Apoiadores de Ortega invadem funeral de Ernesto Cardenal e intimidam jornalistas

Seguidores do Governo nicaraguense chamaram poeta, símbolo da Teologia da Libertação e um dos principais críticos do presidente, de traidor

Um grupo de amigos próximos de Ernesto Cardenal protege o seu caixão.
Um grupo de amigos próximos de Ernesto Cardenal protege o seu caixão.Carlos Herrera

Simpatizantes do Governo nicaraguense de Daniel Ortega invadiram nesta terça-feira a missa de corpo presente do poeta Ernesto Cardenal, referência da poesia ibero-americana e figura-chave da Teologia da Libertação, na Catedral Metropolitana de Manágua. Mais de uma centena de mulheres e homens uniformizados com lenços vermelhos e pretos (as cores da Frente Sandinista) chamaram o morto e quem o acompanhou de “traidores” e depois intimidaram personalidades como a escritora Gioconda Belli, além de agredirem cinco jornalistas que cobriam a celebração.

Mais informações
El poeta Ernesto Cardenal en 2010.
Morre o poeta Ernesto Cardenal, figura-chave da Teologia da Libertação na Nicarágua
O poeta e sacerdote Ernesto Cardeal, em sua casa de Managua na passada quinta-feira.
“Não há liberdade para que eu diga algo na Nicarágua”, afirmou Cardenal em entrevista
Daniel Ortega saludando a sus seguidores en un acto público.
Ortega, a velha raposa da política, se agarra ao poder na Nicarágua

Foi uma jornada tensa na catedral. Os simpatizantes de Ortega —conhecidos popularmente como turbas— chegaram ao templo antes do caixão. Quando o corpo de Cardenal entrou, as turbas gritaram lemas: “Queremos a paz” e “Não conseguiram nem conseguirão”. Esta última é uma referência aos cidadãos e opositores que protagonizaram os protestos sociais de 2018, a quem o regime acusa de uma intentona golpista frustrada.

Em meio à missa de corpo presente, o maquinário do Governo noticiava em seus meios de comunicação: “Nicaraguenses prestam homenagem ao poeta e sacerdote Ernesto Cardenal”. Um exemplo claro da dissociação entre o discurso oficial e os fatos. A propaganda mostrava uma foto das turbas uniformizadas com o lenço, supostamente prontas para assistirem à missa “por admiração ao exemplo” do sacerdote.

Entretanto, dentro da catedral os seguidores do Governo atacavam as personalidades e os cidadãos vestidos de azul e branco, as cores da oposição, que levavam cartazes com a figura de Cardenal com um de seus versos: “Pensem nos que morreram”. “Que viva Daniel Ortega”, gritou um simpatizante do presidente ao núncio apostólico Waldemar Stanislaw Sommertag, quando o diplomata tentava acalmar os ânimos.

O poeta Ernesto Cardenal morreu no domingo, aos 95 anos, de causas naturais associadas à idade avançada. Era um dos críticos mais duros do atual Governo de Ortega —de quem foi apoiador no período da Revolução Sandinista—, razão pela qual o regime orquestrou uma perseguição política contra si durante os últimos anos. Entretanto, após sua morte a presidência decretou luto nacional por três dias, e a própria vice-presidenta Rosario Murillo deixou de lado as desavenças recentes e elogiou Cardenal na segunda-feira. Mas o fato é que o funeral do poeta foi conturbado. Primeiro, a polícia militarizou o local do velório, por medo de protestos populares, e nesta terça-feira os simpatizantes governamentais diziam na Catedral que “Ernesto Cardenal é cultura, mas era um traidor”.

Surras e insultos

Em meio aos tumultos, o corpo do poeta era protegido por familiares e amigos próximos, como a escritora Gioconda Belli. “Claro que temos medo de que profanem o caixão”, lamentou Belli. Luz Marina Acosta, assessora pessoal de Cardenal, lamentou a invasão das turbas durante a cerimônia. “Não deveriam estar gritando barbaridades contra Ernesto. Ele já descansa em paz. Como era religioso, por isso o trouxemos para a missa. Eu esperava que só viria gente que ama Ernesto Cardenal, que é muita, mas mandaram toda esta gente. Esta gente não é espontânea. Já sabemos quem a mandou”, disse Acosta, em referência ao Governo.

Ao final da missa, diante do aumento da tensão, os familiares decidiram retirar o caixão o mais rapidamente possível. Não puderam fazê-lo pela porta principal, e sim por uma lateral da catedral, sob gritos das turbas. Logo depois da retirada do caixão em um carro funerário, os simpatizantes do governo e jornalistas de veículos pró-Ortega intimidaram Gioconda Belli e outros presentes.

Cinco jornalistas foram agredidos, entre eles repórteres do La Prensa e outros sites noticiosos. O mais afetado foi o jornalista Hans Lawrence, da publicação Nicaragua Investiga. Ele tentou se proteger na casa eclesiástica da catedral, mas os simpatizantes do governo arrombaram os portões e continuaram a surrá-lo. Lawrence foi levado a um hospital de Manágua vomitando sangue, mas os médicos conseguiram estabilizá-lo.

No sábado, as cinzas do poeta serão levadas ao arquipélago de Solentiname, no lago Cocibolca, na comunidade que ele fundou junto a seus “filhos espirituais” que caíram na luta contra a ditadura de Somoza.

Legado ético e poético

Os presentes ao velório, entre os que se encontravam o embaixador da União Europeia em Manágua, Pelayo Castro, destacaram o legado poético e ético de Cardenal, assim como sua lavra literária. O sacerdote é considerado uma referência da poesia em espanhol e um farol moral da Nicarágua, pois desde os seus dias como revolucionário e até sua morte manteve-se irredutível em seus princípios contra as ditaduras no país e em seu afinco em promover a justiça social.

“O padre Cardenal é um baluarte da luta pela democracia. Em seus poemas podem se ver as denúncias contra as arbitrariedades cometidas pelo regime”, definiu o ex-ministro de Educação Carlos Tunnermann. “É uma poesia muito acessível, que toma como temas a história de seu país e a luta dos indígenas. E depois dirige sua poesia ao universo. Leva poesia à ciência. Faz da ciência poesia. Nesta noite, quando levantarmos nossa cabeça para o firmamento, veremos uma estrela nova. Será a alma de Ernesto Cardenal que já se reintegrou ao universo e ao criador.”

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS