que considera Taiwan parte inalienável do território chinês e seu interesse primordial.

No campo da tecnologia, há mais de um ano se arrasta a disputa sobre a Huawei, o gigante chinês do qual os EUA suspeitam que pode agir como cavalo de Troia nos terminais e nas redes 5G ocidentais; uma disputa em que Washington pressiona seus aliados para que recusem as ofertas chinesas e que em Pequim é vista como uma tentativa de neutralizar um competidor que tomou a dianteira. Somente o acordo comercial continua em andamento por enquanto, ainda que preso por um fio e apesar de Trump declarar que não tem nenhum interesse para avançar à fase dois do pacto.

A China considera que sua ascensão corrige injustiças históricas e devolve o país ao lugar que historicamente lhe corresponde. Há tempos – e, evidentemente, desde o começo da guerra comercial – chegou também à conclusão de que os Estados Unidos são uma potência decadente que quer impedir a ascensão da China no cenário global para não perder suas vantagens. É uma convicção generalizada: tão ubíqua entre os círculos de poder como nas conversas das pessoas comuns. E Pequim responde – e se antecipa – com uma assertividade crescente, que aumentou notavelmente durante a pandemia. Os Estados Unidos, por sua vez, acham que Pequim ameaça seus interesses estratégicos e compete de maneira injusta no âmbito comercial.

Com a deterioração da relação, isso também ocorreu com a percepção mútua das duas sociedades. Um estudo do Pew Research Center de abril apontava que 66% dos norte-americanos têm opinião desfavorável sobre a China – a maior proporção desde que a pesquisa começou, em 2005 –, contra 26% que a vê como positiva. Por sua vez, uma pesquisa da Universidade Renmin de Pequim entre uma centena de acadêmicos chineses mostra que 62% deles acredita que os Estados Unidos querem lançar uma guerra fria contra seu país.

Nesse momento, o novo entendimento é que as relações entre a China e os Estados Unidos “não voltarão a ser as mesmas”, disse, citado pelo jornal Global Times, Liu Weidong, um dos pesquisados e associado à Academia Chinesa de Ciências Sociais, um dos grandes laboratórios estatais de ideias.

E se Trump perder a reeleição em 3 de novembro? Os dados do Pew evidenciam que as frentes entre os dois países vão além da agenda trumpista e Joe Biden, concorrente democrata à Casa Branca, transmitiu uma dura mensagem contra o regime de Xi Jinping.

Hufbauer dá como certo que essa guerra fria continuará com Biden na presidência. “A retórica e a ênfase serão possivelmente diferentes. Biden falaria de comércio, mas certamente falaria mais de Hong Kong, e dos uigures, das condições de trabalho, meio ambiente... Mudaria a conversa, mas a guerra comercial não desaparecerá”, opina. Biden, para começar, apresentou um programa econômico que abraça parte do nacionalismo econômico de Trump sob o lema “compre produtos americanos”.

Que os atritos tenham aumentado se deve, pelo menos em parte, a motivos internos. Nenhum dos dois rivais atravessa seu melhor momento. Se os Estados Unidos já têm o olhar em suas eleições de novembro, a China conseguiu deixar para trás o pior da pandemia, mas a um custo elevado. Não somente econômico – no primeiro semestre sofreu uma contração de 1,6% -, como também de imagem: sua assertiva política exterior e sua gestão da Covid despertaram, e agravaram, suspeitas em outros países, que por sua vez endurecem suas posturas em relação ao gigante asiático.

“Trump e Xi Jinping se encontram em um dilema parecido”, disse Orville Schell, da Asia Society, em uma videoconferência recente organizada pela instituição. “Os dois procuram, de certa forma, exportar seus problemas jogando a culpa em assuntos de fora, e agitando problemas no estrangeiro. Ambos utilizam muito as glórias nacionalistas. Os dois são populistas até a medula. Ambos são assombrados pelo desemprego, e a maior parte de sua legitimidade vem de sua capacidade de gestão econômica. Há muitas semelhanças entre os dois, o que explica talvez por que apesar de tudo conseguiram manter sua amizade”, afirmou Schell.

Um confronto pleno está bem distante das intenções dos dois países. Têm, ao fim e ao cabo, os dois exércitos mais poderosos do mundo. E suas economias, queiram ou não, estão fortemente interconectadas. Um desengate seria “pouco prático”, afirmou o ministro Wang neste mês em um discurso a acadêmicos norte-americanos em que tentava pedir calma.

Mas dano já pode estar feito. “A guerra comercial dos últimos dois anos teve pouco impacto real na economia chinesa. Por outro lado, a psicologia da sociedade teve papel importante”, declarou Wang Wen, veterano executivo do Instituto de Estudos Financeiros Chongyang, da Universidade Renmin. “A imagem que costumávamos ter dos Estados Unidos – democracia, liberdade, abertura, normas claras, palavras que provavelmente vêm à mente da maioria – essa imagem positiva desapareceu”.

Há 11 anos, em uma entrevista publicada pelo Atlantic Council, perguntaram a Zbigniew Brzezinski, conselheiro de Segurança Nacional com Jimmy Carter, que lição havia aprendido da Guerra Fria. Poderia dizer “não se precipitar”: foi ele que em 1979 recebeu uma ligação na madrugada em que lhe informavam de um ataque de mísseis soviéticos que acabou sendo um erro.

Mas o que disse foi: “A queda da Cortina de Ferro e os acontecimentos desses anos foram geridos com sofisticação e com uma América envolvida trabalhando alinhada aos alemães, os britânicos e os franceses. Precisamos de parceiros sérios, por isso defendo tanto que exista uma voz europeia a se escutar, mas depende dos europeus modelá-la. Por enquanto não a temos, temos um vazio político na Europa. Era 2009. Agora a Europa, ainda que continue com seus debates internos, é quem não encontra interlocutor do outro lado do Atlântico.

A imensa batalha cujo desenlace marcará o futuro da globalização

ALICIA GONZÁLEZ (MADRI)

A relação comercial é cenário de uma titânica disputa entre as duas grandes potências globais. A enorme dimensão da batalha reside tanto na envergadura dos intercâmbios submetidos a novas taxas alfandegárias – um volume de comércio que beira os 500 bilhões de dólares (2,6 trilhões de reais) anuais – como nas potenciais consequências em termos de redes de abastecimento globais. A tensão entre este domínio foi muito intensa ao longo da presidência de Donald Trump e a pandemia deixou em pedaços a frágil trégua selada entre os dois países em janeiro. Também colocou sob suspeita a confiabilidade da China como principal produtor mundial de suprimentos médicos e equipamentos sanitários e forçou uma revisão generalizada das redes globais de abastecimento. O coronavírus, como concorda boa parte dos especialistas, só acentuou as tendências econômicas, geopolíticas e sociais que já vinham sendo gestadas anteriormente. Também na disputa entre os EUA e a China.

O pacto assinado em 15 de janeiro na capital norte-americana por Trump e o vice-primeiro-ministro chinês, Liu He, obrigava a China a comprar 200 bilhões de dólares (1,05 trilhão de reais) a mais em grãos, carne de porco, aviões, equipamento industrial e outros produtos norte-americanos. Era a coroação de um grande esforço diplomático norte-americano, um elemento central na ideologia protecionista que levou Trump ao poder e é um fator essencial para entender as relações atuais entre as duas potências. Mas os novos protocolos derivados da pandemia e a fragilidade da demanda interna e externa pela crise econômica desatada pelo coronavírus tornam praticamente impossível cumprir o acordado. “A China tomou medidas para colocar em andamento alguns dos compromissos incluídos na fase um do acordo comercial, como a proteção da propriedade intelectual, mas a capacidade de cumprir as metas de compras está se desvanecendo”, frisa o relatório de primavera sobre a China do Rhodium Group.

Terreno adubado para que os Estados Unidos adotem novas medidas sancionadoras e sepultem definitivamente o acordo nos próximos meses. “Funcionários da Casa Branca afirmam que as possibilidades de que Trump acabe com o acordo são de 51% contra 49%”, diz Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia Group, em Nova York. “Mas não quer fazê-lo muito cedo pelo impacto que uma reação negativa dos mercados pode ter sobre o ciclo eleitoral”, alerta.

Trump iniciou a guerra comercial contra a China em março de 2018 impondo taxas alfandegárias às importações de aço e alumínio. Uma medida que atingiu em cheio muitas empresas norte-americanas – de engarrafadoras de latas de refrigerante a fabricantes aeronáuticos – e que desatou uma escalada entre as duas potências. No total, os EUA impuseram taxas sobre produtos chineses no valor de 360 bilhões de dólares [1,88 trilhão de reais] (sobre um total de 452,2 bilhões de dólares (2,3 trilhões de reais) importados em 2019) e a China sancionou o equivalente ao total de produtos de compra dos EUA, 110 bilhões de dólares (575 bilhões de reais).

Com isso, os EUA conseguiram reduzir seu déficit comercial com a China em 18% no ano passado e situá-lo em níveis semelhantes aos de 2016, mas o impacto das taxas alfandegárias golpeou duramente empresas e consumidores do próprio país.

De acordo com um relatório da Reserva Federal de Nova York, as empresas norte-americanas “suportaram praticamente todos os custos” das novas taxas impostas pela Administração, o que reduziu os lucros e o investimento. As represálias, diz o relatório, obrigaram que elas mudassem suas redes de abastecimento, com o conseguinte aumento de custos. Tanto que, de acordo com os cálculos da entidade, dois anos de guerra comercial com a China reduziram a capitalização das empresas norte-americanas em 1,7 trilhão de dólares (8,9 trilhões de reais).

“Os grandes beneficiados da escalada alfandegária foram o Vietnã (que viu aumentar suas exportações aos EUA em 35%, 17,5 bilhões de dólares – 91,5 bilhões de reais), junto com a Europa (31,2 bilhões de dólares – 163 bilhões de reais)”, dizem em uma nota Yukon Huang e Jeremy Smith, do Carnegie Asia Program. Enquanto isso, “a indústria norte-americana não conseguiu cobrir essa diferença e o índice de produção industrial registrou sua primeira queda anual desde 2015”, afirmam.

Domínio geopolítico

Na verdade, o confronto entre os EUA e a China excedeu desde o começo os contornos da relação comercial, com o olhar posto no domínio geopolítico. Ainda que não se tenha traduzido no boom do emprego e da produção da indústria nacional que Trump apregoava, o certo é que as taxas alfandegárias e as limitações impostas ao comércio com empresas chinesas, especialmente no âmbito tecnológico, estão obrigando as empresas não só dos EUA, como também de outros países, a procurar fornecedores alternativos para seu abastecimento. Por exemplo, uma pesquisa da UBS entre empresas asiáticas diz que 85% de seus diretores têm a intenção de mover parte de sua capacidade fora da China.

Essa tendência, que já existia, se aprofundou com a covid e a intenção de muitos Governos é repatriar a fabricação de produtos de primeira necessidade, principalmente médicos e sanitários, para reduzir sua dependência da China diante de uma possível repetição de episódios de emergência global. Um cenário que implica um claro aumento das políticas protecionistas e, com isso, um freio à globalização, não somente de bens, como também – e como novidade – dos serviços.

“O centro da pressão dos EUA sobre seu rival geopolítico passou do comércio ao acesso aos mercados de capital e à tecnologia” frisam os economistas da UPB em um recente relatório de perspectivas.

De fato, a Casa Branca sugeriu ao Congresso que estude a possibilidade de proibir que os fundos de pensão públicos invistam em ativos chineses. Também criou um grupo de trabalho, liderado pelo secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, e o presidente da Reserva Federal, Jerome Powell, para decidir se impedem que algumas empresas chinesas cotizem em Wall Street e, portanto, não possam captar o financiamento que precisam para seus negócios. O relatório será apresentado em agosto.

