O que te cai bem me faz engordar

Como a nutrição de precisão procura dar o xeque-mate na obesidade, tão difícil para nós

Westend61 / Getty Images/Westend61

O geneticista Tim Spector, professor do King’s College de Londres e autor de uma prolífica bibliografia sobre boa nutrição, passou dez anos de sua vida comendo a mesma coisa nos intervalos de seu turno no hospital: um sanduíche de atum e milho, feito com pão de trigo integral. No entanto, quando resolveu aferir o efeito do lanche sobre sua glicose, como parte de seu projeto PREDICT (para o qual recrutou ―e ainda mantém― pessoas saudáveis nas quais mede a resposta metabólica a diferentes alimentos), a surpresa foi enorme: aquele lanchinho inocente gerava em seu corpo um pico de glicose entre 10-11 mmol (dados típicos de pré-diabetes). “Ter essas altas regularmente estressa o corpo e, no longo prazo, gera armazenamento de energia nas células de gordura”, relata em seu livro Spoon-Fed (editora Vintage). Está ligada a diabetes, obesidade e até demência. Com sua mulher não acontecia a mesma coisa.

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“Não existe uma dieta única que se adapte a todos, ao contrário, cada pessoa reage a um alimento de forma diferente”, explica Alfredo Martínez, diretor do programa de Nutrição de Precisão e Saúde Cardiometabólica do Instituto Madrilenho de Estudos Avançados (Imdea Alimentación). “Todos os nutricionistas vão concordar que, para perder peso, é conveniente seguir uma dieta com restrição calórica. No entanto, existem pessoas que, por razões genéticas ou outras, não respondem da mesma forma a ingerir mais proteína ou menos gordura. Alguns precisam comer menos açúcar, outros, fazer mais exercícios ... Quando descobrirmos, poderemos ajudar as pessoas”, continua o professor e membro honorário da Academia Espanhola de Nutrição e Dietética. A nutrição de precisão (adaptada às particularidades de cada indivíduo) vem se desenvolvendo lentamente em laboratórios científicos em todo o mundo há quase uma década. O interessante é que deixou de ser uma enteléquia e os avanços em seu campo finalmente apontam quadros nítidos. Estamos no início de uma grande revolução, dizem os especialistas.

Pão integral e sacarina: dois bons não tão bons

O que é ótimo para você pode não ser ótimo para mim, e vice-versa. A revelação é um xeque-mate ao papelzinho com dieta escrita à mão que passa de mão em mão e às orientações genéricas, que permaneceram quase imutáveis desde 1890, data da publicação do primeiro guia alimentar conhecido. “A mensagem que passam é a seguinte: se você comer assim e se exercitar mais, vai emagrecer; e se você não perder peso, o que falta é força de vontade. Este tem sido outro mantra médico das últimas décadas. E, embora agora sejamos mais longevos, temos tecnologia médica mais sofisticada e nossas condições de vida melhoraram de modo geral, estamos imersos em uma epidemia sem precedentes de obesidade e doenças crônicas, sem um fim claro à vista”, observa Spector em seu livro O Mito das Dietas.

José María Ordovás é um dos cientistas mais prestigiosos do mundo neste campo de pesquisa. O espanhol, que dirige o Laboratório de Nutrição e Genética da Tufts University (Boston, EUA), explica: Diante de uma piada ou de um comentário, há pessoas que riem e outras que se irritam. O mesmo acontece com a comida. Lucrecio já dizia em De Rerum Natura: “O que para uns é comida, para outros é amargo veneno”. Impossível resistir à seguinte pergunta: será que, por acaso, há alguém aí abrindo mão do sorvete de chocolate diário sem necessidade? Responde Ordovás, também diretor do programa de Obesidade da Imdea Alimentación: “Talvez haja pessoas que consigam comer uma pequena quantidade sem ganhar peso, mas não acho que seja bom para a saúde em geral”. Epa! Agora, sério: “Mostramos em nossos estudos como a lógica não funciona. Há pessoas que se apegam à gordura e mesmo que você as coloque em dietas bastante hipocalóricas, elas não conseguem perder peso. Ao mudar apenas o tipo de carboidratos, elas perdem peso. Algumas se dão melhor com pão branco do que com trigo integral. Em alguns casos isso se deve à genética, em outros, à microbiota, mas, na maioria, simplesmente não sabemos”, explica Ordovás, que considera mais viável a criação de tipos de dietas para grupos de indivíduos, “como os tamanhos das roupas”, do que traçar uma orientação alimentar para cada pessoa deste planeta.

