O ‘plano A’ de Susana Schnarndorf, a nadadora paralímpica que compete contra a própria doença

Gaúcha de 53 anos convive com atrofia de múltiplos sistemas há 16 anos e encara a terceira Paralimpíada, onde busca mais uma medalha. “É a luta de continuar competitiva mesmo com a doença piorando”

A nadadora Susana Schnarndorf, medalha de prata na Rio 2016, que busca mais uma medalha em Tóquio.
A nadadora Susana Schnarndorf, medalha de prata na Rio 2016, que busca mais uma medalha em Tóquio.Daniel Zappe/CPB
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Susana Schnarndorf foi diagnosticada com atrofia de múltiplos sistemas (AMS) em 2005, aos 37 anos. A doença, que vai paralisando todos os músculos do corpo, fez com que os médicos na época não tivessem a expectativa de que a atleta vivesse mais do que três anos. Passaram-se 16 e Susana segue firme, forte e paralímpica. Aos 53 anos, a atleta gaúcha e mãe de três filhos é a nadadora mais velha da delegação do Brasil na Paralimpíada de Tóquio, onde compete em busca da segunda medalha paralímpica de sua carreira. Na Rio 2016, a brasileira conquistou uma prata. No Japão, terminou longe do pódio sonhado em sua prova de estreia (os 150m medley SM4, sua especialidade), mas ainda encerrou com a oitava melhor marca entre os concorrentes. A atleta ainda tem chances de medalha em outras duas provas no Centro Aquático de Tóquio e segue firme no propósito de subir ao pódio e continuar se provando competitiva frente a uma patologia irreversível.

Nascida em Porto Alegre, Susana segue como atleta paralímpica uma rotina que já estava acostumada antes da doença. Ela foi tetracampeã brasileira de triatlo entre 1993 e 1997, e disputou os Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata, na Argentina, em 1995. Completou ainda 13 Ironmans, uma das provas de resistência mais famosas do esporte mundial, que envolve 3.800m de natação, 180km de ciclismo e uma maratona de corrida (42km). Dos 13 que participou, ela venceu seis.

Os primeiros sintomas da AMS vieram em 2005, com a dificuldade para respirar e para engolir a saliva. No mesmo ano, foi confirmado o diagnóstico da doença após os médicos desconsiderarem tumor no cérebro e esclerose múltipla. A AMS é uma patologia que causa múltipla degeneração do sistema nervoso e, consequentemente, da rigidez muscular. Assim, prejudica o funcionamento de órgãos vitais do corpo, como pulmão e coração. O dano é irreversível e permanente. Na época, não era esperado que ela tivesse uma sobrevida maior do que de três anos. “Eu estou com quatorze anos de doença aí, então eu estou no meu bônus, né?”, brincou ela em entrevista ao Olimpíada Todo Dia, em 2019.

A notícia do diagnóstico acertou em cheio a atleta, que enfrentou uma depressão após a notícia. Viu seus três filhos, Kaillani, Kaipo e Maila, irem morar com o ex-marido e chegou a perder a coordenação motora do lado esquerdo do corpo. A natação reapareceu na sua vida como reabilitação, mas não demorou a despertar o espírito competitivo que a acompanha há décadas. Em 2010, ela entrou para a seleção brasileira de natação paralímpica. Já dedicada ao esporte paralímpico, Schnarndorf foi campeã e recordista brasileira nos 50 metros, 100m, 400m livres, 100m peito e 200m medley entre 2010 e 2012. Também disputou o Parapan de Guadalajara, em 2011.

A primeira Paralimpíada foi Londres 2012. “A natação paralímpica para mim é aquela luta de continuar competitiva mesmo com a minha doença piorando”, afirmou. “Porque você fala assim: pô, todo mundo falava que eu ia morrer e olha aí onde eu estou agora. Em 2012 eu realizei o sonho da minha vida que foi participar da minha primeira Paralimpíada, e eu sempre tive o sonho de ir para uma Olimpíada. Não consegui como atleta convencional e em 2012 eu realizei esse sonho com um sentido diferente”. A brasileira foi quarta colocada nos 100m peito na categoria S7 e quinta nos 200m medley S7. No ano seguinte, foi campeã mundial nos 100m peito da classe S6, em Montreal, no Canadá.

Na natação paralímpica, os atletas com deficiência física ficam entre as classes S1 e S10. Quanto menor o número, maior o comprometimento que a deficiência causa na atleta. Assim, a reclassificação de Susana ao longo dos anos é uma evidência da piora de sua patologia. Ela entrou como S8 em 2010, passou para S7 em 2012 e estava na S5 em 2016. Agora compete na S4. “A cada dois anos eu passo pela reclassificação, é uma coisa bem estressante, mas eu só tenho plano A, não tenho plano B. Então eu sigo em frente, um dia de cada vez”, diz ela.

Mais de 10 anos após o diagnóstico da AMS, Susana conquistou sua medalha paralímpica nos Jogos do Rio 2016. Foi uma prata no revezamento 4x50m livre misto, que nadou ao lado das referências Clodoaldo Silva, Daniel Dias e Joana Silva. Um ano depois, a atleta criou o fundo Susana Schnarndorf em parceria com a ONG norte-americana Defeat MSA, que financia educação médica, apoio ao paciente e pesquisa científica em busca de uma cura para a atrofia de múltiplos sistemas.

Susana treina em Hamamatsu, no Japão, onde o Brasil fez a aclimatação para os Jogos.
Susana treina em Hamamatsu, no Japão, onde o Brasil fez a aclimatação para os Jogos.ALE CABRAL/CPB

A nadadora chega para Tóquio 2020 como uma das três atletas brasileiras mais velhas. Está atrás somente da arremessadora de peso Beth Gomes (56 anos) e de Fabiola Dergovics (54 anos), que compete no tiro com arco. Por ter esportes e categorias que exigem menos mobilidade e agilidade que as Olimpíadas, os Jogos Paralímpicos costumam ter esportistas mais velhos. Na delegação brasileira em Tóquio, estão ainda Helcio Luiz Gomes (tiro com arco), Antônio Tenório (judô) e Mauricio Pommê (tênis em cadeiras de roda) entre o time de cinquentões.

Susana ficou fora do pódio na prova na qual é especialista, os 150m medley da S4, mas ainda restam outras duas competições: os 50m livre na quarta (1 de setembro) e os 50m costas na quinta (2). Oitava colocada na disputa, ela não se deixou desanimar pela ausência de medalha. “Sou a oitava melhor do mundo no medley!”, destacou a nadadora, lembrando que não só de pódios são feitos grandes campeões.

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