Com as coisas assim, não parece que o grau de confronto entre os EUA e a China irá diminuir em breve. “Na Guerra Fria, os EUA podiam se permitir impor sanções à Rússia porque seus vínculos econômicos eram mínimos. Mas esse não é o caso com a China”, diz Arthur Kloeber, da Gavekal Research, em uma videoconferência com clientes. “Washington deve evitar, por um lado, agravar a situação econômica em um momento como o atual e não pode esquecer que a China é o segundo maior dono de dívida dos EUA, atrás do Japão”. Mas como aponta em um relatório Raoul Leering, do ING, “se o presidente Trump acha que a China pode ser um bode expiatório para a crise atual e que isso pode impulsionar suas possibilidades de reeleição, a adoção de novas medidas protecionistas é uma clara opção”, finaliza.

Os mísseis chineses inquietam o Pentágono

CARLOS TORRALBA (MADRI)

Em outubro, na comemoração do 70° aniversário da fundação da República Popular, a China exibiu as últimas joias de sua indústria armamentista. Em Tiananmen apareceram pela primeira vez o DF-41 – capaz de atingir qualquer país a partir de seu território e lançar até 12 ogivas nucleares –, a última versão dos bombardeios estratégicos H-6N – com um alcance de combate de mais de 5.000 quilômetros – e o JL-2 – um míssil balístico intercontinental de lançamento submarino. Pequim mostrou ao mundo sua tríade nuclear, seu arsenal atômico pronto para ser utilizado de terra, mar e ar.

No ocaso da Guerra Fria, o gasto militar chinês representava pouco mais de 1% mundial – menos do que a Itália e o Kuwait –, de acordo com cálculos do Instituto Internacional de Estocolmo para a Pesquisa da Paz (Sipri). Desde então, Pequim realizou um processo de modernização das Forças Armadas que se acelerou sob o comando de Xi Jinping, que expurgou os cargos de alto escalão de oficiais corruptos e desleais. Mesmo que ainda longe dos EUA, o gasto militar chinês já equivale a pelo menos 14% do global. E não para de crescer, até mesmo em tempos de pandemia. O primeiro-ministro, Li Keqiang, anunciou no mês passado que o investimento em defesa aumentará 6,6% no próximo ano.

A China já não depende como antes das importações de material militar. Desenvolveu uma indústria armamentista e naval de primeira linha e a cada ano obtém mais lucro com as exportações. O Paquistão – onde constrói sua segunda base no estrangeiro, como revelam imagens de satélite – Bangladesh e Mianmar são seus principais clientes. Os fabricantes chineses de armamentos se destacam no âmbito da inteligência artificial e na produção de drones e mísseis.

Há mais de meio século, Washington e Moscou estiveram limitados por uma estrutura de controle armamentista pactuada pelos dois. E Pequim soube tirar partido nas últimas décadas das amarras a que estavam submetidas as outras duas superpotências. O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês) proibia os EUA e a URSS (depois a Rússia como sucessora) armazenar, testar e lançar mísseis terrestres, convencionais e nucleares, de alcance intermediário (entre 500 e 5.500 quilômetros). Durante os 32 anos em que o veto durou, Pequim lançou pelo menos 2.000 desses mísseis, de acordo com cálculos de serviços de inteligência ocidentais.

Degrau a degrau, esse sistema de segurança do qual, de certa forma, se beneficiou a ordem mundial, foi se desintegrando. O INF se encerrou no ano passado, após a notificação da Casa Branca, e em junho começaram em Viena nas negociações para tentar prorrogar o New Start – que expira em fevereiro e limita o número de ogivas nucleares dos EUA e Rússia –, o último resquício da estrutura de controle pactuada por Washington e Moscou. A mensagem dos negociadores de Trump na capital austríaca foi clara: sem representantes de Pequim na mesa, não há nada do que se falar. Um diplomata chinês afirmou à agência Reuters que “adorariam” participar de uma negociação trilateral com a condição sine qua non de que a Rússia e os EUA reduzam seu arsenal nuclear – de 4.300 e 4.150 ogivas, respectivamente – aos números chineses – 300 –. As possibilidades de que Pequim concorde se submeter a um sistema de controle armamentista e desarmamento progressivo são praticamente nulas.

Além do programa balístico, os avanços mais notáveis são os da Marinha chinesa. Em 1996, o Exército Popular de Libertação realizou testes com projéteis em águas próximas a Taiwan. O presidente dos EUA à época, Bill Clinton, respondeu à ameaça à ilha com o envio de dois porta-aviões à região, acabando com a crise. Menos de 25 anos depois, a situação mudou. A frota de Pequim tem 335 navios de guerra; a dos EUA, cinquenta a menos, de acordo com um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS, na sigla em inglês) apresentado em maio. Em 2012, a Marinha chinesa colocou seu primeiro porta-aviões, no ano passado o segundo e até 2022 já pretende ter quatro em operação.

Em geral, o armamento e as capacidades do Exército chinês continuam longe das do norte-americano. Mas a distância é exponencialmente menor do que décadas atrás, e inexistente em alguns âmbitos. Uma das visões mais pessimistas é a de Christian Brose, ex-diretor do Comitê das Forças Armadas no Senado. Em seu recente livro, The Kill Chain: Defending America in the Future of High-Tech Warfare (A corrente da morte: Como defender os EUA na futura guerra de armamento tecnológico), afirma que no caso de conflito no Pacífico, os EUA teriam todas as chances de sair derrotados. Brose desenha um panorama em que as bases de Guam, Japão e Coreia do Sul se “inundariam” de projéteis; os porta-aviões seriam indefensáveis nas proximidades do litoral chinês e os F-35 – os caças mais sofisticados do mundo – logo estariam fora de jogo porque os aviões-tanque necessários para reabastecer teriam sido destruídos.