Existem numerosos estudos que nos aproximam desses modelos personalizados baseados em evidências. Um dos primeiros data de 2014 e vem do Instituto Weizmann de Ciências, de Israel. O imunologista Eran Elinav e o matemático Eran Segal mediram o efeito da glicose resultante do consumo de adoçantes artificiais em indivíduos saudáveis, encontrando variações importantes no pico de glicose que ocorria em ambos, quando se pressupunha que a resposta seria semelhante. Isso significa que, para alguns, recorrer à sacarina no café da manhã é uma maneira recomendável de contornar a obesidade e a diabetes; para outros, muito pelo contrário. Eles continuaram fazendo exames, com o pão branco ou integral e outros alimentos, chegando a conclusões semelhantes. Chegaram mesmo a dar cerveja e sorvete a voluntários com pré-diabetes, sem que isso piorasse a situação de alguns. A personalização, nesse caso, foi feita com informações biométricas (principalmente do microbioma), que se tornou o preditor mais preciso da resposta glicêmica.

As peças são valiosas. Agora, monte o quebra-cabeça

A medição do índice glicêmico é apenas mais uma ferramenta, entre outras, com a qual aspiramos a planejar dietas superindividualizadas. Por metabótipo, ritmo circadiano, genética ... Existem exames para todos os gostos. E são complementares. “É como a história de pessoas cegas descrevendo um elefante com base na parte dele que estão tocando. Precisamos dessa combinação de informações para definir a nutrição de precisão. Cada uma delas dá respostas parciais e, além disso, podem estar erradas em parte. Os exames genéticos, por exemplo, contribuem apenas de forma discreta. Quando estudamos gêmeos idênticos, suas respostas à mesma comida eram bem diferentes”, comenta Ordovás. Integrar os resultados apontados por cada ferramenta para ter uma visão completa do que funciona para você é um desafio para a bioinformática. “Uma grande quantidade de dados é gerada e para o seu manejo está sendo desenvolvida a inteligência artificial”, diz o dietista-nutricionista. Além do mais, ainda não sabemos interpretar tudo. “Faltam quatro ou cinco anos para que isto se torne realidade”, aposta Alfredo Martínez.

Um momento! E todos os exames que há no mercado? Estão tirando uma da nossa cara? Os especialistas não iriam tão longe... “Verdades e mentiras se misturam. É difícil dar um diagnóstico geral para todos eles. Mas é claro que existem alguns bons, capazes de dar algumas pistas!”, responde Martínez. Todos os exames devem ser avaliados por um profissional de saúde. E alguns estão mais verdes do que outros. “A análise do microbioma, por exemplo, é muito difícil de interpretar. E não será alcançada em um futuro próximo. A genética... bem, você tem 30.000 genes e não trilhões de bactérias intestinais, então analisar o genótipo é mais fácil: por cerca de 800 euros (5.300 reais) você já pode obtê-la. Agora, de que adianta esse resultado se ainda não sabemos como muitos genes interagem com a comida? “, reflete.

