Gabriel Bandeira brilha como o novo fenômeno paralímpico das piscinas

O jovem nadador, que compete como paralímpico há somente um ano, ascende em Tóquio como um novo astro da água. Com um ouro e uma prata já garantidos, ele promete mais. “Isso é só o começo”

Tokyo 2020 Paralympic Games - Swimming - Men's 100m Butterfly - S14 Final – Tokyo Aquatics Centre, Tokyo, Japan - August 25, 2021. Gabriel Bandeira of Brazil celebrates after winning gold and setting a Paralympic Record REUTERS/Molly Darlington
Tokyo 2020 Paralympic Games - Swimming - Men's 100m Butterfly - S14 Final – Tokyo Aquatics Centre, Tokyo, Japan - August 25, 2021. Gabriel Bandeira of Brazil celebrates after winning gold and setting a Paralympic Record REUTERS/Molly DarlingtonMOLLY DARLINGTON (Reuters)
Diogo Magri
São Paulo -
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O Brasil é uma potência paralímpica que a cada competição revela um fenômeno na água. Depois do Tubarão das Piscinas ―o campeão já aposentado Clodoaldo Silva―, e do multimedalhista Daniel Dias (que segue colecionando pódios), é a vez de o mundo observar admirado o despontar de Gabriel Bandeira. O jovem nadador de 21 anos garantiu ao país o primeiro ouro nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, levou a prata em sua segunda prova, nesta sexta-feira, e promete se consolidar como figurinha carimbada nos pódios do Japão.

Gabriel Bandeira compete há um ano e meio na natação paralímpica, mas já é recordista e campeão na Paralimpíada de Tóquio 2020. Formado na natação convencional, o brasileiro descobriu sua funcionalidade recentemente e passou a nadar na classe S14, para deficientes intelectuais. Aos 21 anos, chegou no Japão como maior esperança do esporte que terá a despedida do ídolo Daniel Dias. E cumpriu as expectativas: na primeira final paralímpica da sua vida, foi medalha de ouro e recordista da competição. Ele venceu os 100 metros borboleta na manhã desta quarta-feira (25) e foi o primeiro representante do Brasil a ouvir o hino nesta edição dos Jogos. Na sexta, voltou a aumentar a lista de conquistas brasileiras, com uma prata nos 200 metro livre.

O paulista de Indaiatuba, cidade a 100 quilômetros de São Paulo, completou a primeira final em que garantiu um ouro em 54s76. Foi o suficiente para bater o recordista mundial, o britânico Reece Dunn, que fechou em 55s12. O australiando Benjamin Hance (56s90) ficou em terceiro lugar. “Minha vida na natação paralímpica só está começando. Queria agradecer bastante o apoio da família e da minha avó”, disse Bandeira ao final da prova em entrevista para o SporTV. “Isso é só o começo. Dentro do possível, a prova foi boa. Ainda tenho mais cinco pela frente”, previu o medalhista.

Gabriel Bandeira celebra a prata conquistada nesta sexta-feira, após estrear com ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio.
Gabriel Bandeira celebra a prata conquistada nesta sexta-feira, após estrear com ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio. MARKO DJURICA (Reuters)

O futuro é mesmo promissor para quem mostrou tanto em tão pouco tempo. Gabriel começou na natação convencional aos 11 anos de idade, e nela treinou por quase uma década. O atleta foi diagnosticado durante a adolescência com hiperatividade e déficit de atenção, que ficaram mais evidentes em alguns atrasos na escola e dificuldades para evoluir o treinamento do esporte. Mas a ideia de fazer o teste para deficiência intelectual, que o incluiria na natação paralímpica, só veio no ano passado.

Alexandre Vieira, treinador de Bill —o apelido de Gabriel—, explicou ao portal ge que a hiperatividade e o déficit de atenção não são suficientes para o diagnóstico de deficiência intelectual. O que tornou o atleta elegível para a Paralimpíada foi um teste feito por uma neuropsicóloga que comprovou seu QI (quociente de inteligência) abaixo de 75. “No caso do Bill, ele tem TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), é hiperativo e também tem traços de autismo, mas não é diagnosticado ainda. Mas o que torna elegível para a classe S14 é fazer o teste de QI e ser abaixo de 75″, esclareceu Vieira. Na natação paralímpica, os deficientes físicos são contemplados nas classes S1 a S10, os deficientes visuais ficam nas classes S10 a S13, e os intelectuais na categoria S14.

Bandeira mal chegou na categoria e pulverizou quatro recordes brasileiros na primeira competição paralímpica que disputou, o campeonato brasileiro em fevereiro de 2020. Foi lá também que alcançou os índices que o classificaram para a Paralimpíada de Tóquio. Na estreia em competições internacionais, em janeiro de 2021, o nadador quebrou seis recordes pan-americanos. Foi medalha de ouro nos 100m borboleta, 100m peito, 100m costas, 200m medley, 100m e 200m livre no campeonato europeu na Madeira 2021, em Portugal. O nadador é não só esperança de medalhas em Tóquio 2020, como também um dos pilares da renovação da natação paralímpica brasileira. Na Rio 2016, a natação deu 19 dos 72 pódios para a delegação brasileira.

Assim como Bandeira, Gabriel Araújo (19 anos) foi outro jovem atleta do país a subir ao pódio no primeiro dia, com uma prata nos 100m costas categoria S2. São novas águas necessárias para um esporte que, ao lado do atletismo, é o carro-chefe do Brasil em Paralimpíadas. Afinal, a modalidade perderá Daniel Dias ao fim desta edição. Dias é o maior atleta paralímpico da história do país, com 14 medalhas de ouro até aqui, e anunciou que se aposentará depois da disputa no Japão. Assim, se por um lado o Brasil se despede de seu maior ídolo nas piscinas, vê despontar outra geração que promete manter o legado dos antecessores.

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