Nem todos no Pentágono compartilham as projeções de Brose, mas reconhecem sem rodeios que o desenvolvimento e mobilização de armamento antiaéreo e antinavios, e os deslumbrantes avanços em mísseis terrestres – balísticos e de cruzeiro – colocam as tropas norte-americanas na região em uma situação muito vulnerável. “A China significa agora um grande desafio à capacidade da Marinha norte-americana de dominar e controlar as águas do Pacífico ocidental – o Primeiro desafio de envergadura semelhante desde o final da Guerra Fria – “, se admite no citado relatório de maio do CRS.

Para tentar reverter a situação, militares de alto escalão norte-americanos alertam em março no Congresso da urgência de se adotar uma nova estratégia; e da necessidade de investir bilhões de dólares nela. Unidades de marines pequenas, rápidas e móveis. E carregadas com mísseis Tomahawk projetados especificamente para este cenário. Mas para que esses comandos possam ser eficientes, os EUA deverão – afirmou o general David Berger no Senado – mobilizar um arsenal de mísseis terrestres equiparável ao implantado pela China. Diante das intenções de Trump, o governador do departamento japonês de Okinawa reiterou que nenhuma das ilhas que administra abrigará esse tipo de armamento nuclear vetado aos EUA durante mais de três décadas.

Enquanto o Exército norte-americano vagava sem rumo e sangrando nas guerras do Afeganistão e Iraque, e o Pentágono se centrava mais nas possíveis ameaças de Moscou e o terrorismo jihadista, a China se transformou em uma superpotência capaz de fazer-lhes frente em um conflito em grande escala. “O futuro emboscou os EUA”, diz Brose em seu livro. O certo é que hoje não bastaria enviar dois porta-aviões para defender aliados como Taiwan, Japão e Coreia do Sul.

A corrida tecnológica que os dois podem perder

BERNARDO MARÍN (MADRI)

Desde que os utensílios de ferro substituíram os de bronze e estes, os de cobre, a superioridade tecnológica marcou a ascensão e queda das civilizações. Também decidirá a hegemonia mundial no século XXI. E gerou um conflito aberto entre a China e os EUA que, pela primeira vez desde que os soviéticos lançaram o Sputnik em 1957, sentem que podem estar perdendo a corrida da inovação. Perto da nova revolução industrial do 5G, o confronto aproxima a possibilidade de um retrocesso na interdependência tecnológica entre os dois países, com enormes implicações na economia e geopolítica global.

O último episódio dessa disputa ocorreu em meados de julho com o anúncio por parte do Governo de Boris Johnson de que proibirá o uso da tecnologia da Huawei nas redes 5G – a quinta geração de tecnologia de comunicação sem fio – a partir de 2027. Na decisão, que significa uma mudança em relação à posição britânica anterior, pesaram as sanções impostas em maio pelos EUA para deter a aquisição por parte da empresa de microprocessadores e software de tecnologia norte-americana, cruciais ao seu desenvolvimento. Uma medida que Washington justifica com o argumento de que a Huawei e outras empresas chinesas são controladas pelo Exército Popular e são uma ameaça à segurança nacional.

O veto a Huawei significará um atraso de pelo menos dois anos no 5G britânico e requererá um investimento extra de 3 bilhões de euros (19 bilhões de reais). Mas não serão os únicos custos dessa arriscada corrida. “Há grandes dependências que fazem com que a competição seja perigosa aos dois lados. As empresas de semicondutores dos EUA obtêm grandes lucros do acesso ao mercado da China, que utilizam para impulsionar sua I+D. E a China continua dependente em grande medida dos EUA de semicondutores fundamentais como os GPU e para softwares de sistemas operacionais dos celulares”, diz Paul Triolo, chefe de Geotecnologia da consultoria Eurasia Group.

“Se Washington tentar isolar as empresas de tecnologia chinesas dos fornecedores norte-americanos, isso as obrigará a melhorar suas capacidades e tentar acabar com a distância entre seus rivais. Será um jogo a longo prazo onde existirão muitos vencedores e perdedores entre as empresas envolvidas” diz Triolo. Em última instância surge um cenário, cada vez menos improvável, de desengate tecnológico dos dois países, com a emergência de dois blocos rivais que não compartilham informação e infraestrutura.

Para Águeda Parra, engenheira, sinóloga e doutora em Ciências Políticas, o novo momento Sputnik que fez os EUA reagirem foi perceber o atraso que acumula na corrida do 5G e da Internet das coisas (IoT, na sigla em inglês), os dois aspectos que mais vão mudar os ecossistemas da indústria. “Pela primeira vez a China participará dos padrões que vão gerar uma revolução industrial. O faz como ator protagonista, dez anos à frente de seus rivais. E, além disso, com a experiência do desenvolvimento comercial dessa tecnologia em seu país”, afirma.

Pequim já declarou abertamente suas intenções de se transformar em uma superpotência inovadora quando em maio de 2015 lançou o plano estratégico Made in China 2025. A iniciativa, financiada com 300 bilhões de dólares (1,5 trilhão de reais), pretende transformar a grande fábrica de produtos baratos do mundo em ponta de lança da robótica e da biotecnologia. E desperta enormes receios no Ocidente porque consagra o controle estatal da economia que dificulta a concorrência das empresas estrangeiras.

Andrés Ortega, pesquisador do Real Instituto Elcano, não gosta da denominação “guerra fria”. “Naquela época havia uma competição entre sistemas ideológicos que tentavam convencer outros países. Agora competem pelos mercados. O Governo chinês não tenta exportar seu sistema, não tem aliados”, afirma. O que existem são dois modelos econômicos que resolvem de maneira diferente uma questão crucial: a da propriedade dos dados. “Na China, o Estado patrocina o avanço tecnológico e pode acessar a informação que as empresas têm da população. Nos EUA o dinamismo surge das empresas privadas em cujas mãos estão os dados, que souberam monetizar com grande sucesso”.

Esse acesso das autoridades de Pequim à informação manejada pelas empresas foi um os principais argumentos para colocar sob suspeita as empresas chinesas. E os receios não vêm só dos Estados Unidos. No final de junho, a Índia proibiu 59 aplicativos chineses, alegando segurança nacional. Entre eles, o TikTok, a plataforma de vídeos curtos que em 2019 se transformou na mais baixada do mundo. Dias depois, Pompeo sugeriu que os EUA também poderiam proibi-la e que só deveria usá-la “quem quer que seus dados acabem nas mãos do Partido Comunista Chinês”.