Há alguns claros, como os da doença celíaca ou da intolerância à lactose. E irão se somando. Felizmente, a pesquisa está progredindo na velocidade da luz. “Vamos acabar tendo um cartão, como o da biblioteca, com todas essas informações dentro, tenho certeza”, acrescenta. Enquanto isso, coloque em quarentena aquelas pechinchas que fervilham na Internet: “Um exame genético que mede cinco genes relacionados à obesidade? Mas se existem mais de 100!”, observa. José Ordovás vai mais longe: “Tudo tem que ser cruzado com o estilo de vida, o que chamamos de expossoma. Nenhum resultado terá grande validade se não for analisado nesse contexto: o lugar onde você mora, hábitos, qualidade do ar, ambiente social“, alerta. Porque o plano de dieta mais esplêndido do mundo não vale nada se você logo acrescenta um taxativo “eu não caminho”.

Nem todos nós precisamos comer a mesma quantidade

A espanhola Isabel García Pérez é pesquisadora e professora de Medicina de Precisão no Imperial College de Londres. A cientista está prestes a apresentar na Espanha a ferramenta Melico, com a qual almeja personalizar a dieta dos usuários por meio de uma análise da urina. “As pessoas relutam em fornecer amostras de fezes”, diz ela sobre a forma mais comum de examinar as bactérias que habitam o intestino. Seu exame, que também se baseia na especificidade de cada microbioma, se concentra na presença de diferentes metabólitos na urina após a ingestão de um mesmo alimento. Além disso, de acordo com suas pesquisas mais recentes, a análise também pode ser útil para recomendar um consumo maior ou menor de calorias para cada indivíduo. Estudos com gêmeos com estilos de vida semelhantes mencionados por Ordovás revelaram que o DNA e a ficha de exercícios da academia não têm a última palavra sobre o volume do prato de macarrão que cada um deve comer.

García Pérez constatou, em testes com pessoas e em ambientes clínicos fechados, que aqueles que engolem exatamente a mesma coisa excretam quantidades muito diferentes de energia pela urina, o que tem impacto sobre eles ganharem mais ou menos peso. “As rotas metabólicas da energia são diferentes. E é isso que estamos investigando”, diz. É claro que tudo isso só mudará as coisas se for democratizado e seguido pela maioria. “O apoio de sistemas públicos de saúde ou mesmo de planos de saúde privados ajudaria a baixar o preço”, afirma. A adesão também é fundamental. “Na urina, podemos ver depois de dois dias se as coisas estão mudando no corpo no sentido de baixar o colesterol ou perder peso. E isso anima o paciente”, comenta: “Porque, com isso acontece como com as pulseiras que marcam o quanto você está andando: de que adianta saber os passos que dou se isso não me incentiva a andar mais?”. Inteligência artificial que efetivamente gerencie a chuva de dados, especialistas capazes de interpretar bem a informação, mais conhecimento científico para estabelecer relações causais, democratização de ferramentas... Parece muito, mas está bem à vista. E talvez seja a mudança de curso que as estratégias de saúde precisam para vencer a obesidade. Pelo menos essa é a esperança que muitos especialistas nutrem hoje.

Uma desculpa para se empanturrar de bolos e doces? Nem sonhe com isso

Não estamos, contudo, diante do fim de um paradigma, segundo os especialistas consultados. O que sabíamos sobre nutrição não deixou de ter validade: são diretrizes que farão parte de planos individualizados, lembra Ordovás, que compara a nutrição de precisão com a chegada da vacina contra a covid-19 para nossa trajetória pandêmica. “Esperamos por isso como solução para nossos problemas, mas, enquanto todos não tiverem sido vacinados, teremos que agir e salvar vidas com o que temos em mãos, que é o eficaz”, afirma. Para os descuidados, o caminho para prevenir doenças ficando de olho no que é jogado no prato não mudou: menos alimentos processados e açucarados e mais frutas e vegetais. Ou, como Spector diz em Spoon Fed, “não coma nada que os micróbios de sua avó não reconheceriam como alimento”. As ferramentas e exames a serviço desta disciplina começam a mostrar eficácia na especificação da mensagem: serão ajustes definitivos, mas não disparatados. Tenha certeza de que nenhum deles vai prescrever a dieta de San Fermín, que é a que o professor Martínez receita: “Três dias comendo e bebendo ... escandalosamente.”

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