Argentinos estão proibidos de sair de casa até 31 de março

Com 128 casos do coronavírus, país sul-americano é o primeiro da América a ordenar a reclusão de todos os seus habitantes para lutar contra o coronavírus

Enric González
Buenos Aires -
Mulher passa diante de um cartaz do Governo pedindo à população que não saia às ruas como prevenção contra o coronavírus.
Mulher passa diante de um cartaz do Governo pedindo à população que não saia às ruas como prevenção contra o coronavírus.JUAN MABROMATA (AFP)
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17 March 2020, Brazil, Brasilia: Brazilian Minister of Health Luiz Henrique Mandetta speaks during a press conference to confirms a first death of Coronavirus (Covid-19) in the country. Photo: Marcello Casal/Agencia Brazil/dpa


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A view of the corridor outside the intensive care unit of the hospital of Brescia, Italy, Thursday, March 19, 2020. Italy has become the country with the most coronavirus-related deaths, surpassing China by registering 3,405 dead. Italy reached the gruesome milestone on the same day the epicenter of the pandemic, Wuhan, China, recorded no new infections. For most people, the new coronavirus causes only mild or moderate symptoms. For some it can cause more severe illness. (Claudio Furlan/LaPresse via AP)
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A Argentina se submete a uma quarentena total. Entre 0h desta sexta-feira e a meia-noite de 31 de março, os cidadãos deverão permanecer em suas casas e limitar suas saídas à compra de alimentos e medicamentos. “É um momento excepcional”, disse o presidente Alberto Fernández ao anunciar o decreto que paralisa o país com o objetivo de “ganhar tempo para prevenir o avanço do vírus” e desacelerar o ritmo de contágios do coronavírus. No momento em que Fernández anunciava essas medidas extraordinárias, havia na Argentina 128 casos de coronavírus, a grande maioria na província de Buenos Aires, e três pessoas tinham morrido pela enfermidade que ela provoca, conhecida pela sigla Covid-19. Com cerca de 45 milhões de habitantes, o número de infectados no país é bastante inferior aos vizinhos Chile (342 casos) e Brasil (621 infectados e sete mortos).

O presidente afirmou confiar “na responsabilidade dos argentinos”, mas recordou também a irresponsabilidade coletiva de milhares de pessoas que se deslocaram para o litoral e áreas de lazer (“tem gente que não entende”, lamentou), e observou que violar a quarentena constitui uma infração prevista no Código Penal. “Seremos inflexíveis”, disse, “e pedi aos governadores que ajam com a máxima severidade”. Antes de anunciar o decreto urgente que regula o fechamento doméstico, Alberto Fernández se reuniu com todos os governadores. Alguns deles já tinham adotado medidas em dias anteriores, como o fechamento de fronteiras provinciais.

Em uma carta a todos os argentinos, publicada depois do discurso, Alberto Fernández pediu calma: “Ninguém precisa entrar em pânico. Precisamos de serenidade. Mas todos devem assumir a responsabilidade de cumprir a obrigação de se isolar”. E acrescentou: “Estamos a tempo na Argentina de evitar que esta epidemia seja incontrolável (...), será uma luta de meses e estaremos avaliando permanentemente”.

A quarentena argentina prevê diversas exceções. Permanecerão abertos os supermercados, os pequenos negócios de bairro, as farmácias e os postos de gasolina. E, obviamente, a rede sanitária funcionará a pleno ritmo, assim como os setores alimentício, farmacêutico, petroleiro e jornalístico. Será possível sair para fazer compras, mas com rapidez e respeitando as normas de higiene e distância estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde.

A urgência da pandemia deixa em relativo segundo plano outra urgência, a econômica. A Argentina vive uma crise profunda desde abril de 2018, e essa situação foi levada em conta ao estabelecer o período de quarentena: nas próximas semanas haverá vários feriados, incluindo um adendo, uma homenagem aos mortos na guerra das Malvinas, que será antecipado da data habitual, 2 de abril, para 31 de março. A ideia é paralisar a atividade o mínimo possível. “A economia vai se desacelerar e haverá problemas adicionais”, admitiu o presidente, assegurando que nos próximos dias serão adotadas novas medidas para amenizar a redução de renda dos trabalhadores autônomos e informais e a interrupção do negócio nas pequenas empresas.

A polícia patrulhará as ruas para evitar que violações da quarentena, incluindo controles permanentes nas estradas. Como na Itália, Espanha e França, os argentinos terão que justificar sua presença em espaços públicos. Em uma sociedade que não se caracteriza pelo senso de disciplina, minutos antes da fala do presidente ocorreu um momento emocionante: imitando a iniciativa popular espanhola, nas grandes cidades, especialmente em Buenos Aires, escutou-se um longo e sonoro aplauso dirigido aos trabalhadores da saúde. Nos próximos dias, porém, essas homenagens só poderão ser feitas a partir de janelas e varandas.

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