Quem está em situação de clara desvantagem em meio a essa luta de titãs é a Europa. Entre as 20 maiores empresas de Internet do mundo não há nenhuma com sede no continente. Entre os 50 maiores unicórnios (startups avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares) também não há nenhuma radicada na UE. A China e os EUA também lideram o ranking de supercomputadores, ainda que o maior seja japonês.

O problema europeu não é só econômico, também é de soberania. “Há uma dependência brutal da Europa da tecnologia norte-americana e chinesa por uma questão de falta de investimento. A Comissão está tentando investir em inteligência artificial mais ou menos o que o Google investe sozinho”, diz Ortega. “Há iniciativas para recuperar essa soberania, como o projeto Gaia X [uma nuvem europeia], impulsionado pela França e Alemanha. Mas há dificuldades, porque, ao contrário dos EUA e da China, não é um só Estado, sequer um único mercado em termos de língua e dados”.

A DISPUTA PELA INFLUÊNCIA EM DIFERENTES CONTINENTES

A Europa resiste a ficar novamente presa entre dois blocos

BERNARDO DE MIGUEL (BRUXELAS)

O risco de ficar presa em meio a uma nova guerra fria paira há meses sobre a Europa. Mas a aterrorizante possibilidade recebeu o sinal verde, pelo menos virtual, durante a videoconferência dos ministros das Relações Exteriores da UE em 15 de junho, em que Pompeo participou. “Falou abertamente de guerra fria”, lembra com preocupação um diplomata da União. “Nunca mencionou a palavra China, sempre falou do Partido Comunista da China, e nunca se referiu a Xi Jinping como presidente de um país, e sim como secretário-geral de um partido político”, acrescenta a mesma fonte com evidente inquietação.

A reunião deixou um gosto amargo entre os europeus, mesmo entre os mais pró-EUA, ao colocar em evidência que o choque entre Washington e Pequim pode experimentar uma escalada que colocará a UE entre dois fogos comerciais e diplomáticos.

“Acho que a posição da Europa deve ser a de não participar desse confronto”, repete há semanas o vice-presidente da Comissão Europeia e Alto Representante de Política Exterior da UE, Josep Borrell. O chefe da diplomacia comunitária está convencido de que “há uma tentativa de que a Europa se posicione de um lado ou de outro”.

Creio que a posição da Europa deve ser a de não participar deste confronto
Josep Borrell, chefe da diplomacia europeia

Mas os puxões dos dois lados são cada vez mais fortes. E parece difícil que a UE, o maior bloco econômico pelo número de membros e a maior potência comercial do mundo, possa se manter à margem de uma disputa que marcará do desenvolvimento tecnológico das próximas décadas (com a utilização da tecnologia 5G como primeira batalha) à aniquilação e transformação da ordem multilateral surgida após 1945, passando pela corrida espacial e a coordenação frente a emergências globais relacionadas ao clima e à saúde.

“Estamos no meio, se não nos movermos, as duas partes nos esmagarão”, alerta uma fonte diplomática. E recomenda, como única solução, “aumentar a soberania estratégica em todos os terrenos”. “A Europa precisa encontrar seu próprio lugar entre os EUA e a China, não podemos nos limitar a acompanhar a tendência da vez em Washington”, defende um funcionário de alto escalão da UE. A Alemanha é o membro que mais advoga por seguir um caminho próprio, mas a tolerância do Governo de Angela Merkel à ditadura comunista de Xi Jinping está cada vez mais sendo vista com desconfiança. E a intervenção de Pequim para acabar com os protestos em Hong Kong através de uma nova lei de segurança que ameaça as liberdades na antiga colônia colocou Berlim em uma posição quase impossível de manter.

Fontes diplomáticas consideram que a Alemanha já começou a matizar sua deferência à China em 2019, quando a Comissão Europeia oficializou a expressão “rival sistêmico” para descrever a segunda maior potência econômica do planeta, atrás somente dos EUA.

Desde então, o tom de Bruxelas endureceu progressivamente sem que Berlim tenha podido evitar. E a crise econômica provocada pela Covid parece marcar um ponto de não retorno no esfriamento do entusiasmo europeu com a China, que chegou ao seu ponto máximo quando Bruxelas defendeu a todo custo a entrada do gigante asiático na Organização Mundial de Comércio em 2001 apesar de se tratar de uma economia claramente com intervenção do Estado.

A abertura europeia também facilitou um crescente investimento chinês, que passou de apenas 700 milhões de euros (4,2 bilhões de reais) em 2008 a bater o recorde anual em 2016 com 37 bilhões (225 bilhões de reais).

A Comissão tomou agora o caminho contrário. E prepara medidas de proteção para deter a entrada das empresas chinesas, em sua maioria dopadas com subsídios públicos, em setores estratégicos da União e para impedi-las de adquirir empresas europeias desvalorizadas pela crise.

Merkel ainda espera acalmar as águas com uma reunião de máxima importância entre a UE e a China (prevista para setembro, mas adiada pela pandemia), ainda que a tensão entre Washington e Pequim e a beligerância de Xi Jinping tornem cada vez mais difícil o entendimento.

Bruxelas acusou abertamente a China de promover campanhas de desinformação que podem ter agravado o impacto da pandemia. E observa com crescente desgosto as manobras de Pequim para colocar divisões entre os membros comunitários com seus planos de expansão, canalizados através de empréstimos e investimentos ligados à Nova Rota da Seda.

