Moscou admite aumento na mortalidade por covid-19 que não aparece nos números oficiais russos

Depois de questionar baixa letalidade do país por covid-19 e em plena reabertura, capital russa publica novas estatísticas que mostram um conjunto de casos não contabilizados nacionalmente

Passageiros usando máscara entram no metrô de Moscou nesta quarta-feira.
Passageiros usando máscara entram no metrô de Moscou nesta quarta-feira.Pavel Golovkin (AP)

Durante semanas a Rússia falou sobre seus baixos números de mortalidade. Dados que em um país de 145 milhões de habitantes e 493.657 casos detectados levantaram dúvidas, críticas e suspeitas de especialistas e analistas. Agora, enquanto o país reabre pouco a pouco e Moscou desperta de um regime de confinamento severo, novos dados alimentam a ideia de que os números do novo coronavírus não são reais. Maio foi um mês nefasto para a capital russa, epicentro da epidemia no país. Morreram 15.713 pessoas, 61% a mais do que a média de mortes em maio de toda a década, quando se manteve entre 9.800 e 10.000. O Departamento de Saúde informa que 2.757 pessoas morreram por covid-19 como “causa principal” em maio, embora reconheça que foi um fator em outros 2.503 casos com patologias adicionais. Uma estatística que não se reflete na contagem oficial do Governo, em que há apenas 1.895 mortes pelo coronavírus em Moscou em maio.

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A Rússia só conta como morto por covid-19 quando o vírus é o único fator da morte ou a doença principal, de acordo com os protocolos do Ministério da Saúde. Um sistema de contagem que deixa milhares de casos fora das estatísticas, como fica evidente nos números preliminares divulgados por Moscou nesta quarta-feira. Em maio, as autoridades criticaram severamente vários meios de comunicação internacionais que informaram sobre um aumento da mortalidade associada ao coronavírus em abril, o que não se refletia na análise oficial. Na ocasião, tanto o Kremlin quanto Moscou defenderam que suas estatísticas estavam corretas, mas depois tiveram de revisá-las para cima, o que quase duplicou o número de mortos.

Agora que Moscou sai gradualmente de um regime de confinamento severo e em meio às críticas pela falta de transparência em nível nacional e a suspeitas de que existe interesse político para acelerar a reabertura —em 1º de julho será votada a grande reforma constitucional que pode perpetuar presidente russo, Vladimir Putin, no poder até 2036—, os números da capital revelam as costuras de suas estatísticas. Mesmo assim, o Departamento de Saúde de Moscou destaca que a letalidade por coronavírus durante “todo o período da epidemia”, em que a cidade registrou 199.785 infectados, é “indubitavelmente mais baixa” do que em outras cidades do mundo similares: “Cerca de 2% se levarmos em consideração os casos em que foi a razão principal e 3,8% considerando os casos em que a covid-19 foi a doença primária ou secundária”. Segundo a análise dos números, de fato a letalidade em Moscou é menor, mas as informações usadas como comparação e que afirmam ser proveniente dos “portais oficiais das cidades” —10,7% em Nova York, 22,7% em Londres, 15,2% em Estocolmo e 21,5% em Madri— não são reais. Na capital da Espanha não existe uma página oficial que apresente esses dados e a letalidade está situada em torno de 12%, segundo os cálculos com os dados do Ministério da Saúde. As análises e estimativas mais atuais em nível internacional que levam em consideração os estudos de soroprevalência e que são considerados os mais corretos, situam a letalidade do vírus em cerca de até 1,9% em Madri.

A Rússia tem o terceiro maior número de casos de coronavírus do mundo, com 493.657 infectados contabilizados e um aumento diário de mais de 8.000 novos casos há semanas. Está atrás de Estados Unidos e Brasil. No entanto, seu número de mortos é um dos mais baixos: 6.358, um dado que levanta muitas suspeitas, mas que as autoridades defendem enumerando as medidas de precaução tomadas muito cedo, como o fechamento de fronteiras e a obrigação de quarentena antes para as pessoas que chegavam do exterior. O Kremlin quer mostrar sua vitória contra o coronavírus e apresentar a Rússia como um exemplo em nível internacional.

“Graças aos dados de Moscou, vemos a situação real e que os números reais são entre duas e três vezes maiores do que os oficiais e que quase todo o excesso de mortalidade que está sendo observado em algumas regiões se deve ao coronavírus”, aponta Borís Ovchinnikov, analista de dados da consultoria Data Insight. O fato de esses casos não estarem sendo incluídos nas estatísticas federais é uma pergunta que as autoridades devem responder”, acrescenta.

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