Investigação inocenta ETA e responsabiliza grupo terrorista luso-espanhol por morte de bebê em 1960

Documento policial inédito confirma que o Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) cometeu o atentado, atribuído durante anos aos separatistas bascos

Foto da menina Begoña Urroz Ibarrola, assassinada em 27 de julho de 1960 na estação ferroviária de Amara (San Sebastián, norte da Espanha).
Foto da menina Begoña Urroz Ibarrola, assassinada em 27 de julho de 1960 na estação ferroviária de Amara (San Sebastián, norte da Espanha).

Uma recente investigação do Memorial de Vítimas do Terrorismo concluiu que o assassinato da menina Begoña Urroz, que completa 60 anos no próximo sábado, foi cometido pelo DRIL (Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação) e não pelo grupo separatista basco ETA. O memorial revela diligências inéditas da brigada político-social de San Sebastián que detalham os movimentos de Guillermo Santoro, militante do DRIL e responsável por deixar, no guarda-volumes da estação ferroviária de Amara, na cidade basca, a mala com explosivos que, ao ser detonada, matou a menina de 20 meses, em 27 de junho de 1960. A descoberta encerra o mistério sobre a autoria do atentado.

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Seus autores nunca foram detidos nem julgados, e o caso foi anistiado em 1977. Porém, 20 anos depois, durante a ofensiva de “socialização do sofrimento” do grupo, espalhou-se a tese de que o ETA (sigla de Pátria Basca e Liberdade, no idioma basco) seria o autor. O trabalho de Gaizka Fernández, chefe de pesquisa do memorial, afirma que o DRIL –—um grupo revolucionário, influenciado pela revolução castrista e de vida efêmera, entre 1959 e 1964— foi o verdadeiro autor do atentado. A data do assassinato, 27 de junho, ganhou força simbólica e foi escolhida em 2010 pelo Parlamento espanhol como Dia das Vítimas do Terrorismo.

O documento policial esclarece que na época do atentado as suspeitas já recaíram sobre o DRIL, que em 18 de fevereiro de 1960 tinha detonado quatro bombas em diversos pontos de Madri. A polícia não pensou no ETA, cuja existência só viria a ser conhecida após a frustrada tentativa de descarrilar um trem de ex-combatentes franquistas, em 1961.

O texto policial, redigido apenas uma semana depois do atentado na estação de Amara, relata que a encarregada do guarda-volumes, Soledad Arruti, tia de Begoña Urroz, reconheceu Guillermo Santoro —cuja foto lhe foi apresentada pela polícia junto à de outros fichados do DRIL— como sendo o homem que lhe entregara a mala com explosivos no final da tarde anterior.

Santoro também foi reconhecido pelo dono e pelas funcionárias da Casa Rodrigo, loja onde havia comprado a mala, em San Sebastián, e confirmou-se que os restos da mala correspondiam à que ele adquiriu. Finalmente, foi reconhecido também pelo dono e funcionários da pensão onde se hospedou. A descrição de Santoro —jovem, galego e residente na França— foi completada por Emiliano García del Cerro, que ele havia conhecido pouco tempo antes numa viagem de Hendaya a Paris e voltou a cruzar por acaso num bar de San Sebastián.

O documento policial sobre Santoro oferece provas mais sólidas que as conhecidas até o momento, antecipadas também por Gaizka Fernández há um ano. A primeira prova da autoria do grupo português DRIL foi a reivindicação do atentado de Amara, no começo de julho de 1960, por Henrique Galvão, militante e ex-capitão do Exército português, no jornal El Nacional, de Caracas. Também reivindicou para o DRIL as explosões de 26 de junho nos guarda-volumes da Estação do Norte de Barcelona, em Madri, em San Sebastián e num trem que fazia o trajeto Barcelona-Madri, assim como uma explosão de 29 de junho daquele ano na estação de Atxuri, em Bilbao.

Em julho de 1960, a Guarda Civil localizou, em Andorra, Reyes Marín, coautor com Santoro do atentado de San Sebastián, conforme tinha confessado ele mesmo a um informante policial. Mas quando os agentes chegaram ao hotel de Andorra onde se encontrava, Marín tinha fugido. Em agosto, 14 militantes do DRIL se reuniram em Liège (Bélgica), com a presença de Santoro e Marín. A polícia belga os deteve e expropriou suas armas e explosivos. A ditadura franquista solicitou sua extradição, mas a Bélgica a rejeitou, embora a polícia belga tenha transmitido o depoimento deles às autoridades espanholas.