Apesar de não gostar, a Europa se expõe a ser um dos cenários de uma nova guerra fria, três décadas depois do final da anterior. Aquela explodiu em 1 de abril de 1948, após numerosas disputas sobre a ocupação da Alemanha entre os países ocidentais e a União Soviética, há pouco aliados na Segunda Guerra Mundial, como lembra o historiador Tony Judt em sua imponente obra Pós-Guerra - História da Europa desde 1945. A de agora nasce de uma inesperada reação dos EUA contra uma globalização desequilibrada e com concorrência desleal. A história julgará. Mas como dizia Judt, no final, “não faz muito sentido se perguntar: quem começou a Guerra Fria?”. O importante, talvez, seja sair por cima do perigoso fogo cruzado.

Preencher o espaço vazio na América Latina

FRANCESCO MANETTO (MÉXICO)

A história recente da América Latina também é o relato da presença dos Estados Unidos na região, seu peso, até mesmo a participação e tutela, nas decisões políticas de vários países e seus interesses econômicos. As relações exteriores foram para diversos Governos latino-americanos um reflexo da administração interna. E nesses equilíbrios Washington tradicionalmente desempenhou o papel mais decisivo. Mas as oportunidades de investimento que ocorreram em uma etapa de relativa estabilidade deixaram também, a partir dos primeiros anos do século, um vazio a preencher. E a China, que sempre pôde se permitir jogar a longo prazo pela continuidade das diretrizes de Pequim, decidiu lutar essa batalha.

Essa partida, como acontece em outras latitudes, é comercial e ao mesmo tempo geopolítica. O desembarque do gigante asiático ocorreu até agora de maneira desigual. Às vezes com a cumplicidade dos governantes do antigo eixo bolivariano, da Venezuela ao Equador, passando pela Bolívia. Em outras ocasiões, em meio aos receios das autoridades locais e fazendo frente às barreiras legais. Quase sempre, entretanto, conseguiu se assentar no setor das matérias-primas e no da infraestrutura. Até modificar, pouco a pouco, os esquemas de dependência da região.

“A China tem uma estratégia bem formada. Procura conquistar uma cabeça de ponte e de lá se expandir”, diz Sergio Guzmán, diretor da consultoria ColombiaRisk, recorrendo ao termo militar que define a linha temporária que se estabelece após um desembarque para defender a região até que os reforços cheguem. O faz frequentemente oferecendo algo em troca, principalmente contratos de compra em grande escala de carne, soja, mariscos e outros produtos. E os requisitos habituais dos países, sobretudo em matéria de direitos trabalhistas e meio ambiente, passam a segundo plano. O EL PAÍS foi testemunha em 2017 da agressividade da exploração mineira de uma empresa chinesa na Amazônia equatoriana, que gerou um duro conflito entre o à época presidente em final de mandato, Rafael Correa, e um povo indígena da região que deixou de apoiar seu projeto político.

A China tem uma estratégia bem formada. Procura conquistar uma cabeça de ponte e de lá se expandir
Sergio Guzmán, diretor da consultoria Colombia Risk

O caso da Colômbia é especialmente representativo. Apesar da prudência que mostraram seus últimos Governos com Pequim, a licitação de uma de suas obras mais emblemáticas, o metrô de Bogotá – cuja construção começou a ser planejada há mais de setenta anos e que sempre acabou em tentativas frustradas –, foi concedida há meses a duas empresas chinesas. “Os Estados Unidos podem se queixar de que eles vão receber o metrô, mas ao mesmo tempo não apresentaram nenhum investidor. O quid do assunto é que a China não abriu nenhum mercado, e sim aproveitou o vazio deixado por outros países”, diz Guzmán.

Outro exemplo ocorre no México. O presidente do país, Andrés Manuel López Obrador, e o norte-americano, Donald Trump, acabam de comemorar o andamento do tratado comercial da América do Norte, o TMEC, que entrou em vigor no dia 1. Será preciso ver, entretanto, se esse instrumento bastará para frear no futuro os investimentos diretos da China, que até agora foram contidos. De acordo com o último relatório da Comissão Econômica para a América do Norte e o Caribe (Cepal), um órgão que depende das Nações Unidas, os maiores investidores na região no ano passado foram a Europa, os Estados Unidos e a China. O país asiático começou a perder a liderança das operações em 2018 e, diz a comissão, “concentrou seu interesse na aquisição de empresas de indústrias extratoras e da agroindústria, geração de energia e serviços básicos [de eletricidade, gás e água]”.

A batalha pela influência, entretanto, é combatida a longo prazo e não só no terreno econômico. Pequim, apesar de seu pragmatismo, não renunciou a apoiar um de seus principais aliados estratégicos na região. Isto é, o regime chavista da Venezuela liderado por Nicolás Maduro, inimigo direto da Administração de Trump. Esse respaldo custou à China entre 50 e 60 bilhões de euros (304 a 365 bilhões de reais) em empréstimos durante a última década. Os cofres de Caracas, devastados pela gestão ruim e destroçados pelas sanções, atrasaram a devolução. Maduro ainda deve a Xi Jinping pelo menos um terço. Apesar disso, o território com as maiores reservas petrolíferas do mundo representa provavelmente a maior oportunidade de investimento na região. A China não tem pressa. E justamente aí está uma de suas cabeças de ponte.

A China está na África (e os EUA bem menos)

ÓSCAR GUTIÉRREZ (MADRI)

Só somando as viagens à África dos últimos três presidentes norte-americanos, George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump, durante os últimos 20 anos de Administração norte americana, é possível igualar a quantidade de visitas oficiais ao continente do líder chinês Xi Jinping (quatro viagens) desde que chegou ao poder em 2013. A conta na coluna dos EUA é muito fácil quando se chega à era Trump: soma zero. Sequer é esperado. O último que pisou em terra africana foi Obama, na Etiópia, em 2015. E não era um presidente assíduo no continente de suas raízes. Seu antecessor, Bush, visitou mais países. A última viagem de Xi Jinping foi em julho de 2018. Carimbos acima e abaixo no passaporte, a vontade política também passa por isso de ser e parecer, que no caso da África se traduz em que a China é e parece um país que está interessado. As viagens oficiais são uma declaração de intenções do que veio depois: um extraordinário crescimento no comércio, no investimento, cooperação e até presença militar da China na África.

Mas as viagens de Xi Jinping são somente a ponta do iceberg. A consultoria Development Reimagined, com sede em Pequim, realizou em 2018 um estudo sobre as viagens de delegações chinesas ao continente. O resultado foi espetacular: 79 visitas a 43 países em 10 anos (2007-2017). O principal destino, a África do Sul, maior receptor de investimentos diretos chineses. Hannah Muthoni Ryder, no comando da consultoria, aponta que o interesse é “mútuo”. “Durante o mesmo período”, diz, “os líderes africanos foram tão entusiastas, se não mais, no momento de se comprometer com os mandatários chineses. De modo que isso não é só questão da China, e sim também da África”.

Em relação aos EUA, a última visita de importância foi feita pelo secretário de Estado, Mike Pompeo, em janeiro. Como dizia no mesmo mês o centro de análises Conselho de Relações Exteriores, de Nova York, a “retórica” de Washington na África tem mais a ver com “combater” a influência da China do que com uma estratégia de desenvolvimento.

A África concentra alguns dos países com crescimento mais rápido; o ritmo de urbanização do continente não tem comparação; a classe média e a democracia se consolidam a um bom ritmo, e a necessidade de infraestrutura de transporte, mas também de comunicação, é extraordinária. É nesse último cenário em que alguns analistas temem um novo campo de batalha. “A China construiu muita infraestrutura tecnológica na África e muitas de suas empresas fizeram grandes investimentos e lançaram com sucesso produtos em seu mercado”, diz Cornelia Tremann, da consultoria China Africa Advisory, “e a Huawei e o 5G são um grande elemento de disputa. Mas, em geral, os EUA mantêm uma vantagem comparativa no campo da tecnologia, inovação e governança na Internet”.

O grande jogo não é somente coisa da China e dos EUA, também dos países do Golfo, Turquia, Coreia do Sul... “quantos mais parceiros para a África trabalhar, melhor para ela”, diz Cobus van Staden, do Instituto Sul-africano de Assuntos Internacionais. “Os EUA e a China dão muita força”, prossegue, “mas também fragilidade: no caso dos EUA, por seu relativo interesse no investimento em infraestrutura, centrado no financiamento de empresas mais do que em Governos; no caso da China, pela opacidade como credor, por não oferecer outras formas de financiamento e [impor] normas que estipulam o trabalho com empreiteiros chineses”.

Os EUA e a China dão muita força, mas também fragilidade
Cobus van Staden, especialista Sul-africano

No ano passado, o intercâmbio comercial chinês-africano cresceu 2,2%, um número aparentemente bom, mas muito distante dos 20% de 2018. Mas, e em plena guerra comercial com Washington, as exportações chinesas, freadas aos EUA, cresceram no mercado africano 7,9%. As norte-americanas, como comparação, caíram um terço desde 2014, como assinalou no ano passado Karen Dunn Kelley, vice-secretária de Comércio norte-americana.

Pequim conquistou o mercado africano – é o primeiro parceiro comercial –; é o maior investidor em volume de capital e criação de postos de trabalho e, sem dúvida, o maior credor com números difíceis de se fixar entre o setor público e privado, que beiram os 145 bilhões de dólares (758 bilhões de reais). Mas a China também é uma potência emergente no cenário militar. Pequim contribui com 15% no orçamento de operações de paz da ONU. Há 14 em andamento, sete delas em países africanos. De acordo com dados de maio, a China contribuiu com as 14 missões com 2.538 policiais e militares, a maioria dividida entre o Congo, Mali, Darfur (Sudão) e Sudão do Sul. Washington somente com 29 soldados no total.

Mas o potencial militar norte-americano no continente ainda é difícil de bater, com 6.000 militares em quase trinta locais em missões de treinamento e contra o terrorismo. A morte de quatro soldados no Níger em outubro de 2017 em uma emboscada jihadista levou Trump a prometer o aumento de tropas na África. Mas a Rússia pisa forte com envio de mercenários e armas e Pequim consolida sua primeira base militar no estrangeiro no Djibuti.

Perigo de incêndio em águas asiáticas

MACARENA VIDAL LIY (PEQUIM)

Águas mornas, de cor turquesa, salpicadas de pequenas ilhotas solitárias e recifes de coral. Nas fotos aéreas, um paraíso tropical. Até que se olhe mais de perto. Muitos dessas ilhotas arenosas são construções artificiais do Exército chinês. Além dos barcos de pesca, e os mercadores que cobrem as rotas marítimas mais transitadas do mundo, sulcam suas águas navios de guerra. É o mar do Sul da China, um dos pontos chave no mapa mundial: o lugar da Ásia onde se chocam mais diretamente os interesses geoestratégicos de Washington e Pequim, e onde a deterioração das relações entre ambos aumentou a probabilidade, de acordo com os especialistas, de um hipotético choque acidental entre seus Exércitos.

São águas estratégicas. Não só pela riqueza de seu solo em gás e petróleo. São também a passagem natural do Índico ao norte da Ásia, e por esse gargalo sulcam barcos comerciais que transportam produtos no valor de cinco trilhões de euros (30 trilhões de reais) anuais. E com um interesse extra para a China: fica nesse mar a base de seus submarinos nucleares.

A China pede 80% desse mar alegando razões históricas e um mapa de 1947 que engloba a maioria desse território aquático. Mas o Vietnã, Filipinas, Brunei, Malásia e Taiwan também pedem parte dessas águas, e as disputas de soberania foram uma fonte constante de tensões.

A Corte Permanente de Arbitragem de Haia recusou em 2016 a grande maioria dos pedidos chineses, o que Pequim nunca aceitou. Em troca, se esforçou em criar realidades: construiu uma rede de ilhas artificiais nas Spratly, que as Filipinas consideram suas. Realiza manobras militares frequentes na região. E criou dois distritos administrativos nas ilhas Spratly e nas Paracel, pedidas pelo Vietnã. A China deixou claro: considera essas águas um de seus interesses cruciais e vai defendê-las.