Em 1961, o Tribunal Especial de Atividades Extremistas intimou Santoro e Marín a deporem como supostos autores dos atentados de junho de 1960. Mas eles não depuseram nem foram capturados, nem houve julgamento. E a anistia de 1977 apagou qualquer responsabilidade penal. Em 1978, José Fernández Vázquez, ex-dirigente do DRIL, confirmou em suas memórias a autoria do atentado de Amara que ceifou a vida de Begoña Urroz.

Dia das Vítimas

Duas décadas depois, o esquecido assassinato de Urroz ressurgiu durante um dos momentos de maior atividade terrorista do ETA. Em setembro de 2000, um mês antes de ser assassinado, o ex-ministro socialista Ernest Lluch apontou ao jornal El Correo o grupo separatista basco como autor do assassinato. Lluch se baseava em um texto do vigário da diocese de San Sebastián, José Antonio Pagola, de 1992, que mencionava um comentário de uma catequista amiga da família Urroz que atribuía o atentado ao ETA. Mas eram meras conjecturas. Também em 1992, a polícia obteve um documento do dirigente etarra José Luis Álvarez Santacristina citando o atentado que matou Begoña Urroz, mas sem estabelecer a autoria.

Em 2010, o então presidente do Congresso, José Bono, propôs que o dia do assassinato de Begoña Urroz fosse reconhecido como Dia das Vítimas do Terrorismo, numa homenagem à “primeira vítima do ETA”. Bono, alinhado com associações de vítimas, partidos e numerosos meios de comunicação —incluindo uma reportagem do EL PAÍS—, encampou a tese de autoria do ETA. O Congresso aprovou a proposta por unanimidade.

Em 2013 reapareceu a tese da autoria do DRIL, quando Xavier Montanya, autor de um livro sobre essa organização, revelou um boletim policial inédito de fevereiro de 1961 que atribuía o assassinato de Begoña Urroz ao grupo. Retornava às fontes policiais de 1960. Mas a investigação decisiva para esclarecer o atentado foi protagonizada a partir de 2016 por Gaizka Fernández, do Memorial de Vítimas, que, depois de percorrer numerosos arquivos, cedeu as provas reunidas nesta reportagem.

“A atribuição ao ETA foi um erro”, conclui Gaizka Fernández. “Foi facilitada pela ausência de investigação e pelo protagonismo terrorista do grupo basco durante décadas, que sepultou o que se sabia do DRIL”, prossegue. “Embora o Congresso dos Deputados tenha escolhido a data do assassinato de Begoña Urroz para comemorar o Dia das Vítimas do Terrorismo como primeira vítima do ETA, deve mantê-la mesmo que seu autor tenha sido o DRIL. Begoña Urroz foi inequivocamente uma vítima do terrorismo”, conclui Fernández.

UM GRUPO ARMADO CONTRA DUAS DITADURAS

O DRIL foi uma organização revolucionária luso-espanhola que atuou entre 1959 e 1964 com o objetivo de derrubar as ditaduras de Francisco Franco, na Espanha, e António Salazar, em Portugal. Apoiados por Fidel Castro, seus líderes foram o marechal Humberto Delgado e o capitão Henrique Galvão, ambos portugueses, e seus integrantes eram republicanos, marxistas e anarquistas. Em outubro de 1959, o espanhol Santiago Martínez Donoso viajou de Cuba a Madri, onde formou um comando que, em 18 de fevereiro de 1960, explodiu quatro bombas em Madri. Um dos terroristas morreu, e os outros dois foram detidos. Apesar do fracasso, em junho de 1960 outro comando integrado por Guillermo Santoro e Reyes Marín realizou outra campanha de explosões na Catalunha e País Basco. Os autores fugiram para a França e nunca foram julgados. A ação mais conhecido do DRIL foi o sequestro do transatlântico português Santa Maria, em 1961. Em fevereiro, desembarcaram no Brasil, no Recife, onde obtiveram asilo do Governo de Jânio Quadros. Foi um golpe propagandístico contra a ditadura salazarista. O último comunicado do DRIL data de novembro de 1964. O Partido Comunista Espanhol havia pressionado Castro a abandonar o DRIL. O líder cubano cedeu, e o grupo se consumiu em dissidências internas.


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