E nem sempre com sua Marinha: suas frotas de pesqueiros e seus guarda-costas fustigam os barcos de países vizinhos, que em junho fizeram uma advertência diante do perigo de que a tensão possa “erodir a paz, a estabilidade e a segurança da região”.

Os EUA não estão dispostos a deixar caminho livre ao gigante asiático, e patrulha essas águas vez ou outra. Aos olhos de Washington, Pequim tenta criar uma esfera de influência exclusiva na Ásia oriental nessas águas e no mar do Leste da China, onde disputa com o Japão as ilhas Diaoyu/Senkaku. Para Pequim, os movimentos de Washington tentam conter seu país.

A deterioração das relações acrescentou tensão entre os dois exércitos na área. Em junho, os EUA conduziram três séries de manobras militares lá e no mar das Filipinas. No começo desse mês voltou a enviar ao mar do Sul dois porta-aviões enquanto a China efetuava exercícios militares nas proximidades das ilhas Paracel.

Até agora, os EUA afirmavam manter a neutralidade nas disputas territoriais. Mas em 13 de julho se alinhou com Hanói e Manila: “Os pedidos de Pequim sobre recursos em águas não costeiras ao longo da maior parte do mar do Sul da China são completamente ilegais, como o é sua campanha de coerções para controlá-los”, disse Pompeo. “O mundo não permitirá que Pequim trate o mar do Sul da China como seu império marítimo”.

O anúncio atingiu os líderes chineses de modo especial: em junho, em uma reunião no Havaí para tentar diminuir as tensões, o conselheiro de Estado chinês, Yang Jiechi, havia alertado Pompeo contra qualquer pressão. E agora veio isso.

A boa notícia é que nenhum dos dois países tem especial interesse em um conflito. “A China acha que pode ganhar o mar do Sul pacificamente mediante uma estratégia de desgaste a longo prazo, e Trump demonstrou pouco apetite por um confronto militar com a China”, diz a consultoria Eurasia Group. A má, que o aumento da tensão na região eleva a possibilidade de um choque acidental que pode desatar uma crise mais grave.

Além do mar

Além da disputa no mar, a Ásia é um tabuleiro crucial para as duas potências. A China tenta reforçar suas alianças com seus vizinhos através de projetos como a Nova Rota da Seda. Ao norte tem a Rússia, com cujo líder, Vladimir Putin, Xi Jinping já desenvolveu uma sintonia especial. E a Coreia do Norte, um país com o qual está condenada à convivência, apesar dos receios mútuos.

O leste é outra história. Lá a influência dominante é norte-americana. A Coreia do Sul, Japão, Taiwan, Austrália estão alinhados com Washington, que também acena à Índia após o grave confronto entre os exércitos chinês e indiano na cordilheira do Himalaia no mês passado. No meio termo, os países da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático, na sigla em inglês), que com exceções como o Laos e Camboja, totalmente alinhados com Pequim, preferem evitar escolher: têm importantes laços de segurança com Washington, e vultosos investimentos e relações econômicas imprescindíveis com a China.

Da diplomacia do tênis de mesa à das máscaras

CECILIA BALLESTEROS (MADRI)

O degelo entre os EUA e a China começou em um ponto de ônibus na cidade japonesa de Nagoya, sede do campeonato mundial de tênis de mesa, em de abril de 1971. Glenn Cowan, um jovem jogador norte-americano de 19 anos, de aspecto hippie, subiu no veículo da equipe chinesa (por engano ou curiosidade). Todos os passageiros o olharam com receio com exceção de um, Zhuang Zedong, que começou a falar com ele graças a um intérprete e lhe presenteou com um desenho tradicional em seda. No dia seguinte, Cowan lhe correspondeu com uma camiseta com o símbolo da paz e a frase Let it Be, da música dos Beatles. As fotografias dos dois deram a volta ao mundo e Mao Zedong aproveitou a oportunidade. “Zhuang Zedong não é somente um grande jogador, também é um grande diplomata”, disse o Grande Timoneiro que, poucos dias depois, convidou a equipe norte-americana a visitar o país. “Fiquei tão surpreso como lisonjeado”, escreveu Richard Nixon em suas memórias. “Nunca pensei que a iniciativa chinesa viesse através do tênis de mesa”, escreveu o ex-presidente norte-americano.

Em 10 de abril, 15 jogadores atravessaram uma ponte de Hong Kong à China. Eram os primeiros norte-americanos que atravessavam a cerca de bambu (a barreira física e ideológica que separava a República Popular do mundo ocidental) desde 1949. Em contrapartida, os EUA convidaram mesatenistas chineses a uma excursão por oito cidades. Em julho, o secretário de Estado, Henry Kissinger, viajou em segredo ao gigante asiático para estabelecer relações diplomáticas com o regime comunista e ceder-lhe a cadeira de Taiwan no Conselho de Segurança da ONU. Em fevereiro de 1972, Nixon se transformou no primeiro presidente norte-americano a pisar em solo chinês com o claro objetivo de isolar os soviéticos. Em sua viagem de oito dias, que ele mesmo chamou de “a semana que mudou o mundo”, conversou com o líder chinês e assinou o Tratado de Xangai. “A bola pequena é que movimenta a bola grande”, afirmou à época Mao, já doente.

As chegadas ao poder de Donald Trump e de Xi Jinping destruíram a velha cortesia que foi substituída pela intimidação, uma tendência que aumentou com a pandemia de Covid. Diante das críticas norte-americanas por ser a origem do vírus, Pequim contra-atacou lançando uma ofensiva diplomática que ao mesmo tempo em que oferecia sua ajuda aos países afetados se vendia como um modelo na gestão da crise. Essa diplomacia das máscaras tem como braço executor os Wolf Warriors, os novos diplomatas chineses cujo nome é inspirado nos filmes sobre um heroico comando das forças especiais, que, ao estilo de Rambo, lutam contra os mercenários ocidentais e que, na verdade, defendem o papel de Pequim na pandemia e desafiam nas redes quem ousar questionar a versão oficial do regime.

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